Paula Santos. A visita ao centro que aposta no relacionamento humano para tratar crianças

Uma fábrica de conserva de sardinhas, lares, hospitais, bombeiros, escolas, SEF, teatros, e até um arraial. O contacto dos deputados com o eleitorado é diversificado. Vão para ouvir e perceber o que podem fazer no Parlamento. O DN acompanhou cinco deputados nos círculos por que foram eleitos e conta o que viu e ouviu

No Centro de Desenvolvimento da Criança do Hospital Garcia de Orta, em Almada, há muitas histórias para contar. Histórias de meninos e meninas com problemas neurológicos, epilepsia, autismo, trissomia 21 e outros a nível do desenvolvimento, como dificuldades de aprendizagem, da fala... Histórias de crianças que, em alguns casos, ali entram recém-nascidas e de outras que criam relações tão fortes com os médicos e os terapeutas que depois dos 18 anos querem continuar a ser seguidos ali.

Este é um centro de excelência na área em que atua, um bom exemplo. Mas também tem os seus problemas. E foram esses constrangimentos que a deputada comunista Paula Santos, eleita pelo círculo de Setúbal, quis ouvir quando ali se deslocou no âmbito das iniciativas parlamentares de contacto com o eleitorado. Neste caso concreto da garantia dos direitos das crianças. E também, por uma questão ideológica, a defesa do Serviço Nacional de Saúde que garante a gratuitidade e a universalidade.

A principal dificuldade do Centro de Desenvolvimento da Criança Torrado da Silva passa por manter uma equipa permanente que já conheça o trabalho, os seus doentes. Porque aqui não são os comprimidos ou o raio-x que resolvem sempre as coisas, é sim o relacionamento humano. "É uma grande frustração não podermos fazer mais. Este trabalho requer muito know-how humano, que só é adquirido se as pessoas não se forem embora ou se vier mais gente a quem os mais velhos vão passando o que já sabem...", explica José Paulo Monteiro, coordenador do centro, à deputada Paula Santos.

E porque médicos, psicólogos e terapeutas se vão embora sem serem substituídos, a falta de pessoal passa a ser um problema. A deputada comunista lembra que este é um problema transversal a toda a administração pública, nomeadamente na saúde, na educação e na Segurança Social.

Cá fora, na sala de espera, onde os pais olham pacientemente para as crianças que brincam à espera de ser atendidas, a mãe de Joana diz exatamente o mesmo. Sem ter ouvido o coordenador do centro, Patrícia Coelho faz questão de enaltecer o serviço, mas também ela acha que "são poucos para as necessidades". "Eles próprios não conseguem dar a resposta que gostariam", adianta esta mãe. E Patrícia sabe do que fala, porque desde há três anos, quando a filha nasceu com trissomia 21, tem sido ali assistida. Na sua opinião, o trabalho do centro a nível da intervenção precoce é mesmo muito bom, só lamenta a falta de gente.

Este trabalho requer muito know-how humano, que só é adquirido se as pessoas não se forem embora ou se vier mais gente a quem os mais velhos vão passando o que já sabem...

Promessa de contratação

Noutra sala, seria depois o presidente do conselho de administração, Daniel Ferro, a dizer à deputada Paula Santos e ao médico José Paulo Monteiro que está em curso o processo com vista ao reforço de técnicos de terapia e psicologia. Depois da contratação de médicos e enfermeiros, a prioridade, afirmou, é agora a área técnica.
Mesmo assim, Paula Santos irá questionar o Ministério da Saúde sobre a carência de profissionais e a necessidade da sua contratação e sobre situações de precariedade não resolvidas.
O ideal seria a contratação de dois psicólogos, dois terapeutas da fala e um terapeuta ocupacional, de acordo com o coordenadores do centro.

A possibilidade de contratação de profissionais é uma boa notícia para o coordenador do centro, que recebe gente de todo o país, embora a sua área de referência seja Almada, Seixal e Sesimbra. Chegam a vir crianças de Bragança. Por ano, este serviço faz entre 11 mil a 12 mil intervenções. Por isso, José Paulo Monteiro não tem dúvidas de que este centro deveria ser replicado por outras regiões. Este modelo foi inspirado no serviço idêntico oferecido pelo Hospital de Coimbra. "Mas infelizmente não houve outros hospitais com esta filosofia. Estão agora a tentar criar um no Algarve."
A aposta neste tipo de terapias, defende, devia ser estudada pelo impacto económico que tem no futuro. "Se se investir desde logo na criança, consegue-se que vá ser um adulto integrado."

José Paulo Monteiro não tem dúvidas de que este centro deveria ser replicado por outras regiões

O Centro de Desenvolvimento da Criança Torrado da Silva já recebeu um prémio por boas práticas, assiste crianças vindas de todo o país e acolhe médicos internos que ali vão adquirir experiência - essas vagas para formação já estão preenchidas até 2020.

O teto do corredor das salas de consulta e tratamento praticamente não se vê, tal a quantidade de desenhos lá pendurados. São substituídos no Dia da Epilepsia, Dia do Autismo, no Natal... Sobressaem os desenhos de comboios, perfeitos, de vários modelos. O autor já tem 18 anos, a idade em que deverá deixar o centro da criança...

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