Trabalhadores de fábrica alentejana escrevem a Costa a pedir nacionalização

Os antigos trabalhadores da Moura Fábrica Solar enviaram hoje uma carta a António Costa para tentar salvar a empresa, acompanhada de um pedido de audiência

Os antigos trabalhadores da Moura Fábrica Solar (MFS), que fechou há um mês e deixou no desemprego mais de cem pessoas, vão propor ao primeiro-ministro a nacionalização da empresa, em nome da aposta do governo na "transição energética" e no combate às alterações climáticas. Os trabalhadores enviaram hoje uma carta a António Costa, acompanhada de um pedido de audiência.


A carta, assinada por 76 ex-funcionários da MFS, e com o apoio da Campanha Empregos para o Clima e pelo Sindicato dos Trabalhadores da Energia e Águas de Portugal, questiona a racionalidade de encerrar uma fábrica com provas dadas na área das energias alternativas, numa altura em que Portugal aposta no cumprimento do Acordo de Paris e na execução do Roteiro Nacional para a Descarbonização e do Plano Nacional Energia e Clima 2030. A fábrica de painéis solares de Moura, detida pelos espanhóis da Acciona (que também exploram o centro fotovoltaico da Amareleja), anunciou há um mês o encerramento da unidade fabril e o despedimento dos seus 105 trabalhadores. A fábrica de Moura, inaugurada há cerca de dez anos, em 2008, estaria a ter problemas de procura, uma vez que a União Europeia tem vindo a eliminar tarifas sobre a importação de painéis solares comprados à China.


Um encerramento que representou "um rude golpe para a economia local, para o esforço no combate às alterações climáticas e para a vida dos seus 105 trabalhadores especializados", frisam os trabalhadores. A situação da MFS é, para os signatários da carta, paradoxal: enquanto o governo assume o combate às alterações climáticas, mas também ao despovoamento e à queda demográfica como prioridades, há uma indústria de referência no interior que fecha portas. "Trata-se de uma indústria solar, apontada em todas as circunstâncias e planos como uma indústria de futuro, inserida numa política pública apostada na descarbonização e no combate às alterações climáticas, com um quadro de pessoal altamente especializado e inserido até no circuito de formação de outros trabalhadores na área da energia solar (em cooperação com o IEFP), situada no interior do país, numa zona rural com elevado nível de desemprego, que, em pleno momento em que é assumido a todos os níveis a necessidade de transformar o mix energético do país a favor da energia solar, encerra. Não nos podemos conformar com esta realidade".


Razões que levam os trabalhadores e as organizações que os apoiam a defenderem "uma intervenção pública, nacionalizando-se a empresa" para continuar a produzir painéis solares para edifícios públicos e apoiar a transição energética e o combate às alterações climáticas. "A massa crítica de técnicos especializados que existe hoje em Moura não pode ser desperdiçada, empurrada para fora da região e do país, por falta de emprego numa área absolutamente crucial". Um apelo que tem eco no site da campanha Empregos para o Clima, que na sua carta de intenções defende a "criação de emprego público digno e estável em setores estratégicos, para reduzir as emissões de gases de efeito de estufa na atmosfera".


Em declarações ao DN, um dos signatários do documento informa que a meio da tarde de segunda-feira ainda não tinham tido qualquer noção da resposta que podem vir a ter, já que a carta foi enviada apenas hoje, precisamente no dia em que os trabalhadores começaram a receber as indemnizações. "Mas a Câmara de Moura já nos avisou que não deve ser fácil conseguir este processo de nacionalização", admite Paulo Lima Coelho. "De qualquer forma, a carta serve para chamar a atenção para a situação destes trabalhadores". É que se este carpinteiro de 44 anos até tem boas perspetivas de emprego, "há muitos outros que vão ter dificuldades em arranjar trabalho, incluindo muitos casais que ficaram no desemprego".

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