Descentralização: deliberação das autarquias é "desnecessária e inútil"

"O prazo para os municípios se pronunciarem sobre as novas competências decorre da aprovação dos diplomas setoriais", reiterou Governo

A deliberação das autarquias a rejeitar a transferência de competências em 2019 "será desnecessária e inútil", até à aprovação dos diplomas setoriais, como estabelece a lei-quadro da descentralização, disse à Lusa o gabinete do ministro Eduardo Cabrita.

"O prazo para os municípios se pronunciarem sobre as novas competências decorre da aprovação dos diplomas setoriais", reiterou o gabinete do ministro da Administração Interna.

A lei 50/2018, de 16 de agosto, estabelece que as autarquias e entidades intermunicipais terão de comunicar, até 15 de setembro de 2018, a recusa das novas competências em 2019, mas também refere que a "lei produz efeitos após a aprovação dos respetivos diplomas legais de âmbito setorial, acordados com a Associação Nacional de Municípios Portugueses".

"A transferência das novas competências, a identificação da respetiva natureza e a forma de afetação dos respetivos recursos são concretizadas através de diplomas legais de âmbito setorial, os quais estabelecerão os prazos para as transferências em causa pelo que até lá, e face à lei, qualquer deliberação de assembleia municipal sobre esta matéria será desnecessária e inútil", frisou à Lusa.

O gabinete do ministro com a tutela das autarquias sublinhou que "o processo de descentralização é gradual, até 2021, de forma a permitir que cada município avalie as competências que está em condições de exercer".

"Os diplomas serão aprovados pelo Governo, no exercício das competências legislativas constitucionalmente consagradas", adiantou o gabinete de Eduardo Cabrita, apesar de antes ter admitido disponibilidade para que os decretos setoriais fossem apresentados como propostas de lei no parlamento.

Em relação às negociações com a Associação Nacional de Municípios de Portugueses (ANMP), o ministério salientou que "há vários diplomas já consensualizados" e que "o último lote" está a ser analisado pela associação representativa dos municípios.

Nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto têm-se existido algumas críticas ao processo de descentralização, principalmente relacionadas com o desconhecimento dos envelopes financeiros para cada área a descentralizar e por município.

Na sequência da cimeira de Queluz, em Sintra, "o Governo tem vindo a trabalhar em conjunto com as áreas metropolitanas para alargar a descentralização de competências no domínio dos transportes e mobilidade, ordenamento do território e programação do próximo quadro de fundos comunitários", assegurou.

Já quanto ao processo de reorganização territorial das freguesias, para o ministro "não se trata de um processo de reversão do atual modelo".

"O Governo vai apresentar na Assembleia da República uma proposta de Lei-quadro para a Criação de Freguesias, no início da próxima sessão legislativa", revelou o gabinete de Eduardo Cabrita, acrescentando que a medida consta do Programa do Governo, que prevê a avaliação das alterações "a régua e esquadro" do executivo anterior.

A proposta, que o ministro já tinha anunciado para a sessão legislativa anterior, pretende "criar um novo quadro legal, com novos critérios, que sendo cumpridos ou verificados, possibilitam aos territórios e às suas populações, através dos seus eleitos locais, promover alterações de organização territorial autárquica ao nível de freguesia".

"As alterações deverão ter impacto nas eleições autárquicas de 2021", concluiu o gabinete do ministro, afastando que o processo possa contemplar também os municípios, uma vez que "essa matéria não consta do Programa do Governo".

A lei-quadro da transferência de competências para as autarquias locais e entidades intermunicipais foi aprovada no parlamento, em 18 de julho, apenas com votos a favor de PS e PSD, abstenção do CDS-PP e contra de BE, PCP, PEV e PAN.

A diretora-geral das Autarquias Locais, Sónia Ramalhinho, comunicou às autarquias que, "de acordo com orientações da tutela", devido à necessidade de "consensualização" com a ANMP dos diplomas setoriais, "consideram-se as autarquias locais e as entidades intermunicipais dispensadas da comunicação", até 15 de setembro, prevista na lei.

A transferência de competências abrange, entre outras, as áreas da educação, ação social, saúde, cultura, património, habitação, áreas portuário-marítimas, gestão florestal e áreas protegidas, transportes e vias de comunicação, policiamento, proteção e saúde animal, segurança dos alimentos, estacionamento e freguesias.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ferreira Fernandes

Conhecem a última anedota do Brexit?

Quando uma anedota é uma anedota merece ser tratada como piada. E se a tal anedota ocupa um importante cargo histórico não pode ser levada a sério lá porque anda com sapatos de tigresa. Então, se a sua morada oficial é em Downing Street, o nome da rua - "Downing", que traduzido diz "cai, desaba, vai para o galheiro..." - vale como atual e certeira análise política. Tal endereço, tal país. Também o número da porta de Downing Street, o "10", serve hoje para fazer interpretações políticas. Se o algarismo 1 é pela função, mora lá a primeira-ministra, o algarismo 0 qualifica a atual inquilina. Para ser mais exato: apesar de ela ser conservadora, trata-se de um zero à esquerda. Resumindo, o que dizer de uma poderosa governante que se expõe ao desprezo quotidiano do carteiro?

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

A escolha de uma liberdade

A projeção pública da nossa atividade, sobretudo quando, como é o caso da política profissional, essa atividade é, ela própria, pública e publicamente financiada, envolve uma certa perda de liberdade com que nunca me senti confortável. Não se trata apenas da exposição, que o tempo mediático, por ser mais veloz do que o tempo real das horas e dos dias, alargou para além da justíssima sindicância. E a velocidade desse tempo, que chega a substituir o tempo real porque respondemos e reagimos ao que se diz que é, e não ao que é, não vai abrandar, como também se não vai atenuar a inversão do ónus da prova em que a política vive.

Premium

Marisa Matias

Penalizações antecipadas

Um estudo da OCDE publicado nesta semana mostra que Portugal é dos países que mais penalizam quem se reforma antecipadamente e menos beneficia quem trabalha mais anos do que deve. A atual idade de reforma é de 66 anos e cinco meses. Se se sair do mercado de trabalho antes do previsto, o corte é de 36% se for um ano e de 45%, se forem três anos. Ou seja, em três anos é possível perder quase metade do rendimento para o qual se trabalhou uma vida. As penalizações são injustas para quem passou, literalmente, a vida toda a trabalhar e não tem como vislumbrar a possibilidade de deixar de fazê-lo.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

O planeta dos sustentáveis 

Ao ambiente e ao planeta já não basta a simples manifestação da amizade e da esperança. Devemos-lhes a prática do respeito. Esta é, basicamente, a mensagem da jovem e global ativista Greta Thunberg. É uma mensagem positiva e inesperada. Positiva, porque em matéria de respeito pelo ambiente, demonstra que já chegámos à consciencialização urgente de que a ação já está atrasada em relação à emergência de catástrofes como a de Moçambique. Inesperada (ao ponto do embaraço para todos), pela constatação de que foi a nossa juventude, de facto e pela onda da sua ação, a globalizar a oportunidade para operacionalizar a esperança.