"Nada está perdido, pelo contrário a luta está ganha", disse João Semedo após o chumbo da eutanásia

Bruno Maia, Gilberto Couto e Jorge Espírito Santo são médicos que ajudaram a fundar o Movimento Morrer com Dignidade. Acompanharam João Semedo, ou, simplesmente, o João, nos últimos tempos e nesta última causa. Dele dizem ser "um homem bom", que nunca desistia. Até no dia 29 de maio, quando o Parlamento chumbou os projetos sobre eutanásia.

Os amigos e companheiros na luta pela morte assistida, João Ribeiro dos Santos e Laura Ferreira dos Santos, deixaram-lhe um legado em 2017, quando morreram também vítimas de cancro: o levar para a frente o Movimento Cívico pela Despenalização da Morte Assistida. E ele assim o fez. "Agarrou esta causa com a energia, a intensidade e a responsabilidade que era preciso", contam. Por uma questão pessoal?, perguntamos. "Não", definitivamente, dizem-nos. Mas "também", porque em "última análise a questão é pessoal, de liberdade individual", argumenta Jorge Espírito Santo, o médico oncologista do Hospital do Barreiro, que integra o movimento e o conhecia há anos. Mas "não acredito que o que mobilizava o João fosse apenas o facto de estar doente. Não, de todo. Se não estivesse doente mobilizava-se à mesma. Era uma questão de princípio e ele era um homem de princípios", remata.

João Semedo, de 67 anos, morreu nesta terça-feira. O anúncio da sua morte, já esperada entre os que lhe eram mais próximos, surpreendeu o país e desfiou um rol de reações e de memórias da sua vida na política, desde o rompimento com o PCP à fundação do Bloco de Esquerda, até às lutas pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS), a última com o amigo António Arnaut e com uma proposta para uma nova Lei de Bases da Saúde, que titularam Salvar o SNS. Semedo lutava há um ano contra um cancro nas cordas vocais, "muito complicado", afirmam-nos, que o fez "voltar atrás nalgumas situações", mas "nunca desistir." Mesmo quando no dia 29 de maio os deputados da Assembleia da República chumbaram os quatro projetos, de PAN, BE, PEV e Verdes, que estavam em discussão sobre a despenalização da morte assistida, "ele não desistiu". A mensagem enviada por e-mail aos que o acompanharam nesta luta foi, mais uma vez, positiva. "Todos nós tínhamos ficado com pena com o resultado da votação, e ele enviou um e-mail a dizer que 'nada estava perdido, pelo contrário. A luta estava ganha, tinha sido apenas uma fase dessa luta'. Ele era assim", relembra Jorge Espírito Santo. Por isso, estes médicos asseguram que a última causa que abraçou foi "muito mais do que uma causa pessoal. Foi um dever cívico que ele queria deixar à sociedade portuguesa".

O ex-líder do Bloco de Esquerda já não veio a Lisboa, como contava fazer, para participar no lançamento do seu livro Morrer com Dignidade, no dia 23 de maio, no Parlamento. A doença tinha voltado a atacar, deixando-o muito debilitado fisicamente. No dia 29 de maio, também não pode estar presente, mas nunca deixou de comunicar com os mais próximos por e-mail ou pelas redes sociais. "Estivemos sempre em contacto. Ele queria muito ter estado presente no dia 23 e a 29, mas não estava em condições de fazer a viagem. Teve pena", conta Gilberto Couto, que o conheceu em 2015 no âmbito da fundação do movimento e que depois o ajudou na edição do livro. Dele o médico Gilberto diz que reterá sempre a imagem de "um homem bom, determinado, abnegado".

E lembra que, apesar da doença e da luta de há anos, João pouco falava do assunto, mostrando-se sempre bem-disposto e a cuidar de tudo o que havia na agenda do movimento, até março ou abril deste ano, quando começou a querer passar algumas tarefas para outros elementos. "Nós estávamos tão habituados a que ele dirigisse a agenda que ainda insistimos para ficar com algumas coisas, mas ele já tinha percebido o que ia acontecer e disse-nos: 'Quero fazer isto, não vale a pena continuarmos com ilusões'."

As tarefas foram divididas, mas João Semedo não deixava de responder a quem lhe enviava e-mails, fosse para pedir uma declaração, entrevista ou qualquer outra informação. "Quando a doença lhe coartava o ritmo, ele ficava triste no início, mas acabava sempre por voltar com a mesma energia, ideias e planos para o futuro", desabafa Bruno Maia, também do Porto como Semedo, médico, que se cruzou com o ex-líder do Bloco de Esquerda quando os dois foram candidatos a uma lista para a Câmara de Gondomar, nas eleições de 2005, contra Valentim Loureiro. Desde aí, as suas vidas foram-se cruzando, por "uma série de acasos felizes que me levaram a trabalhar com ele também em outros contextos. E, desde essa altura, fez sempre parte da minha vida", conta.

Para Bruno Maia, a notícia da partida de João Semedo era aguardada. Nas últimas semanas já não foi possível vê-lo, os últimos e-mails trocados foram no final de maio e início de junho, João ficará na sua vida como "um conselheiro". "Quando me sindicalizei o João tinha muita coisa para me dizer, depois voltámos a estar juntos numa lista pelo círculo do Porto nas legislativas de 2009. Mais tarde fui par a direção do Bloco, e ele lá estava como coordenador com a Catarina Martins, e por fim juntámo-nos no movimento. Esteve sempre ativo até ao fim. Ele era assim. Nunca pensou em deixar de lutar por esta causa."

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