Uma rainha na Cova da Moura: Mathilde da Bélgica entre batuques e danças de Cabo Verde

Mathilde, rainha dos belgas, passou pelo bairro da Cova da Moura e conheceu a Associação Cultural Moinho da Juventude, que tem entre as suas fundadoras uma cidadã da Bélgica, Lieve Meersschaert.

Isabel, 50 anos e sete netos, estudou à noite para completar o 12º ano e diz que a comunicação é a base do trabalho que faz na Associação Cultural Moínho da Juventude. Está aqui desde 1991. Dina Rosário, empregada doméstica, 51 anos, nascida em Cabo Verde, vive na Cova da Moura há 39 anos e é uma defensora do Kola San Jon, uma celebração própria do bairro, inspirada nas festas do seu país natal, seguindo os passos do pai e do tio. Domingas Moreira, 46 anos, quatro filhas e um neto, está a terminar o mestrado de psicologia e também está ao serviço da associação. Fátima Resende, trabalha aqui há 20 anos, Edir Correia, animador socio-cultural, está à frente do projeto Sapura, cuja missão é mostrar o lado bom do bairro. Sandra Tavares, que trabalha o empowerment, e é funcionária do SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) fez sorrir a assistência revelando que esta terça-feira deixou de ser precária e é funcionária pública.

As histórias contam-se à volta da mesa, numa sala do primeiro andar da Associação Cultural Moinho da Juventude, com a rainha dos belgas, Mathilde, sentada ao centro. A visita à Cova da Moura, na Buraca, esta terça-feira, fez parte da agenda da monarca, a sós, no programa da visita oficial de três dias que começou na segunda-feira em Lisboa e termina amanhã no Porto. À direita da soberana senta-se Lieve Meersschaert, uma belga que escolheu a Cova da Moura para viver em 1982 e lançou as sementes desta associação, reclamando saneamento básico à volta de um chafariz.

Lieve, que é na realidade Godelieve Meersschaert e tem 73 anos, diz ao DN que é já mais portuguesa do que belga ("Vivo em Portugal há 40 anos, mais do que vivi na Bélgica"). Foi ela, ao lado de Isabel e de Vitalina, quem recebeu a rainha.

Pontualmente às 15.30, como indicado pelo protocolo, o Mercedes preto adornado com as bandeiras de Portugal e da Bélgica, entrava na Cova da Moura precedido pelos dois batedores de mota com as luzes azuis a piscar. Uma pequena multidão esperava Mathilde. Aos primeiros cumprimentos seguiu-se a visita à creche que acolhe meninos dos três meses aos 2 anos. A rainha pega numa menina ao colo antes de entrar na sala e se sentar nas cadeiras pequeninas e perguntar os nomes. "Enzo? Eu sou a Mathilde."

Os fotógrafos belgas e portugueses acotovelam-se no cimo das escadas que levam à sede da Moinho da Juventude, No topo, Dulce, bem-disposta, oferece a bandeira de Cabo Verde à rainha. Riem-se. Outra moradora entra na conversa e, de repente, os rostos ficam sérios.

Maria Amélia contou à rainha como perdeu o filho de 17 anos, em 2001. Foi morto pela polícia, conta ao DN, rosto fechado. Depois da comitiva belga abandonar o bairro e se calarem os batuques, volta atrás. "O meu filho chamava-se Ângelo de Jesus".

"Já passámos muito aqui", diz Lieve ao DN, lembrando este caso - "o caso do filho da Maria Amélia, morto pelas costas por um polícia". "Assistimos a situações muito duras com os nossos jovens." Esta terça-feira, ao mesmo tempo que a Associação Cultural Moinho da Juventude recebia a rainha Mathilde, em Sintra decorria mais uma sessão do julgamento de 17 polícias acusados de agredir moradores deste bairro na esquadra de Alfragide.

Mais um lance de escadas, e a porta abre-se para uma sala com espelhos e piano onde os membros da associação esperam Mathilde.

"Estou muito impressionada com a vossa resiliência e o que fizeram uns pelos outros. Continuem a aplicar o vosso talento a ajudar a vida dos outros", disse, breve, a rainha no final das intervenções, mais curtas do que os participantes antecipavam, antes das despedidas ao som das cabo-verdianas Finca-Pé e dos batuques Kola San Jon, duas iniciativas da Associação Cultural Moinho da Juventude, nascida oficialmente em 1987.

Uma associação para levar água às casas

Em 1982, Lieve e o marido, que morreu há três anos, foram viver para casa de uma amiga na Cova da Moura. Contavam ficar um mês, ficaram um ano. Depois, em três horas, encontraram a casa onde a belga vive até hoje. E em 1984, à volta de um chafariz que já não existe, começaram a reunir-se para conseguir levar água às casas. Depois vieram as empregadas domésticas e as reuniões com os seus sindicatos e a biblioteca que em poucos meses já tinha 700 leitores. Recusa protagonismos. "São eles, não fui eu. São sinergias", diz. E conta que o bairro, às portas de Lisboa, entrou no radar do anterior embaixador da Bélgica, Boudewijn Dereymaeker, em Portugal, que esteve na Cova da Moura "e gostou muito do projeto". Acredita que foi por isso que a rainha Mathilde aqui esteve.

Lieve espera que a visita da rainha tenha outro efeito: "A legalização das casas do bairro no momento em que há uma nova lei da habitação, [consagrando] que a habitação é um direito. Estamos à espera que a presidente da câmara municipal da Amadora [Carla Tavares]. Agora há a oportunidade". Seis mil pessoas, contas de Lieve, vivem hoje na Cova da Moura.

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