O desbocado Berardo. "Quanto mais souberem sobre mim, menos chances tenho de ganhar"

Como é o empresário madeirense e comendador por ele próprio? Desde há muito que José Manuel Berardo tem tiradas desconcertantes. A comissão parlamentar de inquérito foi mais uma amostra para juntar a tantas outras.

O país que se surpreendeu com o desbocado Joe Berardo, ouvido no passado dia 10 no Parlamento, tem andado distraído qb. Desde há muito que o empresário madeirense e comendador tem tiradas desconcertantes. Em 2007, José Manuel Berardo estava na mó de cima, eleito figura do ano pelo Jornal de Negócios e escolhido pelo então comentador Marcelo Rebelo de Sousa como figura do ano no meio empresarial.

Não espanta: "Era odiado pelas elites do mundo empresarial, era amado pelos trabalhadores, começava a ganhar notoriedade nos meios culturais", como o descrevia o Negócios de então. Foi o "joker" de 2007.

"Nunca tinha dado uma entrevista tão sentimental quanto esta, sabes? Eu não gosto que as pessoas saibam do style of life, de como é que eu vivo."

Em entrevista ao jornal, nesse ano de 2007, cada resposta de Berardo era um tratado, no seu peculiar português pintado de expressões e palavras em inglês. E temia a exposição pública, perante as perguntas da jornalista Anabela Mota Ribeiro. "Nunca tinha dado uma entrevista tão sentimental quanto esta, sabes? Eu não gosto que as pessoas saibam do style of life, de como é que eu vivo. Quanto mais souberem sobre mim, menos chances tenho de ganhar." E lança uma gargalhada.

Doze anos e várias entrevistas depois, já se sabe muito de como vive Berardo, o homem que diz não ter dívidas pessoais. Em janeiro de 2019, abriu a porta do seu palácio na Quinta da Bacalhôa, em Azeitão, "uma antiga propriedade da Casa Real Portuguesa", que atualmente "pertence à Fundação Berardo, cujo patriarca é o madeirense Joe Berardo", como descreve a TVI.

Guiados por Manuel Luís Goucha, à antiga casa de campo de D. João, mestre de Aviz, o apresentador de Você na TV diz-nos: "Quinhentos anos depois, quer saber quem é o dono disto tudo?", apontando para o palácio. É Berardo quem abre a porta e diz "bem-vindo". "Já nasci rei, pobre, nasci nuzinho. Fui investidor na companhia antiga aqui, também fazíamos vinho aqui na Bacalhôa."

"O meu pai quando eu era muito pequeno atirava-me para dentro do mosto. Dizia que era para eu me tornar forte."

É nesta quinta que faz todos os anos uma festa das vindimas, como contava em setembro de 2017 à revista Flash o "playboy casado com separação de bens": "É um dos dias mais felizes do meu ano. Juntamos aqui muitos amigos de diversas partes do mundo e também clientes. É um dia que aguardo todos os anos com muita expectativa. Dá muito trabalho, mas temos uma equipa muito boa a organizar tudo."

"Quando era pequeno vindimava na Madeira com os mais velhos. O meu pai quando eu era muito pequeno atirava-me para dentro do mosto. Dizia que era para eu me tornar forte. E não é que foi verdade. Não foi mau, resultou mesmo. Fez-me grande e forte."

Em 2007, é um desprendido do dinheiro. Pelo menos, aparentemente, como conta na véspera de inaugurar o Museu Berardo: "O dinheiro pode comprar uma percentagem muito pequena do que queremos. A nossa alegria, a nossa maneira de ser - que é o mais importante - não é o dinheiro que vai alcançar. Quando vivia com muito pouco dinheiro, na África do Sul, era a happy person."

"Máfias e assim, não é o meu estilo. Não sou um american dream. Sou um portuguese dream"

Recusa ver-se como Tony Soprano, personagem de uma série de TV sobre a máfia. "Não, não, eu detestaria manipular as pessoas assim. Máfias e assim, não é o meu estilo." Nem o american dream lhe diz alguma coisa: "Não sou um american dream. Sou um portuguese dream. [...] O meu estilo é: as pessoas gostam de trabalhar para mim. Seja de dia ou de noite, basta chamar, they all come." Afinal, garante, "eles sabem que não abuso. Não me sentiria bem se abusasse, compreende?"

"Sempre gostei de me juntar a pessoas que sabiam mais do que eu, mais bonitas do que eu, mais ricas do que eu. Nunca gostei de me juntar a yes people. Os negros das minas: às vezes ia visitá-los e comia com eles um pedaço de bife. They love me! Se eu cheguei aqui, vocês também podem chegar - é para isso. Ninguém pode dizer que é impossível atingir..."

Anabela Mota Ribeiro sintetizou o olhar de Berardo sobre a sua mãe, ele que nasceu já fora de tempo: "Fui um engano! A minha mãe tinha 46 anos quando nasci. A minha mãe ia à missa todos os dias rezar pelos irmãos e por todos que emigraram. Adoeceu, com leucemia, ficou cega. E eu dizia-lhe: «Se há Deus, e Deus é seu amigo, porque é que a mãe ficou cega? E vai à missa todos os dias, e é boa pessoa...», e ela: «Meu filho, olha que Deus usa os seus amigos para dar exemplos». Cheguei a levá-la à África do Sul, a ver se a curava. Eu compreendo bem o que ela estava a dizer. Lá por a mãe estar a sofrer, não quer dizer que vá abandonar Deus."

"Lidei com my mother's dead, que foi a coisa pior para mim. Enchi a igreja de cima a baixo de flores brancas, que a minha mãe gostava de flores"

"Há uns que nascem com os genes da mãe, outros com os genes do pai. Eu nasci com os genes da minha mãe. Era uma mulher culta. Sabia ler e escrever - o meu pai, não. Era ela que lia para o meu pai. Ela morreu há 22 anos. Já estava muito bem na vida, felizmente. Dizia: «Não deixes o materialismo subir-te à cabeça». Mas sentia-se orgulhosa por eu ser um winner."

"Lidei com my mother's dead, que foi a coisa pior para mim. Enchi a igreja de cima a baixo de flores brancas, que a minha mãe gostava de flores. A única coisa de que tive pena foi que ela não pudesse ver as flores. Foi a coisa mais triste que aconteceu na minha vida. Depois disso, I"m ready for everything".

Em 2007, 2010 e depois em 2017, o seu telemóvel toca nas entrevistas: é a canção Nothing compares to you, na versão de Sinéad O'Connor. O filho Renato tem If I was a rich man, mas quando o pai lhe liga toca Godfather, O Padrinho, como contam os dois numa entrevista conjunta ao Público, em 2010.

Nada se compara a Berardo, quando fala de dinheiro e dívidas. Ouvimos todos, na audição parlamentar de 10 de maio: "Ia custar uma pipa de massa", admitiu a certa altura. O deputado Duarte Marques replicou: "Neste momento, este problema está a custar uma pipa de massa a muita gente..." "A mim, não!", atirou Berardo.

"Quando chegar a altura de pagamentos, se você não pagar, vai negociar."

Em novembro de 2016, ele que preferia morrer a vender a sua coleção de arte aos pedaços, sentenciava na revista Sábado que "é normal em negócios haver dívidas", sacudindo as maiores responsabilidades para outros. "Também tenho as minhas. Mas a responsabilidade do bad banking é das pessoas que fizeram os empréstimos."

Em dezembro de 2012, Berardo garantia ao Dinheiro Vivo que "por enquanto, não" tinha sido obrigado a vender ativos para pagar as dívidas. Nem temia que isso viesse a acontecer. "Não vou discutir um problema que não existe agora, quando chegar a altura dessa situação, vamos ver. [...] É como Portugal com as dívidas que tem - o que é que vai acontecer se não puder pagar? Vamos negociar nessa altura. Quando chegar a altura de pagamentos, se você não pagar, vai negociar."

Já em 2007 elaborava sobre os milhões perdidos em negócios. "Como é que podia perder dinheiro se tinha tanto? No fim do apartheid, quando cheguei ao meu objetivo, perdi o tesão da África do Sul. Parti para outra. E dei instruções aos meus advogados to sell at the best price. Quando decido vender tudo at the best price, sabia que não queria continuar na África do Sul. Parto do princípio de que nada nos pertence. Nós viemos naked e com vida, e quando se vai, vai-se vestido, mas sem vida."

"Dinheiro é bom, mas as pessoas que vivem só de atingir coisas materiais, é uma tristeza. É uma vida empty. Eu tenho uma vida full!"

A jornalista não resiste e replica-lhe que é "blablabla" - bullshit, diria Berardo. "Mas é verdade. Nem a nossa vida nos pertence. Estou aqui a falar contigo, de um momento para o outro dá-me uma coisa..., lá vai. So, what the fuck are you talking about? Dinheiro é bom, mas as pessoas que vivem só de atingir coisas materiais, é uma tristeza. É uma vida empty. Eu tenho uma vida full!"

Sem nada para ganhar. "O meu trabalho é generate. Às vezes gostava de criar novos postos de trabalhos. Mas quando se vive numa terra como esta... Por exemplo, vamos fazer uma fábrica de canetas [pega na sua Mont Blanc]. Faz-se o desenho, põe-se dinheiro, assinam-se garantias, fazem-se as fábricas, faz-se o mercado, e tal. Em dez anos vêm os chinas e o custo disto passa de 1 euro para 50 cêntimos. Portanto, I"m fucked. Não posso vender o meu produto. Fecha-se a fábrica, e tenho de pagar indemnização às pessoas? Como é que este país pode desenvolver-se internacionalmente e criar postos de trabalho? - não estou a falar de empresas como a Volkswagen, que é de uma área tax free."

Recusou sempre seguranças para si. "Nunca! Nunca tive alarmes na minha casa", contou em 2007. Nem medo de ser assaltado, nem esfaqueado. "Não tenho medo. Se alguém me quiser fazer mal, não é a segurança que vai prevenir. Se alguém me quiser matar, kill me! If they can... I cant handle com aquelas criquices de andar com tantos seguranças de roda. Estamos num país tão peacefull."

"Não ponho as minhas casas nas revistas, a não ser que seja para promoção dos vinhos, ou assim. Hoje em dia, quanto mais tu mostras..."

Um país pacífico e onde não lhe apetecia mostrar muito a sua riqueza. Em 2019, já com todas as notícias sobre os grandes devedores da Caixa, não se coibiu de mostrar quadros antigos e um contador alemão na sua casa da Bacalhôa (a casa é dele, por mais que o proprietário no papel seja a fundação). Não gosta de mostrar os Rolls Royce que tem, argumentava em 2007. "Não, as pessoas é que sabem e falam disso. Não ponho as minhas casas nas revistas, a não ser que seja para promoção dos vinhos, ou assim. Hoje em dia, quanto mais tu mostras... Como aquela vergonha do Jardim Gonçalves andar com quatro ou cinco seguranças. Quase como o Papa!"

"Cedo temos de os habituar", dizia do filho a aprender a lidar com o seu próprio dinheiro. "Na África do Sul ia para uma festa, queria dinheiro, dizia: "Dad, I want some money for the party". "How much do you want?", e dava-lhe o dobro para ele me trazer o troco." Não era um teste: "Até Deus tem que prestar contas! Na Bíblia diz: «O meu pai». Todos temos que prestar contas, a um patrão, aos empregados. A minha mensagem é sempre: se ele faz um engano, eu também faço. Lá por ser mais velho, ou ter mais experiência de vida, não significa que esteja isento de erros. Temos é que respeitar os enganos uns dos outros."

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