PSD: Política de Costa "é caldo de cultura para extremismos"

Sobre as eleições na Andaluzia, partidos portugueses apontam o dedo aos extremismos, que afastam a curto prazo de Portugal. Negrão acusa Governo português de ajudar a criar o ambiente propício ao surgimento de populismos

"Um primeiro-ministro e um Governo que foge às suas responsabilidades, que não toma boa conta das contas do país e que não cuida dos seus cidadãos, equivale à criação de um caldo de cultura favorável aos extremismos", defendeu esta segunda-feira o líder parlamentar do PSD, Fernando Negrão, comentando ao DN o resultado das eleições regionais na Andaluzia, em Espanha.

Portugal tem estado imune a fenómenos extremistas como aqueles que atravessam a Europa e que chegaram agora ao Parlamento andaluz, com o movimento de extrema-direita Vox a obter 12 lugares.

Para a vice-presidente da Comissão Parlamentar dos Assuntos Europeus, a socialista Margarida Marques, "as características da democracia portuguesa e o próprio xadrez partidário não parecem favoráveis à emergência de forças com estas características, com estas orientações políticas", como o movimento Vox, mas admite que "não é um adquirido".

É este adquirido que Negrão questiona, numa resposta escrita ao DN. O tal "caldo de cultura" que o atual primeiro-ministro e Governo estão a fomentar, no entendimento do social-democrata, proporciona o surgimento de extremismos. "Os de esquerda já conhecemos e não gostamos. Quanto aos de direita, embora ainda não organizados, tudo deverá ser feito para serem desmascarados a tempo de evitar no nosso país aquilo que já está a acontecer numa região de Espanha que é bem conhecida e querida por muitos portugueses", atira o líder do grupo parlamentar social-democrata.

Confiante de que o reflexo da extrema-direita "não se fará sentir a curto prazo", Negrão considera que "poderá vir a sentir-se a médio e longo prazo". E depois joga ao ataque na frente política interna: "A curto prazo o que temos é uma onda de descontentamento sério relativamente ao PS que, governando com a extrema-esquerda, degrada as contas públicas, com o aumento visível da dívida pública e a degradação das exportações, e esquece os portugueses", apontando os exemplos dos incêndios, da estrada de Borba "ou quando retira aos portugueses cuidados de saúde essenciais para a sua sobrevivência".

Margarida Marques prefere sublinhar que tudo deve ser feito para que a democracia e os valores da democracia sejam preservados. "Não estou a dizer e não é de considerar que estamos num sistema democrático que é imutável", aponta, mas sublinha que "estamos num sistema democrático" pelo qual "temos de continuar a lutar".

Não acreditando "que os partidos democráticos portugueses apoiem" fenómenos como estes, a deputada socialista defende que "é preocupante que o movimento Vox tenha tido 12 deputados". Este "perigo para a democracia", como classifica Margarida Marques, merecem a atenção de todos na União Europeia, por causa dos "valores não democráticos" que apregoam, com um "discurso antifeminista", de um partido "que quer revogar a lei da violência de género" e que está contra a imigração.

Fernando Negrão atira ao alvo de quem governou a Andaluzia nestas últimas décadas. "Foram mais de 40 anos de governo de um só partido, o PSOE, curiosamente numa das regiões mais pobres de Espanha. E digo curiosamente porque os socialistas anunciam sempre revoluções de justiça social que, infelizmente, vão sendo toleradas até ao seu colapso. Colapso esse que, apesar da líder socialista dessa região ser uma das dirigentes mais influentes do PSOE, acabou por se verificar", notou o líder da bancada social-democrata. "Quarenta anos em que os socialistas espanhóis não resolveram nenhum problema estrutural. Tudo para os socialistas é tático", acusa.

O PCP, também numa resposta escrita, enviada pelo seu gabinete de imprensa, identifica "dois elementos mais significativos, indesligáveis entre si" e que "relevam dos resultados das eleições" na Andaluzia: "A clara penalização dos partidos que em Espanha têm conduzido uma política de exploração contrária aos interesses dos trabalhadores e dos povos de Espanha; o espaço que essa política abre a projetos populistas e de extrema-direita."

Segundo a referida nota, enviada ao DN, "a prevenção do crescimento de forças de extrema-direita assegura-se dando combate a políticas - sejam as que resultam do processo de integração capitalista da UE ou outras - que as promovem", mas também "previnem-se" (num futuro, em Portugal também) "dando-lhe também combate evidenciando o seu papel como força mais reacionária ao serviço dos interesses do grande capital e não lhes dedicando a promoção de que têm em alguns setores da comunicação social".

Já para Fernando Negrão, "o resultado só impressiona quem não acompanha o que ali se passa já há alguns anos". E completa: "A extrema-direita vinha fazendo o seu percurso, aproveitando de forma demagógica e populista como é seu hábito, as debilidades, a incompetência e a própria retórica socialistas. É grave o resultado destas eleições, porque é sempre grave ver crescer a intolerância, a ignorância e a demagogia. Mas existem causas e responsáveis."

O líder da bancada social-democrata espera que os partidos de centro direita espanhóis consigam "criar uma solução de governo regional, com a séria convicção que não deve dar abrigo aos extremos, sejam de direita ou de esquerda".

Questionada sobre a importância das eleições europeias de maio de 2019, a deputada socialista Margarida Marques (que foi secretária de Estado dos Assuntos Europeus, no atual Governo) espera que esse ato eleitoral se traduza numa "maioria de deputados que reflitam um sentimento democrático na União Europeia" e desejando "que o pilar da esquerda e do centro-esquerda tenha um peso importante no Parlamento".

O CDS recusou-se comentar, tal como o Bloco de Esquerda. No Twitter, a deputada bloquista Isabel Pires, que é a coordenadora do grupo parlamentar do BE na Comissão de Assuntos Europeus, deixou o desabafo de quem acabava de chegar da Catalunha e leu num jornal catalão de que o Vox obteve representação em todas as províncias da Andaluzia. "Aterrar em Portugal com esta notícia é mau. O mau resultado de normalizar o discurso e a ação de grupos claramente fascistas e com discursos de ódio é este", defendeu.

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