Listas do PSD. Está quase a começar a grande noite das facas longas

O Conselho Nacional do PSD discute e vota esta noite em Guimarães o programa eleitoral e as listas de deputados que o partido apresentará nas legislativas. Votação de braço no ar - algo no mínimo controverso

É difícil saber por onde começar quando se fala do processo de formação das listas de candidatos a deputados do PSD. Já se calculava que Rui Rio fosse impor a sua nova ordem, eliminando todos os vestígios de "passismo". Mas nunca se imaginou, por exemplo, que o líder do partido não seria cabeça de lista. Eis o guião possível deste folhetim.

Ponto de partida

É difícil estabelecer para o PSD um ponto de partida como meta eleitoral visto que o partido se apresentou nas legislativas de 2015 coligado com o CDS, obtendo 36,86% dos votos. No total dos 102 deputados eleitos pela coligação, o PSD ficou com 89 (o PS, com 32,3%, elegeu 86). A última vez que o PSD foi a votos isoladamente ocorreu em 2011. Passos Coelho venceu com 38,65% (108 deputados). O pior resultado do PSD foi nas eleições legislativas de 1976, com Sá-Carneiro na liderança: 24,3% (73 em 250 deputados). Depois de Cavaco Silva, que deu ao partido duas maiorias absolutas (1987 e 1991), o pior resultado foi com Santana Lopes à frente do partido: 28,77% (75 em 230 deputados).

Votos de braço no ar

Estas noite, as votações das listas de candidatos a deputados e do programa eleitoral serão de braço no ar. É uma opção controversa - pelo menos no caso das listas de deputados - mas tornada possível pelo regulamento interno do Conselho Nacional do PSD aprovado em 26 de abril deste ano. Esse regulamento diz expressamente que "as votações do Conselho Nacional realizam-se por braço no ar", nomeadamente quando estão em causa "deliberações sobre a proposta de listas de candidatura ou de programa eleitoral a apresentar pelo partido a eleições".

Pode haver quem impugne deliberações feitas deste modo visto que os estatutos do partido dizem que "a organização e prática do Partido são democráticas, assentando em [...] eleição, por voto secreto, dos titulares dos órgãos do Partido" e considerando que um dos órgãos nacionais do partido é o seu grupo parlamentar.

No Twitter, havia quem contestasse fortemente este método deliberativo, como por exemplo o ex-deputado Luís Menezes, que também criticou duramente a exclusão de um antigo secretário-geral do PSD no tempo de Passos Coelho, José Matos Rosa.

Rejuvenescimento

Rui Rio decidiu promover uma aposta arriscada colocando à frente de várias listas de círculo personalidades sem nenhuma experiência parlamentar e desconhecidas da opinião pública em geral. Exemplos: Hugo Carvalho, presidente do Conselho Nacional de Juventude, será o número um da lista do Porto; Filipa Roseta, vereadora em Cascais, ocupará a mesma posição em Lisboa; Ana Miguel Santos (advogada), em Aveiro (o círculo que foi encabeçado por Luís Montenegro em 2015); Mónica Quintela (a advogada do homicida Pedro Dias) em Coimbra. O arrojo de Rio foi elogiado, mesmo por adversários internos. Mas as sondagens não têm premiado esta opção.

Renovação

A seguir, ao PAN, o PSD é quem mais renova nos cabeças de lista. Em 22 círculos, 17 serão novos. Uma renovação portanto na ordem dos 77%. Só não mudam Adão Silva (Bragança), Carlos Peixoto (Guarda), Luís Leite Ramos (Vila Real), Carlos Gonçalves (Europa) e José Cesário (Fora da Europa).

Líder fora dos cabeças de lista

Formalmente, como líder do PSD, Rui Rio é candidato a primeiro-ministro. Por isso faria sentido que, seguindo-se a tradição, fosse cabeça de lista num círculo, que poderia ser o de Lisboa - como cidade centro do poder - ou o do Porto (cidade onde nasceu há 61 anos, onde vive, e da qual foi presidente da câmara durante três mandatos). Mas não. Para sinalizar não se sabe bem o quê, Rio decidiu que não será o número um de nenhuma lista de círculo. Há dias ficou a saber-se que será o número dois na do Porto.

Distritais em fúria

Várias distritais têm contestado as escolhas da direção nacional - e o mesmo em sentido inverso. O Observador contou que Morais Sarmento (um dos vices de Rio) teve uma discussão monumental com o líder da distrital de Santarém, procurando impor a recandidatura do deputado Duarte Marques em terceiro lugar da lista; Braga também contestou o facto de Rio ter excluído a proposta de meter Hugo Soares (passista, montenegrista, antecessor de Fernando Negrão na liderança da bancada do PSD). Com Setúbal a exclusão contestada foi a da ex-ministra das Finanças Maria Luís Albuquerque https://www.dn.pt/poder/interior/maria-luis-albuquerque-fora-das-listas-do-psd-negrao-numero-dois-por-setubal--11142437.html (que foi cabeça de lista pelo círculo em 2015); em Lisboa, Rio ignorou a indicação da distrital para colocar Miguel Pinto Luz, vice-presidente da câmara de Cascais, em segundo lugar na lista. Leiria, por sua vez, recusa integrar na lista em lugar elegível Feliciano Barreiras Duarte - o deputado que se demitiu de secretário-geral do PSD depois de um caso de declarações falsas sobre o seu currículo académico. No Porto também há problemas e parecem ser sérios - não servindo de nada a Rio jogar aqui "em casa". O critério de Rio tem sido simples: fica de fora das listas quem já se apresentou como alternativa à sua liderança.

Deserções

Primeiro foi Castro de Almeida. Militante prestigiado do PSD, como ex-autarca, ex-membro do Governo e ex-deputado. Vice-presidente de Rio desde o início, demitiu-se há semanas em rutura com o presidente do partido, aparentemente por este conduzir o PSD dando ouvidos a muito pouca gente (ou mesmo ninguém).

No final da semana passada, José Eduardo Martins - que não é nada nas estruturas do PSD mas já foi visto como putativo líder um dia - disse no Facebook estar "arrependido" de ter apoiado a ascensão de Rio à liderança. "Nunca pensei dizer isto, mas pior não se imagina", escreveu. A gota de água terá sido a exclusão de Miguel Pinto Luz das listas de candidatos a deputados.

Em suma...

O Conselho Nacional, marcado para as 21.00, começará, segundo a Lusa, por votar José Manuel Bolieiro como novo vice-presidente do partido (substituindo Castro de Almeida). O segundo ponto será a aprovação das linhas gerais do programa eleitoral do PSD. O ponto mais quente promete ser o último na ordem de trabalhos: a deliberação sobre a proposta apresentada pela Comissão Política Nacional do candidato do PSD a primeiro-ministro e das listas de candidatura à Assembleia da República. Ninguém vai deixar nada por dizer. A reunião promete ser longa.

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