Portugueses na Europa. "O caminho está aberto aos populismos e à desinformação"

Sérgio Soares, gestor, residente em Espanha

"Em Espanha, mais ainda que em Portugal, temos a sensação de que a Europa e a consciência de sua importância na vida de todos, não existe.

Numas eleições marcadas para uma data tão próxima das eleições legislativas, vividas com grande expectativa e com um resultado admirável em termos de participação (a abstenção foi das mais baixas na história da democracia), as europeias são uma continuação dos jogos políticos, internos de cada partido e externos na relação com as forças que poderão configurar um Governo e seus opositores. Um jogo de sobrevivência.

Pouco debate em torno da importância da Europa numa conjuntura internacional tão importante, onde um bloco europeu unido seria tão importante para a manutenção de um equilíbrio de blocos mundiais.

Para um português vivendo em Espanha, ainda que curioso sobre as temáticas do debate político, as eleições são um ruído de fundo e, como para muitos espanhóis, uma câmara de espera para o jogo de coligações legislativas possíveis.

A solução à portuguesa é comentada, mas apesar de existirem similitudes em Espanha os partidos à esquerda do PSOE são muito menos "institucionais" que o PC português. Os extremismos de esquerda muito mais populistas e o espetro do independentismo torna os equilíbrios muito pouco alinhados com uma política (aparente ou real) de coerência ideológica.

Podíamos esperar uma discussão sobre o papel da Europa na guerra tecnológica que se vive globalmente, que medidas de proteção do mercado livre num contexto de domínio absoluto dos gigantes da web ou, por exemplo, como ajudar a proteger o poder da comunicação social como auditor último da informação nas sociedades modernas. Também podíamos esperar posições sobre mudanças climáticas e as medidas para limitar a sua progressão.

Mas não. O debate centra-se na "espuma dos dias" nos cenários pós eleitorais para os líderes dos partidos em piores situações e para uma empolgada e inútil avaliação de caráter de uns e outros.

O nível de vida em Espanha continua a ser hoje, como o foi durante décadas, muito superior ao da generalidade dos portugueses. Só estes aliás, erradamente, pensam que Portugal e Espanha estão alinhados no acesso à educação, a saúde, ao rendimento. Não estão.

Neste tema da importância dada à Europa porém, há alinhamento. E não é um alinhamento bom. O caminho está aberto a todos os populismos e ao desastre da desinformação pela importância dada ao que pouco importa e pela vivência alheada que os cidadãos têm da sociedade onde vivemos e de seus reais desafios.

O pior estará para vir, infelizmente."

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