Eurodeputados portugueses divididos quanto à visão de Juncker

Presidente da Comissão Europeia falou no posicionamento da União Europeia à escala global, mas criticou a falta de respostas concretas para os problemas dos europeus

Os partidos portugueses dividiram-se esta quarta-feira, em Estrasburgo, quanto à apreciação do discurso do presidente da Comissão Europeia sobre o Estado da União, com a esquerda a destacar os pontos negativos e o PSD e o CDS-PP os positivos.

O eurodeputado socialista Carlos Zorrinho elogiou a parte do discurso em que Jean-Claude Juncker abordou o posicionamento da União Europeia (UE) à escala global, mas criticou a falta de respostas concretas para os problemas dos europeus.

"Foi sem dúvida um bom discurso do ponto de vista do posicionamento da União Europeia à escala do mundo. E essa é uma questão muito importante. Mas, foi um discurso menos convincente quando se trata das respostas concretas para os problemas dos europeus", disse.

Contudo, acrescentou, há agora a necessidade de "aproveitar as linhas abertas" para, designadamente, "completar a União Económica e Monetária, tornar as migrações um processo legal, mais simples e rápido",

Carlos Zorrinho defendeu ainda que "a parceria Europa-África é uma boa ideia" e "a tributação das gigantes tecnológicas é também muito positiva".

Paulo Rangel, do PSD, classificou o discurso como "muito bom", afirmando que "teve até um aspeto inesperado".

"Em vez de ser de balanço, que seria o expectável no último discurso de uma personalidade europeia com as características de Juncker, um europeísta convicto, ele basicamente falou sobre o futuro, o que é muito positivo" e foi às áreas críticas, abordando a questão das migrações, o reforço da zona euro e não deixou de falar do Brexit.

O eurodeputado social-democrata destacou também aquilo a que chamou uma espécie de "Plano Marshall para África", que está também ligado à questão das migrações, o que considerou igualmente muito positivo.

"Mas, não houve uma palavra sobre as perspetivas financeiras para os próximos sete anos, especialmente para mudar os critérios, e está na altura de colocar a questão na agenda", sustentou Paulo Rangel, considerando "totalmente inaceitável" que países como Portugal ou a Estónia vejam o seu orçamento reduzido, enquanto o da Alemanha e da Espanha é aumentado.

A este propósito, Paulo Rangel disse ser necessário que o Governo revele em que estado está a negociação do pacote de fundos para Portugal.

Pelo CDS-PP, o eurodeputado Nuno Melo afirmou que Juncker fez "um discurso previsível" na medida em que "tocou nos principais pontos que estão na agenda na UE", como as migrações, o Brexit, os extremismos, a par de outros "temas relevantes", como o futuro alargamento e as questões ambientais.

"Não é um discurso surpreendente, mas é um discurso importante, que vai a tudo aquilo que deve ser tratado" na UE, argumentou, contestando, contudo, a possibilidade de as regras de funcionamento da União serem alteradas para acabar com a necessidade de unanimidade em algumas matérias, porque "isso relegaria os países mais pequenos ou menos relevantes demograficamente para um plano de segunda", em que os maiores prevaleceriam.

Nuno Melo disse acreditar numa União Europeia em que um país como Portugal é "tratado com o mesmo peso decisório" do que um país como a Alemanha.

"Tudo o que seja alterações institucionais que tendam a distorcer esta regra, balançando o pêndulo para o lado dos mais fortes (...) esse projeto fará de nós na UE 'filhos de um deus menor'", sublinhou.

João Ferreira, do PCP, criticou o "exercício de propaganda e de mistificação" protagonizado por Jean-Claude Juncker em que, "por um lado, elogia-se a lógica do compromisso, por outro, pretende-se acabar com a regra da unanimidade e reforçar com isso o poder dos grandes estados".

"Fala-se num conceito de soberania europeia que não é outra coisa senão a soberania das grandes potências, o poder de imporem os seus interesses aos demais", acusou.

Para o eurodeputado do PCP, o discurso do presidente da comissão "confirma um quadro em que tudo converge para um reforço do poder das grandes potências de estas poderem impor os seus interesses e os interesses dos seus grupos económicos e financeiros".

Marisa Matias, do BE, sustentou que Juncker levou hoje ao Parlamento Europeu "uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma", não apresentando propostas concretas.

A deputada comunista apontou o caso da remoção dos plásticos ou da mudança da hora como "medidas muito parciais, que não respondem de maneira nenhuma aos desafios que a UE tem pela frente".

"Foi uma mão cheia de coisa nenhuma em relação aquela que é a medida concreta dos dez mil novos guardas costeiros, da segurança reforçada e novos mecanismos. E é de coisa nenhuma, porque não é uma ameaça que enfrentemos neste momento, não é um problema real. O que a comissão se propõe é retirar à coesão, aquela que é uma política fundamental de criação de emprego de qualidade (...) e passa tudo isso para a questão da segurança, quando na realidade a segurança se resolve através da cooperação entre os estados-membros", argumentou.

Para Marisa Matias, este programa de segurança "não só não vai resolver nada, como ainda trará efeitos perversos", apontando o caso da escolha dos migrantes que podem entrar, o que considerou contradizer o discurso da solidariedade.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O FMI, a Comissão Europeia e a direita portuguesa

Os relatórios das instituições internacionais sobre a economia e a política económica em Portugal são desde há vários anos uma presença permanente do debate público nacional. Uma ou duas vezes por ano, o FMI, a Comissão Europeia (CE), a OCDE e o Banco Central Europeu (BCE) - para referir apenas os mais relevantes - pronunciam-se sobre a situação económica do país, sobre as medidas de política que têm vindo a ser adotadas pelas autoridades nacionais, sobre os problemas que persistem e sobre os riscos que se colocam no futuro próximo. As análises que apresentam e as recomendações que emitem ocupam sempre um lugar destacado na comunicação social no momento em que são publicadas e chegam a marcar o debate político durante meses.

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.