Tancos. Militares desvalorizam risco para a segurança do material ainda desaparecido

Militares rejeitam a tese do MP de que o pouco material ainda na posse de estranhos, se existir, constitua uma ameaça real à segurança interna.

O material furtado dos paióis de Tancos, que o Ministério Público (MP) alega estar em mãos incertas, é um risco para a "segurança de alguém" mas não à segurança interna, afirmou segunda-feira o major-general Raul Cunha ao DN.

"À segurança de alguém sim, à segurança interna não", declarou o militar (na reforma) das forças especiais e especialista em operações especiais, perante a hipótese de esse material existir mesmo e estar na posse de desconhecidos.

Trinta cargas explosivas de corte (de um total de 102), duas granadas ofensivas para instrução e uma granada de mão ofensiva (num total de 150), um disparador de descompressão e duas granadas de gás lacrimogéneo são o que o MP diz estar desaparecido e se desconhecia

Segundo noticiou sábado o Expresso, o MP disse ao tribunal que ainda está por recuperar material desaparecido há um ano dos paióis de Tancos e que alegadamente está na posse de desconhecidos - levando a oposição a exigir explicações à tutela porque o Exército e o Ministério da Defesa disseram que o material tinha sido todo recuperado.

Note-se que, como noticiou então o DN, "existem 'discrepâncias de valores' - mínimas mas reveladoras de facilitismo, segundo uma das fontes - entre os números dessa lista e as quantidades recuperadas" na zona da Chamusca. "Uma explicação para esse facto decorre da natureza do material furtado, que por se destinar à instrução e treino não seria alvo de registos sistemáticos e diários de saída e entrada."

Trinta cargas explosivas de corte (de um total de 102), um disparador de descompressão, duas granadas de gás lacrimogéneo, duas granadas ofensivas para instrução e uma granada de mão ofensiva (de um total de 150) é o material que o MP alega estar ainda desaparecido, para além das 1450 munições de 9 mm que desde o início se assumiu não terem sido recuperadas.

Para o MP, "a existência de armamento subtraído à instituição militar que se encontra na posse de desconhecidos representa um perigo para a segurança interna", pois pode "vir a ser utilizado na execução de crimes relacionados com as formas de criminalidade violenta ou mesmo atos terroristas, nomeadamente explosões de [caixas Multibanco], ataques com explosivos a carrinhas de valores ou a execução de atentados terroristas".

Raul Cunha foi um dos vários militares ouvidos pelo DN que manifestaram fortes reservas à existência do referido material, admitindo que ele foi usado na instrução sem que depois fosse registado como tal. Isso ajudaria a explicar, acrescentaram, o facto de o chefe do Exército dizer que tinha sido tudo recuperado em vez de assumir que ainda havia lacunas.

"O MacGyver faz guerra com um fósforo"

Mas, a existir esse material, o risco efetivo que as quantidades referidas pelo MP representam para a segurança interna é mínimo, sustentaram. Para além dos múltiplos assaltos a caixas multibanco ocorridos antes do furto aos paióis de Tancos, o coronel Nuno Pereira da Silva observou que "não é caso para se fazer uma tempestade num copo de água".

"O material ainda desaparecido é perigoso" mas, no caso específico das 30 cargas de explosivo, "quando muito dá para dois ou três assaltos", referiu aquele oficial de infantaria na reserva. "Pode-se ter acesso na vida civil a explosivos, utilizados em pedreiras e minas que podem ter efeitos semelhantes", acrescentou.

"Comparado com o que roubaram, [o que falta] não é nada", frisou também ao DN o tenente-coronel paraquedista Miguel Machado.

Recorde-se que entre o material furtado em Tancos estavam 44 lança-granadas anticarro, quatro engenhos explosivos, 120 granadas ofensivas e 20 granadas de gás lacrimogéneo (além das referidas munições de 9 mm). Quando os autores do furto devolveram as caixas roubadas, descobriu-se uma - não registada pelo Exército - com uma centena de petardos.

Segundo um oficial superior no ativo, os autores do furto terem guardado aquele material listado pelo MP equivale a "ficar com uma nota de cinco euros depois de terem assaltado um banco e devolvido um milhão".

"Dizer que aquilo coloca em perigo a segurança interna é o mesmo que dizer que com as [pistolas de 9 mm] Glock desaparecidas da PSP se pode começar a terceira guerra mundial", adiantou esta fonte, acrescentando com humor: "Claro que o MacGyver faz guerra com um fósforo."

Certo é que, para além de se estar perante um caso de "acerto de cargas" ou de haver material ainda por recuperar, nasceu nova polémica político-partidária entre o ministro Azeredo Lopes e os partidos de direita (PSD e CDS) e mais uma controvérsia em torno do chefe do Estado-Maior do Exército (CEME), general Rovisco Duarte - que está a menos de um ano de terminar o seu mandato.

Azeredo Lopes vai esta terça-feira ao Parlamento, para uma audição com a Comissão de Defesa que oficialmente se destina a abordar a recente cimeira da NATO. Contudo, a oposição já fez saber que o iria questionar sobre os dados noticiados sábado pelo Expresso.

Talvez antecipando isso, o Ministério da Defesa publicou domingo uma nota a lembrar que o caso está em investigação e sob segredo de justiça. Daí Azeredo Lopes - que tutela a Polícia Judiciária Militar (PJM) - nada ter a dizer pois quaisquer esclarecimentos "só podem, portanto, ser prestados pelo MP" - o que também pode ser uma forma de dizer, aos titulares do inquérito, "provem que o material existe mesmo".

Quanto a Rovisco Duarte, um segundo mandato como CEME é visto como muito duvidoso por diversas fontes do ramo devido às repercussões negativas internas de várias decisões suas, pequenas e grandes - a começar na exoneração (sem processo) dos comandantes das cinco unidades envolvidas na segurança dos paióis (depois reempossados), passando pela forma como admitiu ter aparecido uma caixa a mais de petardos ou, mais recentemente, haver desde maio dois coronéis nomeados como comandantes do Regimento de Comandos.

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