Por que falou Rio em alemão? O lado germânico do líder social-democrata

"Ich weiss nicht was Sie sagen". Em alemão, foi assim que Rui Rio respondeu aos jornalistas portugueses em Helsínquia sobre o caso de José Silvano. O líder do PSD também resolveu exercitar aquela língua quando se dirigiu na quarta-feira ao congresso do Partido Popular Europeu. Mas qual a ligação de Rio à Alemanha?

A ligação é simples. Rui Rio estudou no Colégio Alemão do Porto durante 14 anos, o que faz com que seja fluente naquela língua. Mas o líder social-democrata sabe perfeitamente que esse não é um idioma que a maioria dos portugueses, incluindo jornalistas, domine. Por isso quando respondeu "eu não sei o que diz" em alemão sobre o caso em que está envolvido o secretário-geral do partido quis impedir mais questões sobre o assunto.

Rio sempre fez gala em ter estudado no Colégio Alemão. Diz que lhe formatou a personalidade e modo como vê e age na política. Foi lá que fez as primeiras investidas contra o "Estado Novo e contra alguns exageros do próprio funcionamento do colégio", como contou ao Dinheiro Vivo em 2012.

"A educação alemã complementou a minha tendência para o rigor e para a disciplina, sendo que, ainda assim, tenho bastantes mais "costelas" portuguesas do que alemãs", disse na altura, admitindo que o facto de ter estudado naquele colégio impediu que viesse a ser comunista.

A decisão de ingressar num colégio alemão partiu do pai quando tinha apenas quatro anos, mas a decisão tinha um único propósito, que Rui Rio fosse um dia para a Alemanha. "O meu pai entendia que a Alemanha estava a dar sinais de poder vir a ser, em breve, uma potência económica em face da excecional recuperação do pós-guerra que estava a conseguir. Por outro lado, o regime português estava já muito desgastado e a isolar-se do mundo, adivinhando-se que Portugal (e Espanha) iriam começar a atrasar-se relativamente aos restantes países europeus", lembrou.

"A educação alemã complementou a minha tendência para o rigor e para a disciplina, sendo que, ainda assim, tenho bastantes mais "costelas" portuguesas do que alemãs"

Em março deste ano, Rui Rio participou na primeira cimeira do PPE, onde se reuniu com a chanceler Angela Merkel. E falaram em que língua? Claro que em alemão. A troca de impressões no mesmo idioma foi apontado na altura como uma mais-valia para na aproximação à líder mais influente na União Europeia.

Na mesma altura, o presidente do PSD recebeu na sede nacional do partido o embaixador alemão em Portugal, Christof Weil. O diploma explicou o que o levou até à São Caetano à Lapa. "O que me trouxe aqui, hoje, foi ter uma conversa com o novo líder do partido mais importante da oposição que, além disso, frequentou o Colégio Alemão do Porto", apontou o representante alemão em Portugal, notando a facilidade de comunicação com o líder do PSD.

Na quarta-feira, em Helsínquia, no congresso do PPE, o líder social-democrata também deve ter considerado que falar em alemão em vez de português o distinguia dos restantes líder dos partidos que integram aquela família política de centro-direita. Sendo que a maioria falou em inglês ou na sua língua materna, como foi o caso do espanhol.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.