Santana: "É muito difícil haver o que quer que seja grátis. Tudo tem um custo"

No encerramento do congresso fundador da Aliança, este domingo, o líder do novo partido fez um ataque feroz ao "mau governo" e à "frente de esquerda". E lançou um desafio a Marcelo Rebelo de Sousa para que ajude o país a crescer. O apelo eleitoral foi para os abstencionistas.

Já eleito presidente da Aliança, no encerramento do congresso fundador do partido, no Arena d'Évora, Pedro Santana Lopes prometeu um combate sem tréguas e em todos os recantos do país para tirar a "frente de esquerda" do poder. Porque, disse, a legislatura mostrou um "mau governo", que desbarata os recursos do país. Manifestou-se convicto de que o Presidente da República estará "atento e vigilante" neste ano eleitoral e lançou um desafio a Marcelo. Para que promova com os parceiros sociais um pacto para o crescimento do pais. E que seja também o motor da transformação da Justiça em Portugal.

Ao chefe do Estado pediu ainda "especial atenção" ao que diz ser o "atual cerco que o governo faz à Madeira para favorecer o PS, prejudicando a população". Fazia assim alusão às eleições regionais na região autónoma, a 22 de setembro.

Num discurso marcadamente ideológico, e sem rebuços, Santana Lopes assumiu todas as bandeiras personalistas e liberais do seu novo partido. Sempre em contraposição à "frente de esquerda", que acusou de ser "injusta" e de tentar impor ao país as suas convicções e gostos."A esquerda não tem mais prerrogativas, mais direitos que a direita e o centro."

"A frente de esquerda alimentou expectativas diz que está tudo constipado, agora está com gripe e até pode vir pneumonia", afirmou Santana Lopes perante os cerca de 600 delegados. "O défice progride, mas a dívida não. E em setores essenciais o que se passou é um caso de mau governo e de má governação".

Da cartilha do que defende para o país, num discurso com 38 minutos, bem mais curto do que o do primeiro dia de congresso, Santana Lopes assumiu que a Aliança é liberal na economia, porque defende a liberdade económica, a iniciativa privada, as empresas. "A nossa maior preocupação é o crescimento económico. Se não crescermos acima dos 3% não temos dinheiro para o modelo económico-social que defendemos".

Santana atacou o modelo de governação de António Costa, embora nunca tivesse citado nenhum dos protagonistas da política nacional. Manifestou-se contra o dinheiro canalizado para as empresas públicas, "por preconceitos da esquerda". "O Estado não pode sustentar empresas sorvedoras. O Estado é mau gestor", afirmou e defendeu que mais serviços devem ser concessionados aos privados e às IPSS.

O líder da Aliança manifestou-se contra a ideia de dar tudo a todos. "É muito difícil haver o que quer que seja grátis. Tudo tem um custo. O Estado só pode pagar segundo o rendimento de cada um e segundo as suas necessidades". A opção, sublinhou, é fazer opções. Na sua opinião, "quanto mais o Estado gasta mais impostos temos de pagar".

"Quanto mais o Estado gasta mais impostos temos de pagar"

Para que o modelo social prevaleça, defendeu uma mudança da estrutura de financiamento do Serviço Nacional de Saúde e a generalização dos seguros de saúde, mesmo que para isso o Estado tenha de apoiar quem não os pode pagar. Tudo para que prevaleça a liberdade de escolha entre os serviços públicos e privados.

A complexidade da situação europeia, com relevo para o Brexit, não foi, nem poderia ser esquecida pelo líder da Aliança. Santana defendeu que o cabeça de lista escolhido pelo partido para disputar as eleições europeias de maio, Paulo Sande, é a mais certa porque "é conhecedor dos dossiers, sério, responsável, competente e capaz de se mexer nos areópagos europeus".

Garantiu que é precisa uma nova atitude em Bruxelas, sobretudo para levar a Europa a apoiar a nossa convergência com o desenvolvimento dos estados mais ricos. "Isto não prejudica sermos profundamente europeístas, não queremos sair nem destruir a UE, nem sair do euro", assegurou.

"Cá estamos", disse Santana no final do discurso e garantiu que o partido está pronto para os três atos eleitorais. "Que outro partido seria capaz de uma coisa destas em tão pouco tempo?" O combate pelo voto vai fazer-se em todos os lados em que haja "causas justas", nas "fábricas" e "nos campos".

Os órgãos nacionais da Aliança foram todos eleitos, mas não por unanimidade. A Comissão Política Nacional, presidida por Pedro Santana Lopes, teve 356 votos válidos, dos quais 10 brancos e 6 nulos. Dos 343 delegados que votaram para o Senado Nacional, 22 fizeram-no em branco e 7 nulos.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Henrique Burnay

A ameaça dos campeões europeus

No dia 6 de fevereiro, Margrethe Vestager, numa só decisão, fez várias coisas importantes para o futuro da Europa, mas (quase) só os jornais económicos repararam. A comissária europeia para a Concorrência, ao impedir a compra da Alstom pela Siemens, mostrou que, onde a Comissão manda, manda mais do que os Estados membros, mesmo os grandes; e, por isso mesmo, fez a Alemanha e a França dizerem que querem rever as regras do jogo; relançou o debate sobre se a Europa precisa, ou não (e em que condições), de campeões para competir na economia global; e arrasou com as suas possibilidades (se é que existiam) de vir a suceder a Jean-Claude Juncker.

Premium

Anselmo Borges

Islamofobia e cristianofobia

1. Não há dúvida de que a visita do Papa Francisco aos Emirados Árabes Unidos de 3 a 5 deste mês constituiu uma visita para a história, como aqui procurei mostrar na semana passada. O próprio Francisco caracterizou a sua viagem como "uma nova página no diálogo entre cristianismo e islão". É preciso ler e estudar o "Documento sobre a fraternidade humana", então assinado por ele e pelo grande imã de Al-Azhar. Também foi a primeira vez que um Papa celebrou missa para 150 mil cristãos na Península Arábica, berço do islão, num espaço público.

Premium

Adriano Moreira

Uma ameaça à cidadania

A conquista ocidental, que com ela procurou ocidentalizar o mundo em que agora crescem os emergentes que parecem desenhar-lhe o outono, do modelo democrático-liberal, no qual a cidadania implica o dever de votar, escolhendo entre propostas claras a que lhe parece mais adequada para servir o interesse comum, nacional e internacional, tem sofrido fragilidades que vão para além da reforma do sistema porque vão no sentido de o substituir. Não há muitas décadas, a última foi a da lembrança que deixou rasto na Segunda Guerra Mundial, pelo que a ameaça regressa a várias latitudes.