Tancos e o "papagaio mor do Reino". O caso que abalou a manhã da campanha

A manhã do quarto dia de campanha eleitoral foi marcada pelas ondas de choque das notícias ligando a Presidência da República à suposta encenação do descobrimento das armas roubadas em Tancos

Assunção Cristas foi a exceção. De resto, António Costa, Rui Rio, Catarina Martins, Jerónimo de Sousa e André Silva esforçaram-se esta manhã, à margem de ações de campanha, por desvalorizar as notícias - que começaram ontem à noite na TVI e hoje de manhã se desenvolveram no jornal I - ligando a Presidência da República (no caso, um ex-chefe da Casa Militar de Belém) à suposta encenação da descoberta das armas roubadas de Tancos no final de junho de 2017.

André Silva (PAN) e Catarina Martins (BE) pediram explicitamente para o tema "Tancos" não invadir a agenda eleitoral.

"Estarei disponível para comentar algo concreto e objetivo e não para alimentar mais especulações."

"Tancos não deve entrar na campanha", disse André Silva, quando questionado à margem de uma ação de campanha, junto a um olival intensivo, em Santiago do Cacém, no distrito de Setúbal. "Não queria alimentar mais ruído em torno de um caso que precisa de muitos mais esclarecimentos e, quando houver, estarei disponível para comentar algo concreto e objetivo e não para alimentar mais especulações", acrescentou.

"Espero que seja a última vez que falo sobre a matéria."

Catarina Martins diria quase o mesmo, falando com jornalistas no final de uma visita ao Mercado de Benfica (Lisboa): "Este é um caso que não é de agora e portanto que eu julgo que não deve ser um caso de eleições, até porque já decorre há bastante tempo. Como sabe a acusação ainda não se conhece e portanto eu não vou fazer qualquer tipo de especulação sobre essa matéria", começou por dizer.

Ou seja, "a justiça deve fazer o seu caminho e deve apurar todas as responsabilidades e todas as consequências" porque "Portugal é uma democracia e é assim que deve funcionar". "Espero que seja a última vez que falo sobre a matéria, até porque se aguarda a todo o momento a acusação, no caso de ela existir, e o que haja a investigar contra quem quer que seja, sem qualquer limitação, seja investigado", concluiu.

"É leviano envolver o Presidente da República numa polémica destas, não o devemos fazer."

Já Rui Rio e Jerónimo de Sousa foram mais explícitos a salvaguardar a posição do Presidente da República.

"Acho que é leviano envolver o Presidente da República numa polémica destas, não o devemos fazer", vincou o líder do PSD, entrevistado esta manhã pela TSF, em Beja.

"É a palavra do Presidente. Não tenho nenhuma razão para suspeitar."

"Ouvi declarações do Presidente da República a afirmar claramente que não tem a ver com qualquer situação menos clara. É a palavra do Presidente. Não tenho nenhuma razão para suspeitar", acrescentaria Jerónimo de Sousa, à margem de uma visita a uma exploração de cogumelos em Arcos de Valdevez (Viana do Castelo).

Cristas ataca Governo

Dos líderes dos partidos parlamentares em campanha, Assunção Cristas acabou por ser a única a explorar o caso para atacar o Governo.

"Estamos a uma semana e meia de eleições, o Governo esteve mal, atuou mal, não acautelou o furto e aparentemente foi conivente ou cúmplice no encobrimento ou farsa montada para a recuperação do material", afirmou, falando com jornalistas à margem de uma visita à fábrica da Continental em Vila Real.

Segundo acrescentou, "as pessoas têm na sua mão a maior arma para mostrarem se convivem bem ou mal com este tipo de situação". E não só a de Tancos como também pelo facto de ter havido na legislatura cinco membros do Governo que se demitiram e que hoje são arguidos.

Np decorrer da legislatura, recordou Cristas, o CDS foi "até ao limite dos [seus] poderes parlamentares de censura a um Governo que falhou muito ao país ao longos destes quatro anos". Mas já quanto ao envolvimento do PR, refugiou-se numa frase, repetida várias vezes: "Nós estamos a tratar de eleições legislativas e não vou comentar mais este assunto."

"O major Vasco Brazão não tem nenhum elemento ou indicação ou suspeita de que o Presidente da República tivesse conhecimento do que quer que fosse."

As notícias relacionando Belém com Tancos dão conta, no essencial, de dois factos: Por um lado, segundo o Jornal I, um antigo chefe da Casa Militar do Presidente da República, tenente-general João Cordeiro, teria sido previamente informado pelo então diretor da Polícia Judiciária Militar (PJM), coronel Luís Vieira, da encenação sobre o descobrimento das armas roubadas em Tancos. Cordeiro demitiu-se do cargo em Belém em novembro de 2017, cerca de um mês no assalto a Tancos (revelado em 18 de outubro); por outro lado, de acordo com a TVI, o major Vasco Brasão, investigador da PJM, teria sido intercetado numa conversa com uma irmã a dizer que o "papagaio mor do Reino" sabia de toda a operação de encobrimento - e o MP interpretou que o "papagaio mor do Reino" poderia ser uma referência a Marcelo.

Ontem de manhã, em declarações à TSF, Ricardo Sá Fernandes, advogado de Brazão, desmentiria esta interpretação. "Não metam o Presidente da República nisto porque ele não tem nada a ver com isto", afirmou. Acrescentando: "O major Vasco Brazão não tem nenhum elemento ou indicação ou suspeita de que o senhor Presidente da República tivesse conhecimento do que quer que fosse."

O furto das armas de Tancos foi revelado em 29 de junho de 2017. Em 18 de outubro do mesmo ano a PJM noticiaria que as armas tinham sido descobertas, num campo na Chamusca.

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