Pedro Adão e Silva: "Estou totalmente alinhado com a mensagem do Presidente"

O comissário executivo das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril pretende que as comemorações que arrancam na quarta-feira sejam "uma celebração da democracia hoje".

Pedro Adão e Silva, comissário executivo das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, afirma que há "total alinhamento" com o Presidente da República para privilegiar ações viradas para o futuro e para o envolvimento dos jovens na democracia.

"Estou totalmente alinhado com a mensagem do Presidente da República de virar as comemorações para o futuro. Devemos aproveitar este momento para evocar e homenagear os protagonistas, os movimentos que explicam a democracia, mas devemos ser capazes de transformar estas comemorações numa celebração da democracia hoje", declara Pedro Adão e Silva em entrevista à agência Lusa sobre as comemorações dos 50 anos do 25 Abril.

As iniciativas arrancam já esta quarta-feira com uma cerimónia solene em Lisboa, embora a Comissão Nacional das Comemorações, órgão atualmente liderado por Marcelo Rebelo de Sousa - e que aprova os programas da sua equipa executiva -, ainda não esteja constituída.

Mas Pedro Adão e Silva desvaloriza: "O Presidente da República decidiu que só nomearia esse órgão depois da formação do Governo. Sabemos que tudo isso se atrasou", esclarece.

Para o comissário executivo, no entanto, até agora, tem sido muito fácil articular o plano de trabalho com o Presidente da República.

"Tudo aquilo que se vai iniciar [na quarta-feira] já foi totalmente articulado e definido com o Presidente da República, sem nenhuma dificuldade. Estou totalmente alinhado com o modo como o Presidente da República olha para esta comemorações e com a tónica que tem colocado", reforça.

Já sobre o caso da demissão do general Ramalho Eanes da presidência da Comissão Nacional das Comemorações, por alegadas divergências com a Associação 25 de Abril, Pedro Adão e Silva não comenta o caso.

"Tenho não só enorme estima pessoal pelo general Eanes, como enorme admiração por ele. Tenho a certeza de que o general Eanes, em muitos momentos das comemorações, estará envolvido e presente", declara.

Militares e PSD

Questionado sobre o papel que vão assumir os militares da Associação 25 de Abril nas comemorações, o comissário executivo assegura que esta entidade vai estar envolvida em várias iniciativas, sendo a primeira, já esta quarta-feira, com a condecoração de militares de Abril.

"A escolha [dos militares condecorados] foi articulada entre a Associação 25 de Abril e a Presidência da República. Tenho partilhado com o coronel Vasco Lourenço -- e ele comigo -- várias ideias sobre a concretização de iniciativas. Já no dia 01 de abril, faremos uma homenagem, que tem várias dimensões, a um dos símbolos do 25 de Abril, que é Salgueiro Maia -- e essa homenagem também vai envolver a Associação 25 de Abril", revela.

Nesta entrevista, Pedro Adão e Silva, sociólogo e professor universitário, salienta a importância de virar as comemorações para o futuro e para os jovens, frisando que "a maior parte da população portuguesa já nasceu depois de 1974".

"Para muitos jovens, o 25 de Abril começa a ser uma memória distante e difusa - um evento histórico em relação ao qual já não têm proximidade", assinala, antes de se referir às elevadas taxas de abstenção eleitoral entre os mais jovens -- um fenómeno que indicia afastamento em relação à democracia.

Pedro Adão e Silva aponta em primeiro lugar "desigualdades, assimetrias e novas clivagens sociais".

"Há um outro lado, que é o da valorização da participação e da pertença democrática. Uma explicação para as pessoas votarem menos prende-se com a sensação de que votar serve para pouco. Entendo que a participação e o envolvimento corrigem essa sensação, mostrando que se pode de facto mudar quando se vota, quando se participa", afirma.

Por isso, no contexto das escolas, na perspetiva do comissário executivo, "é fundamental que se consiga mostrar que a participação e o envolvimento fazem diferença".

"Quando olhamos para as práticas democráticas portuguesas, onde se verificam enormes fragilidades é exatamente nos mecanismos de participação. Isso fragiliza a nossa democracia", conclui.

Outra preocupação da Comissão Executiva é levar as comemorações a todos os pontos do país.

"Uma das primeiras iniciativas é em Lamego. A chave está no envolvimento das câmaras municipais e das escolas. Por isso, uma das iniciativas é direcionada para o público infanto-juvenil e envolve as autarquias, a rede de cineteatros e as escolas", realça, antes de deixar a seguinte nota: "A forma como vejo estas comemorações e esta estrutura não é tanto como entidade promotora das comemorações por si só".

"É uma entidade que vai tentar que o país, nas suas várias organizações e instituições, tenha as suas próprias comemorações. Portanto, vai contribuir para que se multipliquem as comemorações", acrescenta.

Pedro Adão e Silva considera também essencial um envolvimento ativo do PSD e atribui as críticas do ano passado de Rui Rio à sua equipa ao "calor do momento político".

"As comemorações devem ser abertas, plurais e em torno do arco constitucional, em relação ao qual os partidos se reveem. Nem concebo umas comemorações dos 50 anos do 25 de Abril que não envolvam ativamente o PSD", declara Pedro Adão e Silva em entrevista à agência Lusa.

Comemorações abrem quarta-feira

As comemorações dos 50 anos do 25 de Abril de 1974 começam na quarta-feira com uma sessão solene em que serão condecorados militares da "revolução dos cravos" e na quinta-feira evoca-se a crise académica de 1962.

O programa dos primeiros dias destas comemorações, em que se assinala o marco de a democracia nascida em 25 de Abril de 1974 superar já em longevidade o período de ditadura resultante do golpe de 28 de maio de 1926, foi transmitido à agência Lusa pelo comissário executivo da Estrutura de Missão para as Comemorações, o professor universitário e sociólogo Pedro Adão e Silva.

Na quarta-feira, pelas 17.00, no Pátio da Galé, em Lisboa, as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, que se vão prolongar até dezembro de 2026, abrem com uma sessão solene que tem como primeiro momento a condecoração de militares de Abril pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

"Os militares foram decisivos para nós hoje estarmos a aproximamo-nos de celebrar 50 anos de democracia", justifica o presidente da comissão executiva.

As três principais figuras institucionais, o Presidente da República, o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, e o primeiro-ministro, António Costa, farão a seguir intervenções.

"Não é muito comum momentos de intervenção pelos três, o que dá conta da solenidade e importância do momento", acentua Pedro Adão e Silva.

Para além da componente solene e institucional, a cerimónia terá também outros momentos, designadamente dirigidos à juventude.

O compositor Bruno Pernadas escreveu uma música original para funcionar como hino dos 50 anos de democracia, e esse tema será interpretado (tal como aconteceu na gravação) por uma formação da Orquestra Geração - um projeto que tenta levar música erudita a contextos sociais considerados mais difíceis.

Alice Neto de Sousa, uma jovem poetisa, irá ler um poema original escrito a propósito dos 50 anos de democracia.

Ainda nesta cerimónia, será encerrada uma cápsula do tempo, contendo um conjunto de objetos e de materiais para serem abertos apenas em 2074, designadamente três cartas escritas por jovens portugueses de hoje, que foram vencedores do concurso de escrita do Plano Nacional de Leitura. Esses jovens vão escrever cartas aos jovens de 2074.

Na quinta-feira, quando por todos os distintos critérios de cálculo a democracia superar indiscutivelmente em longevidade o período de ditadura, o programa de comemorações terá então dois momentos.

Neste próximo 24 de março, Dia do Estudante, o foco vai estar no papel do movimento associativo estudantil, que é encarado como decisivo para se compreender o fim do anterior regime.

"Teremos um evento que evoca a crise académica de 1962, bem como outras crises académicas e contestações que ocorreram nas universidades até 1974. Na Aula Magna [da Reitoria da Universidade de Lisboa], será projetado um documentário original sobre as crises académicas e teremos um colóquio com testemunhos e com historiadores", observa Pedro Adão e Silva.

De acordo com o presidente da comissão executiva das comemorações, depois, no final do dia, no Museu de História Natural da Universidade de Lisboa, será inaugurada uma exposição intitulada "As primaveras estudantis -- da crise de 1962 ao 25 de Abril de 1974".

"Será uma exposição multimédia sobre o papel dos movimentos estudantis, com muitos documentos e originais. A carta de demissão de Marcello Caetano do lugar de reitor vai estar lá, bem como a final da Taça de Portugal de 1969, entre a Académica e o Benfica, com o galhardete do jogo, as camisolas dos jogadores Toni (Benfica) e Mário Campos (Académica), que ambos trocaram no final. É uma exposição que tenta mostrar o percurso dos movimentos estudantis e que tem como propósito falar aos mais jovens de hoje e perceber aquilo que aconteceu", assinala.

Também na quinta-feira, inicia-se a digressão pelo país do espetáculo "Mais Alto" sobre a importância da palavra, da música e da participação na vida em comum nas sociedades democráticas.

Um espetáculo que está direcionado para o público infanto-juvenil, com as escolas, e que é acompanhado por uma parte de conversa feita por um conjunto de músicos e por Isabel Minhós, do Planeta Tangerina.

"Este espetáculo andará pelo país até ao final do ano letivo", acrescenta Pedro Adão e Silva.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG