José Eduardo Martins renuncia a mandato na AML e deixa acusações ao PSD

O antigo vice-presidente da bancada social-democrata acusa PSD de não se ter imposto a quem no partido está mais interessado em manter "redes de poder interno" do que a servir um projeto coletivo. E volta a perfilar-se como candidato à câmara

José Eduardo Martins comunicou a decisão de renunciar ao mandato de deputado municipal em Lisboa aos militantes numa carta e tornou públicas as razões no Facebook.

"O PSD não quis fazer uma opção de corte com determinado tipo de práticas e demonstrou preferir ser complacente com alguns protagonistas que estão mais interessados em criar e manter redes de poder interno do que em servir um projeto coletivo ao serviço do bem comum", afirma o ex-autarca, que já tinha suspendido o mandato em novembro do ano passado.

Sem nunca mencionar expressamente as personagens e as redes de interesses, o facto é que tanto a distrital de Lisboa do PSD como a concelhia mantiveram a confiança no atual líder da bancada do partido na Assembleia Municipal de Lisboa, Luís Newton, apesar de este estar sob investigação na operação Tutti Frutti.

Ora foi precisamente por causa de Luís Newton que José Eduardo Martins suspendeu o mandato pouco tempo depois de ter sido eleito. Enquanto cabeça de lista à AML pelo PSD, entendia como natural que viesse a liderar a bancada dos deputados municipais, mas foi surpreendido na altura com uma lista concorrente à presidência da bancada encabeçada por Newton.

"O PSD não quis fazer uma opção de corte com determinado tipo de práticas e demonstrou preferir ser complacente com alguns protagonistas que estão mais interessados em criar e manter redes de poder interno do que em servir um projeto coletivo ao serviço do bem comum"

"Infelizmente, durante este último ano, os factos públicos conhecidos apenas me têm dado mais razão, atingindo profundamente a imagem e a credibilidade do PSD em Lisboa. A política de aparelho e das trocas de influências, dos casos, não me interessa. Nem tão pouco interessa aos lisboetas", escreve no Facebook.

José Eduardo Martins recorda ainda que no último processo eleitoral autárquico, em 2017, aceitou coordenar o programa eleitoral do partido à Câmara de Lisboa e deu a cara pelo PSD, encabeçando a lista candidata à AML. Reconhece os maus resultados eleitorais, mas sublinha que estava disposto a ser a cara da oposição ao PS em Lisboa. "Numa altura em que tantos se mostraram indisponíveis eu, que de tudo me afastei e fui afastado nos últimos anos, dei a cara pelo PSD num dos seus momentos mais difíceis".

José Eduardo Martins sublinha que "em causa não está outra coisa que não seja a preservação de uma reserva de honra, de prestígio, e de liberdade, para o futuro da cidade de Lisboa e do PSD". E aos que nele votaram promete que "nunca mais será candidato sem ter a certeza de poder honrar o vosso gesto". No último congresso do partido ainda tentou subir ao palco para se perfilar como potencial candidato à Câmara de Lisboa, mas foi impedido por não ser um dos delegados, tal como o DN noticiou na altura. Porta que volta agora novamente a abrir.

A operação Tutti Frutti envolve uma investigação sobre alegada troca de favores entre autarcas do PS e do PSD para a celebração de contratos e avenças feitas na Câmara Municipal de Lisboa e em juntas de freguesia da capital. Carlos Eduardo Reis, conselheiro nacional do PSD e ex-presidente da JSD de Braga, Luís Newton, presidente da junta de freguesia da Estrela, e Sérgio Azevedo, deputado do PSD, são as personagens principais desta investigação judicial.

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