Alegado piloto português capturado na Líbia. O que se sabe

Forças que atacam o governo de Tripoli anunciaram que piloto do caça Mirage F-1ED que abateram é português. Mas há reservas quanto à veracidade dessa informação.

As forças do Exército Nacional Líbio (LNA, sigla em inglês) anunciaram esta terça-feira ter abatido um caça pilotado por um mercenário português. E isto é certo: num vídeo que o DN se escusa a mostrar pelas imagens chocantes, o piloto de rosto ensanguentado apresenta-se como Jimmy Reis, português de 29 anos.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros está em averiguações e o da Defesa diz não haver qualquer cidadão com este nome ao seu serviço. A meio da tarde, o canal de televisão Al Arabiya anunciou que tudo não passava de um erro e o piloto seria libertado. Mas as coisas não eram necessariamente assim.

Primeiro a televisão saudita atribuiu uma frase ao porta-voz do LNA: "Vamos entregar o piloto português ao seu país imediatamente depois de ser tratado aos seus ferimentos. Nós apreciamos o trabalho dos irmãos europeus na luta contra a imigração ilegal."

"Preocupamo-nos com a segurança do piloto português e tratamo-lo como um convidado e não como um prisioneiro. O que aconteceu foi um erro em resultado do estado de guerra em que vivemos e vamos entregá-lo à operação europeia Sophia de imediato", teria dito Ahmed Mismari.

Aparentemente, Jimmy Reis era um militar ao serviço da Operação Sophia, montada pela União Europeia para combater a imigração ilegal no Mediterrâneo e evitar a perda de vidas no mar.

Só que não. Na conta de Twitter do porta-voz do LNA apareceria depois uma mensagem a negar qualquer declaração sobre o assunto a qualquer órgão de comunicação social.

Segundo dados do Estado-Maior General das Forças Armadas (EMGFA), Portugal não tem nesta altura qualquer destacamento da Força Aérea a operar no Mediterrâneo. No caso da Operação Sophia, da UE, a próxima participação de uma aeronave de vigilância marítima P-3 está prevista para o período entre 30 de julho e 28 de agosto.

Ao Observador, o porta-voz da Operação Sophia, capitão Antonello de Renzis Sonnirro (Itália), desmentiu ter sido abatido alguma aeronave europeia em território líbio e que não há quaisquer caças Mirage na região.

O porta-voz do EMGFA, questionado sobre a alegada presença de pilotos portugueses ao serviço da força naval da UE para o Mediterrâneo que tem sido referida nas redes sociais, desmentiu essa possibilidade. Nesta altura não há nenhuma aeronave de vigilância marítima da Força Aérea em missão no Mediterrâneo, acrescentou ao DN o comandante Coelho Dias.

Portugal tem atualmente dois navios no Mediterrâneo: o patrulha oceânico "Figueira da Foz", que está a participar no exercício militar espanhol SPANISH MINEX 19 e no âmbito da força naval europeia (EUROMARFOR) até dia 13 de maio; o submarino "Tridente" está ao serviço da Operação Sophia (e também da NATO), cuja missão termina igualmente na próxima semana.

Um segundo português?

Este é o segundo caça ao serviço do GNA que as forças do LNA reivindicaram ter abatido nas últimas duas semanas na Líbia.

O primeiro caso ocorreu a 22 de abril com um caça que tinha partido da cidade de Misrata, segundo informação veiculada pelas forças do marechal Haftar.

O piloto cujas imagens foram divulgadas pelo LNA poderá ser um antigo oficial da Força Aérea qualificado para operar os caças F-16.

Se se confirmar a nacionalidade do piloto, este seria o segundo português ao serviço da Força Aérea do GNA que é abatido pelas forças do LNA. O primeiro caso foi conhecido em junho de 2016 e envolveu um antigo piloto sem experiência de caças de guerra - pilotava avionetas de pulverização agrícola - que morreu aos comandos de outro Mirage F-1ED.

O porta-voz do Estado-Maior General das Forças Armadas, questionado sobre a alegada presença de pilotos portugueses ao serviço da força naval da UE para o Mediterrâneo que tem sido referida nas redes sociais, desmentiu essa possibilidade.

Nesta altura não há nenhuma aeronave de vigilância marítima da Força Aérea em missão no Mediterrâneo, acrescentou ao DN o comandante Coelho Dias.

Instabilidade sem fim à vista

Oito anos depois da morte de Muammar Kadhafi, a Líbia continua a não ter perspetivas de paz e o processo democrático tarda. Ainda há um mês, o diretor das missões civis da UE, Vicenzo Coppola, anunciava ao DN em Jerusalém a retirada da missão da União Europeia no país por falta de condições no terreno - os combates estavam a intensificar-se.

Desde o início do ano, na verdade, que a tensão não para de subir. A partir do leste do país, o autoproclamado Exército Nacional da Líbia lançou em janeiro uma ofensiva sobre a capital, Tripoli. Os combates têm sido constantes deste então. Depois de uma guerra civil há oito anos, recorde-se, o país mergulhou numa segunda guerra civil em maio de 2014.

O Governo de União Nacional (GNA, sigla em inglês) líbio, do primeiro-ministro Fayez al-Serraj, está em Tripoli e é reconhecido pelas Nações Unidas, assim como pelo Reino Unido, o Qatar e a Turquia.

O LNA do marechal Khalifa Haftar - um ex-antigo agente da CIA e ligado ao deposto ditador Muammar Khadafi - procura há várias semanas entrar na capital líbia e tem o apoio de países como a Rússia, EUA, França, Arábia Saudita e os Emiratos Árabes Unidos. Também a Itália, que apoiava o GNA, está a mudar a sua representação diplomática para Bengazi (sede do poder do LNA).

O LNA é liderado por um antigo apoiante de Kadhafi, Kahlifa Haftar, militar com dupla nacionalidade líbia e americana que tem o apoio mais ou menos explícito de países como o Egito, Emirados Árabes Unidos, Rússia e França.

Além destas duas forças principais, no terreno existem ainda várias milícias e o Estado Islâmico.

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