Férias nas regiões dos incêndios? Políticos ignoram apelo de Marcelo

Os portugueses responderam ao apelo do Presidente da República e as taxas de ocupação na zona centro do país são muito altas. Mas a maioria dos protagonistas políticos vão a banhos este mês no Algarve ou na Costa Alentejana.

"Continua a ser uma moda, devem pensar que para ter sucesso têm de ficar torrados ao sol". É assim que, de uma forma algo irónica, o presidente do Turismo do Centro comenta ao DN o facto dos líderes e algumas figuras gradas da política nacional não seguirem o exemplo de Marcelo Rebelo de Sousa, que optou por fazer parte das suas férias na zona centro. Pedro Machado garante, no entanto, que o país mostra-se solidário com a economia desta região.

"Não passem nos sítios habituais, venham aqui, dinamizar economicamente estes 'Portugais' que às vezes são esquecidos". O chefe do Estado apelou assim, prometeu que daria o exemplo e cumpre. Na condição de turista, vai repartir as suas férias entre o Algarve (duas semanas) e as zonas afetadas pelos incêndios, de junho e outubro do ano passado.

Ao volante do seu automóvel, Marcelo deve passar por Vouzela, Tondela, Góis, Arganil e Oliveira do Hospital na primeira semana em que se desliga dos assuntos de Belém, intervala com as idas à praia na Quinta do Lago, em Loulé, e termina em Pedrógão Grande e Castanheira de Pera.

O presidente do Turismo do Centro valoriza muito esta atitude do Presidente e garante que tem um impacto enorme na região. Aliás, recua até ao trágico ano de 2017 e sublinha que logo na altura o apelo de Marcelo para os portugueses apoiarem economicamente esta zona do pais afetada foi "crucial".

"Na sequência dos incêndios tivemos, de forma abrupta, o cancelamento de reservas e de grupos de turistas em hotéis, mas também em unidades espalhadas pelos territórios mais vulneráveis. Após o apelo do Presidente e no espaço de três semanas conseguimos taxas de ocupação de 100% nesses territórios". Pedro Machado frisa também que "foi um movimento extraordinário do povo português que permitiu que o alojamento e a restauração tivessem sobrevivido ao impacto dos incêndios".

Agora o renovado pedido de Marcelo Rebelo de Sousa para que os portugueses repartam as férias e redescubram esse Portugal do centro e interior "é muito importante", diz, para que se continuem a desenvolver os modelos de negócios nestes setores de baixa densidade. Há já 700 empresas de animação turística a operar no centro, mais 170 do que em 2016. "Isto permite fixar jovens e residentes", afirma Pedro Machado.

Fora da norma

O responsável pelo turismo do centro não faz criticas abertas às principais figuras que continuam a privilegiar outras zonas do país no intervalo do combate político. Prefere atribuir a atração pelas praias do Algarve a "uma questão de mentalidade" dos que ainda não conseguiram perceber que "quem quer mais tempo para si e valoriza o silêncio" tem estes ativos no centro do país. E volta a ironizar: "Não é preciso ficar torrado para se ter sucesso, pode ser conquistado de outras maneiras..."

A verdade é que os principais protagonistas da política nacional verbalizaram a intenção de gastar alguns dias de férias nas zonas afetadas pelos incêndios, sendo que o primeiro-ministro não revelou quando e onde tira o descanso da governação.

Apenas a coordenadora do BE e a deputada dos "Verdes" Heloísa Apolónia deverão passar parte das férias no interior do país.

Segundo fonte oficial do partido, Catarina Martins passará férias em Portugal, com a família, no início de agosto, num período que será dividido entre o litoral e o interior do país, "como acontece todos os anos", mas que provavelmente será na zona de Sabugal, distrito da Guarda, onde é sócia de uma unidade de turismo rural. E Heloísa Apolónia dividirá as férias em família entre o sul do pais e o Alentejo interior.

Há dois políticos que também saem da tradição do Algarve, um bem longe do centro do país e do interior. É o caso do deputado do PAN, André Silva, que faz um roteiro pelo Cáucaso. O líder do PSD também sai da norma, mas numas férias a norte.

Políticos a banhos

A segunda figura do Estado, o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, repetirá o modelo de férias que segue "há 40 anos consecutivos", passando a primeira quinzena de agosto em Altura, no Algarve, com a família.

Também o presidente e líder parlamentar do PS, Carlos César, passará uma parte das férias no Algarve e a outra nos Açores - onde já está - mas fonte do seu gabinete realça que, mesmo neste período, "só desliga o telemóvel nos aviões".

O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, já está férias no sul do país, num período de descanso que durará cerca de três semanas. O líder parlamentar comunista, João Oliveira, repete o seu destino tradicional nesta época e irá para o litoral alentejano "entre Aljezur e a praia da Galé" durante duas a três semanas no próximo mês.

Em matéria de destinos de férias, esquerda e direita têm gostos semelhantes: também a líder do CDS-PP, Assunção Cristas, irá passar as primeiras semanas de agosto no Algarve com a família, bem como o líder parlamentar democrata-cristão, Nuno Magalhães, que pretende rumar na segunda quinzena de agosto para o sul do país.

O líder parlamentar social-democrata, Fernando Negrão, planeou uma viagem pelas praias do litoral.

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