Marcelo alerta: é preciso "levar a sério" crise económica na comunicação social

Presidente da República chama a atenção para as consequências da atual situação dos media na democracia

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, defendeu esta sexta-feira que é preciso "levar a sério" a crise na comunicação social e o efeito que pode ter na qualidade da democracia, um problema simultaneamente nacional e internacional.

O chefe de Estado falava durante a entrega dos Prémios Gulbenkian, em Lisboa, que este ano distinguiram, no plano internacional, a organização não-governamental Article 19, de defesa do direito à liberdade de expressão.

Num discurso curto, Marcelo Rebelo de Sousa falou dos galardoados e de como estes respondem a desafios nacionais e internacionais e defendeu a necessidade de "levar a sério a crise económica e financeira da comunicação social [portuguesa] e o que ela prenuncia de combate pela sobrevivência e de preço na qualidade da nossa democracia".

"Sabemos bem, sabe bem o premiado internacional, de como é cada vez mais grave o desafio da comunicação social no mundo", sublinhou o Presidente.

Projeto para pessoas sem-abrigo

Ao nível nacional, o Prémio Gulbenkian de Coesão distinguiu o projeto dirigido às pessoas sem-abrigo "É uma casa, Lisboa Housing First", da associação Crescer na Maior; o Prémio Gulbenkian Conhecimento foi atribuído ao diretor artístico da Associação Cultural O Espaço do Temo, Rui Horta, pelo trabalho desenvolvido no centro multidisciplinar de residência e experimentação artística de Montemor-o-Novo.

O Prémio Gulbenkian de Sustentabilidade foi atribuído à cooperativa de desenvolvimento sustentável Copérnico, a primeira cooperativa de energias renováveis.

Sobre os galardoados e os desafios que encerram, Marcelo Rebelo de Sousa afirmou a necessidade de "impedir que a energia, em particular a do futuro, seja vista exclusivamente como negócio estratégico de muito poucos, distintos dos muitos mais".

Por outro lado, o Presidente considerou que é preciso "lutar para que não se consolide irreversivelmente a desigualdade entre os vários 'portugais', em especial, os longínquos do metropolitano".

Numa referência às pessoas sem-abrigo, Marcelo Rebelo de Sousa defendeu que é preciso "não deixar banalizar a indiferença perante aquelas e aqueles que nos habituamos a fazer de conta que não existem, ou de que são a residual inevitabilidade das metrópoles".

"Solidariedade na partilha da energia a pensar no futuro, cultura fora das metrópoles em ligação à escola, atenção empenhada aos sem-abrigo e liberdade de imprensa, são apostas que correspondem a valores decisivos, cá dentro, como lá fora", sintetizou o Presidente.

A entrega dos Prémios Gulbenkian, da Fundação Calouste Gulbenkian, reuniu neste dia dois ex-Presidentes da República: Jorge Sampaio, presidente do júri do prémio internacional, e Aníbal Cavaco Silva, que assistiu à cerimónia com a mulher, Maria Cavaco Silva.

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Catarina Carvalho

Arnaldo, Rui e os tuítes

Arnaldo Matos descobriu o Twitter (ou Tuiter, como ele dizia), em 2017. Rui Rio, em 2018. A ambos o destino juntou nesta edição. Por causa da morte do primeiro, que o trouxe à nostálgica ordem do dia, e por o segundo se ter rendido à tecnologia da transmissão de ideias que são as redes sociais. A política não nasceu para as ideias simples com as redes sociais. Mas as redes sociais vieram dar uma ajuda na rapidez ao passar as mensagens. E a chegar a mais gente. E da forma desejada, sem a, por vezes incómoda, mediação jornalística. É isso mesmo que diz, e sem vergonha, note-se, uma fonte do PSD, no trabalho sobre a presença de Rui Rio no Twitter. "É uma via para dizer exatamente o que pensa e dar a opinião, sem descontextualizações." O jornalismo como descontextualização. Ou seja, os políticos que aderem às redes sociais fazem-no no mesmo pressuposto da propaganda. E têm bons exemplos a seguir, como Trump, mestre nos 280 carateres que o ajudaram a ganhar eleições. Foi o Twitter que trouxe Arnaldo Matos das trevas da extrema-esquerda para o meio mediático. Regressou como fenómeno, não apenas pelas polémicas intervenções no velho partido, o MRPP, onde promoveu rixas, expulsou camaradas por desvios de direita, mas, sobretudo, pela excelente adaptação à forma que a tecnologia do Twitter lhe proporcionava para passar a sua mensagem política dura, rápida, cruel e, sim, simplista. Para quem não quer perder muito tempo com explicações, o Twitter é ideal. Numa prosa publicada na página do partido, Luta Popular, Arnaldo Matos fazia o que sabia fazer, doutrina, sobre o assunto. Dizia que as suas publicações, batendo "todos os recordes em Portugal", se tornavam "tão virais" que já nem ele as controlava E sem nenhum recuo ou consideração sobre a origem "capitalista" desta transmissão informativa queixava-se de as mensagens não serem vistas pelos "camaradas do partido". Resumindo: "Os tuítes são pequenas peças de agitação e de propaganda políticas, que permitem aos militantes do PCTP/MRPP manter uma informação permanente sobre a vida política nacional e internacional." Dizia também que este método "fornece uma enorme quantidade de temas que armam a classe operária para a difusão de opiniões que caracterizam os seus pontos de vista de classe". Ninguém diria melhor do que um "educador" de classe, operária ou outra, e nem mesmo Jack Dorsey ou Noah Glass ou Biz Stone, ou Evan Williams, os fundadores da rede social, a saberiam defender de forma tão eficaz. E enganadora. A forma como Arnaldo Matos usava o Twitter era um pouco menos benévola do que podia parecer destas palavras. Zurziu palavras simples e fortes contra velhos ódios: contra o "putedo" da esquerda, o "monhé" António Costa, os sociais-fascistas do PCP e, até, justificando ataques terroristas como os do Bataclan em Paris. Mandava boutades que no ciberespaço se chamam posts. E, depois, os jornalistas faziam o resto, amplificando a mensagem nos órgãos de comunicação social tradicionais. Na reportagem explica-se que o objetivo dos tuítes de Rui Rio é, também, que os jornalistas "peguem" nas mensagens e as ampliem. Até porque ele tem apenas cerca de três mil seguidores - o que não é pouco, tendo em conta a fraca penetração da rede em Portugal. Rio muda quando está no Twitter. É mais contundente e certeiro. Arnaldo Matos era como sempre foi, cruel e populista. Ambos perceberam o funcionamento das redes sociais, que beneficiam os políticos, mas prejudicam a democracia. Porque incentivam ao "tribalismo", juntando quem pensa igual e silenciando quem acha diferentes. Que contribuem para a diluição das mediações que leva com ela o pensamento, a crítica, e traz consigo a ilusão da "democracia direta" que mais não é do que outra forma de totalitarismo. Estas últimas ideias são roubadas da apresentação de Pacheco Pereira na conferência sobre o perigo das fake news organizada nesta semana pela agência Lusa. Dizia ele que não devemos ter complacência com a ignorância - que é a base do espalhar de notícias falsas. Talvez os políticos devessem ser os primeiros a temê-la, à ignorância.