Ministro admite alterar declarações se investigação a Tancos provar que há material por recuperar

Azeredo Lopes está a ser ouvido na Comissão parlamentar de Defesa a pedido do PSD sobre os novos dados relativos ao furto de material de guerra em Tancos.

O ministro Azeredo Lopes admitiu esta terça-feira alterar as declarações feitas há um ano sobre a recuperação de todo o material furtado em Tancos se o Ministério Público (MP) "demonstrar o contrário".

"Não manterei as declarações" então feitas "se o MP vier demonstrar o contrário", pelo que "cabe aguardar" pelo resultados da investigação, disse Azeredo Lopes, a propósito da "alegada discrepância ou divergência" entre as informações de que ainda há material nas mãos de desconhecidos e as afirmações oficiais de que tudo tinha sido recuperado.

A audição do ministro está a ocorrer a pedido do PSD e na sequência da notícia de sábado do Expresso sobre o MP ter comunicado ao tribunal que ainda há material de guerra furtado há um ano em Tancos ainda nas mãos de desconhecidos, representando um risco para a segurança interna.

Azeredo Lopes disse ter sabido da discrepância assumida aquando da recuperação do material (em outubro de 2017) e por causa de "problemas de inventário" reconhecidos pelo Exército, mas não ter quaisquer dados adicionais oriundos dos responsáveis da investigação.

De qualquer forma, frisou Azeredo Lopes, "não consigo conceber o motivo" ou "qual seria a razão para esconder" quaisquer dados sobre o assunto.

O governante disse ter comunicado o que lhe foi transmitido pela PJM e considerou natural o regozijo então expresso aquando da recuperação do material. "O Ministério da Defesa não veiculou nada", insistiu Azeredo Lopes.

O ministro respondia ao deputado Pedro Roque (PSD), que o questionou sobre se mantinha as declarações de que todo o material tinha sido recuperado e se admitia que eventuais contradições levassem a "extrair responsabilidades políticas" ou pedi-las ao nível militar.

José Miguel Medeiros (PS) contestou os termos do requerimento do PSD, argumentando que "não há nenhum dado novo" sobre o caso e criticando os sociais-democratas por colocarem o Exército - que disse ter sido tudo recuperado - "ao nível de uma notícia de jornal".

João Vasconcelos (BE) lamentou a existência de "um folhetim que já dura há um ano" e que, entre as várias situações ainda "por explicar", está o facto de a PJ não ter sido chamada quando foi encontrado o material furtado na Chamusca.

Note-se que a chamada foi dirigida à Polícia Judiciária Militar (PJM), que recolheu o material e o inventariou em Santa Margarida e só depois avisou a PJ - no que foi mais um dos choques entre as duas instituições.

Azeredo Lopes recordou que a investigação começou com a PJM por ser um caso de competência daquele órgão de polícia criminal, tendo a PJ sido "imediatamente avisada" da quebra de segurança - e que "em momento posterior" é que o Ministério Público avocou o processo.

João Rebelo insistiu em perguntar ao ministro que consequências retiraria se viessem a verificar-se divergências nas declarações então feitas pelo general Rovisco Duarte e eventuais dados novos confirmados pela investigação.

Azeredo Lopes disse que "já se verificou" haver informação que o Exército dava como fidedigna "que não se confirmou" e, lembrou, aquando da devolução do material de guerra - em que surgiu uma caixa a mais - em outubro "foi assumida e diagnosticada" a existência de graves lacunas ao nível dos inventários.

Essa situação "resultava também de "situações quase sistémicas que tornavam impossível dizer qual o inventário de material à guarda" do Exército, que levaram a adotar "medidas draconianas" para corrigir a situação de segurança em torno dos paióis das unidades militares.

Jorge Machado perguntou ao ministro se "é verdadeira" a notícia do Expresso de que o MP diz haver material furtado ainda perdido e se confirma as declarações feitas há um ano pelo Chefe do Estado-Maior do Exército (CEME) de que tinha sido tudo recuperado.

"Pronunciei-me sobre a informação oficial que me foi dada e um comunicado oficial" feito sobre a matéria pelo Exército e pela PJM, reafirmou Azeredo Lopes, dizendo desconhecer a veracidade da informação divulgada pelo semanário.

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