Editoriais de Saramago no DN: contrarrevolucionários, nós?

Para assinalar os 20 anos do Prémio Nobel da Literatura atribuído a José Saramago, o DN republica três dos editoriais que o antigo diretor adjunto (e mais tarde colunista) publicou no jornal durante o Verão Quente de 1975. Estes três textos, não assinados mas mais tarde incluídos numa coletânea do próprio Saramago editada pela Caminho, fizeram parte dos "tesouros do baú do DN" incluídos nas revistas comemorativas dos 150 anos do jornal, juntamente com a reportagem de Eça de Queirós no Suez, um artigo de Wenceslau de Moraes sobre o Japão e a entrevista de António Ferro a Hitler.

Contrarrevolucionários, nós? (7/7/1975)

De súbito, quando por indícios vários se temia que a reação atacasse, quando em torrente surdiam boatos desmedidos para todas as medidas, quando já as massas populares, respondendo ao apelo dos sindicatos, acudiam aonde era preciso ou assim se supunha, deu-se o acontecimento inesperado e fulminante: o Diário de Notícias deixara de ser oficioso. Por golpe interno? Por investida do exterior? Tanto não se sabe, mas a prova documental apareceu feita, naquela perigosa legenda que punha enfim a claro um maquiavélico plano longamente amadurecido e agora executado por via de condições propícias que de todos são conhecidas: a fuga dos pides, o desfalecimento da autoridade, as greves inexplicáveis, as reivindicações irrealistas, e talvez, quem sabe, as viagens de Sanches Osório a Madrid... O Diário de Notícias, com uma simples e na aparência inocente legenda, tentava desencadear uma arguta manobra de divisão das Forças Armadas.

Não são isto invenções nossas de última hora. Foi o Estado-Maior do Exército que, tirando-se das suas graves preocupações, produziu um comunicado para o denunciar à população, carregando-nos de fórmulas duras e inquietantes, como "intenções e critérios demagógicos", "insidiosamente", "inserção na escalada de perturbação social", etc.

Um jornal que assim se comporta teria de perder a sua medalha de oficioso, pelo menos, e como de justiça.

Ora, só uma suscetibilidade muito viva (que bem faria em interrogar-se) e um lapso de serenidade podem ter encontrado na malnascida legenda tão largo acervo de ominosas intenções. E só uma falha momentânea de memória pode ter varrido da informação política do Estado-Maior do Exército o apoio que, contra alguns ventos e não poucas marés, este jornal se tem honrado de dar à Revolução: não falta, até, quem o considere exagerado, saudoso do prudente periódico doutro tempo, que, tendo tudo a ganhar não arriscando, não arriscava mesmo... Este Diário de Notícias, por muitas razões que já é inútil explicar, passou a estar na difícil situação daquele pobre diabo que era preso por ter cão e preso por não o ter...

O nosso mal, porém, vai mais fundo. Assim o disse pelas ondas da rádio o capitão Vasco Lourenço, ao classificar de "profundamente contrarrevolucionário" o ato do Diário de Notícias. Ouve-se e não se acredita. Se estivéssemos em tempo de nos satisfazermos com tão pouco, era caso para nos sentirmos lisonjeados pela atenção particular dada por um membro do Conselho da Revolução a este jornal, mesmo sendo tal atenção motivada por atitude supostamente negativa: melhor peito nos faria sermos notados pelas bondades praticadas, ainda que com risco de nos retornarmos oficiosos... Quão sensatos teríamos sido, afinal, se houvéssemos captado e dado uma imagem de mesa circunspecta ou de assembleia petrificada! Pecou o fotógrafo por ter fixado homens em ação, pecou o redator por ousar escrever "diálogo agitado": mas a dupla reprimenda veio a ser muito maior do que as culpas - e acaba por torná-las insignificantes...

Quando amanhã (quantos anos ainda faltarão?) o socialismo tiver eliminado a propriedade privada dos meios de produção, uma outra propriedade fazemos votos por que perdure: a propriedade vocabular. Nesta fase da vida portuguesa, ao que parece nem toda a gente tem ideias bastante seguras sobre o que isso seja. Em contrapartida, porém, o comum do nosso povo mostra ter claríssimas opiniões sobre o que são contrarrevolucionários, e não falta quem afirme, com alguma razão, que muitos deles ainda por aí andam à solta, ou são postos em liberdade, ou fogem sossegadamente para terras outras, ou participam à sua maneira na nossa ingénua revolução...

Contrarrevolucionários, nós? Ora esta!...

O tempo da verdade (22/7/1975)

Isto, isto que se passa na nossa terra, não é um desafio de futebol. Portugal não é um campo de jogos onde saltem e se atropelem umas tantas equipas trajadas de diferente e com emblemas de setas, foices, raízes, martelos e mãos fechadas. Quem de bancada julgue assistir já deve ter começado a perceber que se enganou no bilhete: não se trata de saber se vai ganhar o partido A ou o partido B, se tudo é questão de aliciar mais votos ou presenças do que os rivais, para depois receber a taça dos vencedores e as satisfações do poder. Porque os votos e as presenças, decerto contabilizáveis, não se limitam a ser números e vultos abstratos, eventualmente transferíveis, nesse mesmo estado de abstração, de partido para partido. Esses votos e essas presenças correspondem a situações muito concretas (embora nem sempre discerníveis na multidão), de situação económica, de condição social, de interesse, de dependência ou sobrevalência, de autoridade ou subalternidade, de empenhamento e suas razões.

Em si mesmo, o nome de um partido pode significar muito ou quase nada. Mesmo os seus programas e estatutos, as suas profissões de fé e as suas declarações de princípios, podem ser letra morta ou letárgica. E é perfeitamente possível que certas classes sociais se juntem a certos partidos ignorando ou desprezando os ditos programas e estatutos: os partidos são muito menos os organizadores das suas clientelas do que o instrumento das classes que neles escolhem reconhecer-se. Não é por outra razão (em termos forçosamente simplificados) que os partidos se degradam ou avançam sobre os projetos e as justificações iniciais. Por exemplo: um partido socialista, de programa socialista, projeto socialista, cor socialista e emblema socialista, pode deixar de o ser, conservando ao mesmo tempo tudo isto, se for escolhido, ocupado, inundado por uma ou mais classes que nada querendo do socialismo, veem nesse partido o caminho mais eficaz para o seu triunfo próprio (delas, classes) numa dada situação histórica. Precisamente a história aí está para dizer que tempo houve em que um partido social-democrata era, afinal, socialista, e que neste outro tempo não são raros os partidos socialistas que de sociais-democratas não passam. Tudo vai (repetimos) das classes, não dos partidos.

Agrade ou desagrade, o que fica dito é uma das poucas verdades gerais manejáveis nestes dias de pouca clareza. E, mesmo pondo de parte as maiúsculas identificadoras (prudência mínima e algo irónica pela sua inutilidade...), pode servir para ajudar a perceber o que se passa no nosso país. Não é realmente um jogo de futebol, um Benfica-Sporting como nos velhos tempos em que não havia outra coisa (ou havia, mas passava-se na sombra, ou no Aljube, ou em Caxias, ou em Peniche, ou no Tarrafal), não é uma questão de ter mais sócios ou menos sócios e ter a razão que tem o número deles ou a sua capacidade de militância, de violência ou de intriga. Esta situação portuguesa é uma situação de luta de classes, e nada mais. Melhor dizendo: tudo isso. Os semelhantes procuram os semelhantes, permutam as respetivas possibilidades miméticas: em Portugal todas as coisas ocupam os seus lugares, e as pessoas o que profundamente é a sua classe. Acabou o tempo da mentira, mesmo o daquela mentira institucionalizável que é o compromisso de classes, o qual, como é sabido de toda a gente que para estas coisas alguma vez deitou olhos atentos, é sempre celebrado e praticado contra o parceiro menos poderoso: posto o que, de compromisso nada tem e apenas reflete relações de força.

Portugal está em trânsito de arrancar (dolorosamente) a máscara do que parece, para assumir, enfim, a claridade do rosto que é. Portugal tira de si mesmo as forças a que, país por país, tantos outros renunciaram: ser pátria para os seus filhos desfavorecidos, explorados e humilhados. E este trabalho é seu, para além dos partidos e dos interesses das classes a quem interessa, episodicamente, parecer o que não são.

A pena e a espada (14/8/1975)

Não faz mal que as pessoas escrevam. Há mesmo quem disso faça ofício ou razão de viver, e graças a tal vocação (que não chegaria a parte alguma se não se acompanhasse de uma obstinação pelo menos igual) é que o mundo, em boa porção, se tem explicado a si próprio. Por aqui se entende que não iríamos propor-nos como julgadores de quem deve ou não deve escrever: além de que, em troca, não faltariam catões que nos aconselhassem, a nós, outro ofício... Muitas vezes se escreve para dar sentido à ação, ou, mais impuramente, para lhe sobrepor uma justificação ideológica que a prática já viria desmentindo. Escreve-se por tudo e para todos os fins: para explicar, para insinuar, para mentir, para dizer a verdade, para estar de acordo, para contrariar, para construir plintos, para tirar o chão de debaixo dos pés, para insultar, para enfeitar lisonjas, para comércio, para suborno, para a paz, para a guerra...

Também se escreve para aprender. E isto (fique desde já declarado que não é dito para ofender, neste tempo em que com tanta facilidade as pessoas se melindram e querem tirar desforço), isto vem sucedendo com muitos dos nossos militares, a quem apenas tinham ensinado ou de quem apenas exigiam os deveres do quartel, consubstanciados ou não no relatório. Com o 25 de Abril (feito por militares, não o esquecemos), e após um breve período em que a superstição do prestígio paisano ainda se impôs, os nossos homens fardados, primeiro de capitão e general e depois de general a soldado, lançaram-se nos prazeres da escrita e da oratória, o que começou por pôr exigências prévias de reflexão... Daí que provavelmente tenhamos, nós, analfabetos em mais de 35 por cento, se não as forças armadas mais inteligentes do mundo, pelo menos das mais aptas a argumentar, a discutir sobre pormenores, a teorizar infatigavelmente, e também, não há bela sem defeito, mais tentadas a deslizar para os comprazimentos da escolástica política...

Porém, esse não seria grande mal, e daria gosto ao intelecto, se os tempos corressem remansosos, entre o trabalho profícuo e o lazer legítimo. Não vamos invocar aqui os sábios de Bizâncio, ou invocamos, sim senhores, mas sem acentuar demasiado, que tendo os invasores em frente das muralhas da cidade, discutiam aprazivelmente o problema do sexo dos anjos ou outros de parelha importância. No entanto, perante a facúndia verbal dos nossos militares, todos oradores, todos homens de caneta, todos escritores ou quase, e pelo menos todos melhores do que jornalistas - as assembleias de Bizâncio ocorrem-nos à lembrança, não tanto por causa dos sábios (cada Bizâncio e cada Lisboa têm os sábios que podem), mas por causa dos invasores...

É este, sem ofensa repetimos, o espetáculo que Portugal dá aos outros e a si próprio: os letrados, praticamente, não abrem a boca, os militares não mostram jeito de fechá-la, e os invasores, esses, não estão fora das muralhas, mas dentro da cidade, dentro do país, no próprio coração do povo. Entretanto, os documentos entraram em inflação acelerada, as reuniões multiplicam-se palavrosamente da noite para dentro do dia e do dia para dentro da noite. É o reino da palavra. Foi no que veio a dar um silêncio de séculos e uma sufocação de cinquenta anos.

Assim seja, já que assim tem de ser: escrevam, falem, teorizem, proponham, inventem uma, duas, três alternativas, sejam profusos e brilhantes, cultivem o estilo do improviso ou da prosa castigada, sejam ao mesmo tempo Vieira, Bernardes, José Agostinho de Macedo, Bocage para o verso, Herculano para a história, ou Fernão Lopes, ou Camilo, Júlio Dinis se quiserem - mas reparem que temos os invasores em casa, que os anjos afinal não têm sexo nem anjos há, que este país está escorregando para o caos político e económico, para o caos social. Por culpa de quem? Dos paisanos, sem dúvida, de nós todos que não sabíamos antes nem aprendemos o bastante depois. Mas também dos militares, de vós, que tanto falais, tanto escreveis - e tão pouco fazeis contra os invasores, contra as novas falanges do fascismo, contra o Bizâncio que estais sendo.

E acabamos propondo-vos um outro patrono e modelo literário, a juntar à meia dúzia que acima ficou, já que tanto hesitais ante modelos de socialismo. É ele Luís Vaz de Camões, aquele que deve ter aprendido a escrever com a mão esquerda, para não largar da direita a espada...

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