Marisa Matias: "Há muitas pessoas boas na política, mas o João era extraordinário"

"Era um homem muito bom, com um coração gigante", diz a eurodeputada Marisa Matias. "Um homem livre", acrescenta o historiador Fernando Rosas

"O João é uma perda não só para o Bloco de Esquerda, mas para o país inteiro pela maneira como se bateu por causas muito importantes", diz a eurodeputada Marisa Matias, reagindo à morte de João Semedo, esta terça-feira, dia 17, aos 67 anos. "Era um homem muito bom, com um coração gigante."

Lembra sem dificuldade o que considera ser "o maior ato de amor em política": aquele comício em Coimbra durante a campanha para as eleições presidenciais, em 2016, quando João Semedo, "apareceu de surpresa". O médico e antigo deputado, que tinha perdido as cordas vocais na sequência de um cancro, apareceu "com uma coragem enorme."

"Há muitas pessoas boas na política, mas o João era extraordinário", refere a política bloquista ao DN.

A eurodeputada e João Semedo conheceram-se no final dos anos 90, nos primórdios do que viria a ser o Bloco de Esquerda. Nem Marisa Matias nem o médico eram ainda militantes do partido. "Foi num encontro da associação Manifesto sobre saúde, organizado pelo Miguel Portas."

Catarina Martins reagiu com um "obrigada" (via Instagram e Twitter).

"Homem de diálogo", diz Ferro Rodrigues

"Homem de diálogo e de convicções" e que deixa uma "imensa saudade". Foi assim que o presidente da Assembleia da República recordou o ex-dirigente do Bloco de Esquerda (BE) João Semedo, que morreu esta terça-feira, dia 17.

Ferro Rodrigues afirma, numa mensagem colocada no 'site' do parlamento que Semedo, "como dirigente e coordenador do Bloco de Esquerda contribuiu decisivamente para a consolidação do partido e para a atual solução de governo", com o executivo minoritário do PS com o apoio parlamentar dos partidos à esquerda.

O presidente da Assembleia lembra ainda o médico e ex-militante comunista como "uma das principais personalidades políticas da última década e meia" e a sua "defesa cívica e política do Estado Social, e em particular do serviço nacional de saúde" como algo que "perdurará como exemplo na memória de todos".

O livro Morrer com Dignidade, coordenado por João Semedo, em defesa da morte medicamente assistida, foi apresentado em maio na Assembleia da República numa cerimónia a que o médico e ex-coordenador do BE já não esteve presente, tendo enviado um texto que foi lido aos presentes. Na primeira fila estava o presidente da Assembleia da República e de representantes dos partidos que tinham projetos de lei a favor da despenalização da eutanásia e que, dias depois, foi chumbada no parlamento.

"Assertivo e bem-humorado", diz Mariana Mortágua

Mariana Mortágua descreveu João Semedo como um homem "incansável, com grande capacidade de trabalho e determinação como poucas pessoas têm".

"Isso ficou muito visível no contributo que deu nas comissões de inquérito na Assembleia da República, inaugurando uma forma diferente de fazer esse trabalho. Ficará para sempre o seu contributo na comissão de inquérito ao BPN por exemplo esse trabalho foi reconhecido", disse à Lusa a deputada do BE.

Mariana Mortágua recordou também o contributo de João Semedo na área da saúde como o testamento vital, de acompanhamento de doentes em urgência e a dispensa de medicamentos pós-operatórios.

"Há um conjunto de temas em que o João era um especialista e deixou esse contributo. Nos últimos tempos participou em duas enormes campanhas: uma pela nova lei de bases da saúde e outra em que se empenhou com muito afeto e vontade que foi a despenalização da morte assistida", contou.

De acordo com Mariana Mortágua, o "legado e o trabalho de João Semedo não deixou ninguém indiferente, nem aqueles que tiveram o privilégio de trabalhar muito de perto dele, nem as pessoas que acompanhavam o contributo político e ativista".

"Portanto foi uma vida de luta, de contributo a dar ao país, à vida politica e isso acho que nos marcou a todos muito e marcou muito o país e fez tudo isto com bom humor, com a coragem e sempre com uma forma muito particular de fazer política", disse.

A deputada do Bloco lembrou que quando chegou ao parlamento João Semedo lhe disse sobre as intervenções políticas que nem sempre era preciso falar mais alto para vencer um debate.

"Era um homem assertivo, bem-humorado, trabalhador, corajoso e mais uma vez não deixou ninguém indiferente e deixa-nos a todos um grande contributo mas também uma perda também do seu contributo pela falta que vai fazer", concluiu.

"Livre, tranquilo, determinado", segundo Fernando Rosas

"Foi um homem livre, tranquilo, determinado e que travou batalhas até ao fim" disse o historiador Fernando Rosas.

Fundador e ex-deputado do Bloco de Esquerda, Fernando Rosas afirma à Lusa que João Semedo, "consciente da sua situação de saúde manteve-se sempre empenhado nas questões políticas em que acreditava", recordando que esteve envolvido no processo da despenalização da eutanásia que - "não passou no Parlamento, mas há de passar um dia" e também na defesa do Sistema Nacional de Saúde (SNS) "juntamente com António Arnaut [PS] que faleceu recentemente.

José Manuel Pureza: "Um tipo de uma lealdade e de um cuidado incríveis"

"As notícias falarão, como têm que falar, do João como um lutador sem esmorecimento pelo Serviço Nacional de Saúde ou pelo direito a morrer com dignidade, como uma referência do trabalho unitário, como um adversário elegante, como um tipo de uma lealdade e de um cuidado incríveis. O que não cabe em nenhuma notícia é a amizade imensa que hoje fica brutalmente interrompida", escreveu José Manuel Pureza no Facebook.

Ministro da Saúde: "Exemplo de vida, pela coragem com que lidou com a doença"

"Era a notícia que todos aguardávamos, mas que ninguém queria receber. Infelizmente, apesar do João dizer que a morte o apanharia feliz, a nós deixa-nos tristes", disse o ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, citado pela Lusa.

O governante sublinhou o exemplo de vida de João Semedo, frisando: "Era um homem sério e bom, dedicado à causa publica e com um sentido muito apurado do que é o dever de cada um de nós para com os outros".

Nesse sentido temos tido um ano difícil, foi o António Arnaut e agora o João Semedo. São pessoas que vão fazer muita falta.

"O Semedo estará sempre no nosso pensamento, pelo exemplo de vida, pela coragem com que lidou com a doença, pela dignidade como soube aceitar o fim da vida e como morreu", afirmou Adalberto Campos Fernandes.

O antigo coordenador do Bloco de Esquerda teve uma vida dedicada à atividade política nacional e internacional, às artes e à medicina, tendo mesmo sido um dos autores da nova proposta de Lei de Bases da Saúde. Foi membro da direção do movimento cívico "Direito a morrer com dignidade."

Ana Jorge destaca "homem dedicado às causas"

"O João Semedo sempre foi uma pessoa respeitadora do outro, dedicado a causas, sempre com muita honestidade, verdade e aprofundando sempre os conhecimentos com respeito pela posição de cada um", afirmou Ana Jorge, em declarações à agência Lusa.

Mesmo nas questões políticas, tinha sempre uma grande capacidade de diálogo.

"Mesmo na causa da morte assistida e na possibilidade de cada um decidir o seu fim de vida, deu um grande contributo para o conhecimento e para a discussão, colocando o assunto na ordem do dia, sempre de forma muito profissional e humana, afirmou Ana Jorge.

Centrista Isabel Galriça Neto elogia "amor à liberdade, o respeito, as convicções..."

"No dia da sua morte, e celebrando a sua vida, quero falar daquilo que está para além das divergências na política, que é o amor à liberdade, o respeito, as convicções, a coragem, e esses são valores que eu reconheço na vida do João Semedo, permanecem na minha memória, e hoje curvo-me perante essa memória", disse à Lusa Isabel Galriça Neto.

A deputada, que é médica, e foi recentemente um dos rostos contra a despenalização da morte assistida, uma causa de João Semedo, sublinhou que além das "profundas divergências" que tinham, existiu sempre respeito mútuo e o antigo coordenador do Bloco foi "um bom amigo".

Galriça Neto defendeu que a vida de João Semedo incorporou a "ideia de construção do bem comum" e da necessidade de, com coragem, de lutar por valores.

PS promete "respeitar o seu legado político"

"O PS e os socialistas receberam com profunda tristeza esta notícia. João Semedo foi um combatente pela liberdade, um democrata e um resistente até ao fim por várias causas. O PS envia as mais sentidas condolências à sua família e ao Bloco de Esquerda", referiu a porta-voz do PS Maria Antónia Almeida Santos à Lusa, reagindo à morte do dirigente do BE.

A porta-voz do PS salientou que, enquanto médico, João Semedo "foi um humanista que entregou a medicina ao serviço da política".

"Como deputado foi um lutador sempre leal. Apesar das diferenças, foi um político com quem sempre deu gosto partilhar e discutir as nossas posições. Tocou no coração de pessoas de todo o espetro político", apontou Maria Antónia Almeida Santos, que na anterior legislatura desempenhou as funções de presidente da Comissão Parlamentar de Saúde.

Maria Antónia Almeida Santos afirmou depois que "todos os que tiveram a sorte de privar" com João Semedo "vão ter muitas saudades".

"Vamos respeitar o seu legado político. Vamos lembrar sempre o seu exemplo na luta pela dignidade da vida humana", acrescentou a porta-voz do PS.

As condolências do PCP

"Perante a notícia do falecimento de João Semedo, o PCP endereça à família e à direção do Bloco de Esquerda, as suas condolências", diz o Partido Comunista Português numa nota enviada à comunicação social, citada pela Lusa.

João Semedo foi militante comunista entre 1972, funcionário do partido entre 1972 e 1991 e membro do Comité Central. Em 2003, participou no Movimento Renovação Comunista.

"Personalidade marcante", realça António Filipe

"Foi uma personalidade muito marcante na vida política nacional. Desenvolveu uma atividade muito relevante, designadamente no plano parlamentar e particularmente na área a que se dedicava muito, que era a das políticas de saúde. Tivemos com ele, naturalmente, divergências e convergências, mas sempre uma excelente relação", disse.

António Filipe, que falava aos jornalistas nos passos perdidos do parlamento, declarou que "foi com muito pesar" que o PCP teve conhecimento da notícia e reiterou "as mais sentidas condolências" a familiares e membros do BE pelo sucedido.

Rui Rio elogia "uma pessoa que estava na vida pública por causas e convicções"

"O dr. João Semedo era alguém que vou guardar na minha memória como uma pessoa que estava na vida pública por causas e convicções e em circunstância alguma por qualquer interesse pessoal. Isso hoje vai escasseando cada vez mais e, portanto, tenho um grande respeito por toda a gente que está assim na vida pública", destacou Rui Rio, em declarações à agência Lusa.

"Pese embora as grandes diferenças ideológicas que tínhamos, eu acho que o dr. João Semedo faz realmente falta à política portuguesa", salientou.

Rio conhecia pessoalmente João Semedo "há muitos anos" e recordou que, quando foi presidente da Câmara Municipal do Porto, o antigo deputado do BE colaborou num programa de combate à toxicodependência na cidade.

A última vez que os percursos de ambos se cruzaram foi no âmbito do movimento criado por João Semedo, "Direito a morrer com dignidade", pela despenalização da eutanásia, causa também apoiada pelo presidente do PSD.

"Naturalmente que não tive qualquer problema em colaborar com alguém que tinha a mesma convicção que eu, independentemente de termos alinhamentos partidários diferentes", afirmou Rio, reiterando o respeito que manterá pela memória de João Semedo "pela forma como se dedicava à causa pública, sempre por convicções".

Fernando Negrão: "Exercia política com convicção"

"Deixa um legado importante na vida política nacional. Era alguém que exercia política com convicção, inteligência e com tolerância. Era alguém com quem nós sabíamos que podíamos contar para melhorar a democracia todos os dias porque sabia fazer pontes, fundamentais para termos melhor democracia", afirmou Fernando Negrão do PSD.

Em nome do PSD, o líder parlamentar endereçou "sentidos pêsames à família" do médico e antigo deputado, falecido hoje, aos 67 anos, vítima de cancro.

"Pessoalmente, perco alguém de quem gostava", acrescentou Negrão.

Ler mais

Exclusivos