Vasco Lourenço escreve à Comissão de Inquérito de Tancos em "defesa da honra"

Capitão de Abril enviou carta aos deputados da comissão que investiga o furto armas de Tancos para responder a José Antunes Calçada, ex-comandante do Pessoal do Exército

Vasco Lourenço enviou uma carta ao presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito ao furto de armas em Tancos em que responde a afirmações proferidas pelo tenente-general Antunes Calçada, em audição na referida comissão, naquilo a que o coronel conhecido como um dos capitães de Abril define como a "defesa da honra".

Em causa estão duas afirmações, uma sobre o tempo de serviço militar de Vasco Lourenço e a outra sobre a "encenação" que pode ter sido o caso. Na primeira, Vasco Lourenço diz que sobre o currículo militar, "na ânsia de o menorizar, o general Calçada faz afirmações falsas e incompletas".

Apelidando o tenente-general de "ignorante", Vasco Lourenço contesta afirmações produzidas perante os deputados da comissão: "Afirmou o general Calçada que 'o coronel Lourenço cumpriu apenas vinte e dois anos de serviço militar, os últimos seis dos quais em funções não militares'. Esta afirmação é falsa e, porque bastante incompleta, deturpa fortemente o que se pretendeu clarificar. Por isso, mesmo gratuitamente, impõe-se esclarecer e ensinar o general Calçada."

Explica na carta que, falando de si na terceira pessoa, "o coronel Vasco Lourenço cumpriu vinte e sete anos de serviço militar, pois ao contrário da falsa afirmação agora feita pelo general Calçada. O coronel Vasco Lourenço não passou à situação de reserva em 1982, após o fim do Período de Transição e do Conselho da Revolução". Além disso, afirma que "não seguiu o procedimento da generalidade dos seus camaradas com menos de trinta e seis anos de serviço e viria mesmo a ser o único dos conselheiros da Revolução que passaria à reserva sem direito à pensão por inteiro".

Regressou ao Exército, escreve, e só mais tarde é que passou à reserva, "quando quis, a seu pedido, passou à situação de reserva em 20 de Abril de 1987. A seu pedido e na data pretendida... sete anos depois do afirmado pelo general Calçada..."

Na segunda questão, em que Antunes Calçada classificou como absurda a opinião de Vasco Lourenço sobre o caso de Tancos em que resumiu o caso a uma encenação. "Nunca afirmei que não houve desaparecimento de material de guerra dos paióis de Tancos. Sempre o admiti, como tive oportunidade de afirmar ao então chefe do Estado-Maior do Exército, general Rovisco Duarte", diz Vasco Lourenço.

"Houve um desvio de material - podem chamar-lhe furto, é igual - e provavelmente efetuado por etapas e, quando se considerou o momento oportuno, procedeu-se a uma encenação de um assalto, autêntica farsa, para permitir a exploração política pretendida (admito que essa farsa também pretendesse camuflar cumplicidades internas na participação da operação de desvio", escreve na missiva enviada à comissão de inquérito, uma longa mensagem em que vai buscar o período de 1975 para responder a Antunes Calçada.

Vasco Lourenço pede ao deputado Filipe Neto Brandão, que preside à comissão de inquérito, para dar conhecimento a todos os membros da Comissão.

José Antunes Calçada, que se demitiu em protesto pela exoneração de cinco comandantes de unidades do Exército dias após o furto, foi ouvido em 26 de fevereiro durante três horas na comissão de inquérito ao caso de Tancos, no parlamento, e explicou que pediu para passar à reserva por que o ex-CEME general Rovisco Duarte não o exonerou, a seu pedido.

Vasco Lourenço diz que só responde agora por não se ter apercebido na altura do teor das declarações. O antigo comandante do Pessoal e o tenente-general Faria Meneses, ex-comandante das Forças Terrestres, também já ouvido na comissão, foram os únicos a demitir-se na sequência do furto de Tancos, em 2017

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