Marcelo: "Abril não nasceu para aqueles que o fizeram"

Longe vão os tempos da rutura da Associação 25 de Abril com o PR, no tempo de Cavaco. Marcelo participou no jantar dos capitães - e com Costa a seu lado. Mas não deixou de lhes deixar um recado.

"Heróis de Abril". Foi assim que esta noite, na Estufa Fria, em Lisboa, o Presidente da República se dirigiu aos militares que fizeram a revolução dos "cravos" em 1974, reunidos num jantar promovido pela Associação 25 de Abril, iniciativa que reuniu cerca de 550 participantes, segundo a organização.

O Presidente deu o tom para aquele que será o seu discurso de amanhã, na sessão solene parlamentar comemorativa da data, sublinhando as virtualidades de qualquer democracia, por pior que seja, face às ditaduras. "A pior das democracias é melhor que a mais ambiciosa e digna das ditaduras", salientou.

Mas não sem, pelo meio, enfatizar fortemente que face aos crescimentos dos "populismos" e "xenofobias", a democracia é uma obra em permanente construção que exige constante atenção: "Não há adquiridos", disse, falando na liberdade, na democracia e na justiça.

"Não queremos voltar para trás e não voltaremos para trás", afirmou ainda, para depois, já no final da sua curta intervenção, voltar à carga: "O 25 de Abril não é passado, é futuro, e tem de ser construído todos os dias."

E aos capitães - tendo sentado a seu lado o presidente da Associação 25 de Abril, Vasco Lourenço - deixou também um recado, sugerindo que não se sintam proprietários da data e dos seus valores: "O 25 de Abril não nasceu para aqueles que o fizeram, nasceu para os do futuro."

O jantar estava marcado para se iniciar às 20h00 mas Marcelo só chegou pelas 20.33, tendo à sua espera, à porta da Estufa Fria, pelo menos há 30 minutos, o primeiro-ministro, além de Vasco Lourenço, da ministra da Cultura, Graça Fonseca, e do presidente da câmara de Lisboa, Fernando Medina, bem como outros dirigentes da associação.

Costa não levou a mal o atraso - pelo contrário, recebeu Marcelo com sorrisos e oferecendo-lhe para pôr na lapela um cravo vermelho que lhe haviam oferecido há minutos: "Já lhe dei um guarda-chuva [perante uma chuvada em Paris, nas comemorações de 2016 de 10 de Junho], agora dou-lhe um cravinho."

Para com Fernando Medina, Marcelo foi efusivo: "Já tinha saudades suas!" - e depois começou a contar-lhe uma história de uma senhora que se tem dirigido a Belém pedindo os empenhos da autarquia para um qualquer assunto do seu interesse.

O programa do evento só previa uma intervenção - a do coronel Vasco Lourenço - mas, como não poderia ter deixado de ser, falaram também o Presidente da República e o primeiro-ministro (que aliás saiu da sala assim que Marcelo acabou de falar, para ir participar na sua residência oficial num programa com que a Rádio Renascença assinala a revolução.

Costa reivindicou-se como pertencendo, enquanto jovem em 1974, à "primeira geração que pode crescer em liberdade" - falando por isso em "gratidão" aos militares que fizeram o golpe que deitou abaixo uma ditadura já velha de 48 anos.

Depois procurou desmentir a ideia - que Chico Buarque eternizou em música - de que o espírito do 25 de Abril morreu não muito depois da revolução: "Nunca aceitem a ideia de que 'foi bonita a festa, pá". "O 25 de Abril foi crescendo", e os três "d" que o marcaram "nunca terão fim", mesmo, para além dos de "desenvolvimento" e "democracia", o de "descolonização", porque é preciso sempre "reinventar a relação" de Portugal com os países que foram até 1974 colónias de Portugal.

Ao mesmo tempo, o primeiro-ministro procurou sublinhar o imenso contraste que é viver em Portugal hoje com o que era há 45 anos, quando os capitães destronaram o regime liderado por Marcelo Caetano. "Ninguém hoje imagina o país que éramos. Basta ver as fotografias de então do Eduardo Gageiro e do Alfredo Cunha e de outros. Essa é a maior vitória do 25 de Abril."

Vasco Lourenço foi o primeiro a intervir - e começou logo por dizer, na ideia que depois seria contrariada por Costa, que "a festa foi bonita mas durou menos do que ambicionámos".

Depois, numa aparente referência ao governo liderado por Passos Coelho entre 2011 e 2015 - quatro anos em que os capitães de Abril se recusaram a ir ao Parlamento para a sessão comemorativa da data - salientou como a democracia que a revolução acabou por trazer conduziu à derrota dos "mercenários da desgraça".

Falou ainda da ascensão dos populismos - mas para dizer que "Portugal continua a não ser presa fácil" desses fenómenos, embora "a memória do povo seja curta", ou seja, já não registe os tempos de ditadura anteriores a 1974.

Daí concluiu com o compromisso da associação que lidera e dos militares de Abril ainda vivos: "Tudo faremos para que os nossos governantes resistam à pressão dos novos falcões."

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