Diálogo não chega, são precisas medidas

O Parlamento discute o Estado da Nação e o DN regista o que pensam 24 portugueses de diferentes áreas profissionais. O que é que mudou na sua profissão após três anos de Governo PS com o apoio da esquerda parlamentar?

Miguel Seabra - Ator/encenador

Foi de 80 a 8, houve uma grande expectativa na mudança de governo, mas "a montanha pariu um rato". Com a coligação de esquerda, voltou a haver um Ministério da Cultura e um secretário de Estado que trouxe esperança por ser um homem do meio, conhecedor, com muita experiência profissional, qualificada e diversificada. Tinha grande aceitação na maioria do setor, mas o que aconteceu foi o congelamento dos concursos durante um ano, supostamente para preparar condignamente o novo modelo de apoio às artes. O resultado foram promessas de calendário adiadas, uma contestação que culminou na manifestação de 6 de abril. Foi a maior manifestação contra as políticas culturais da história de Portugal e fez com que o Primeiro Ministro abrisse os cordões à bolsa e comentasse os valores atribuídos às artes, o que também não nos deixou tranquilos. Onde estava esse dinheiro? O Teatro Meridional, bem como outras estruturas artísticas, não recebe um tostão desde janeiro, os pagamentos estão atrasados. É uma manifesta falta de consideração, nenhum outro setor aguentava isto.

Isabel Belchiot - Professora

A principal mudança foi o ambiente e a disponibilidade para o diálogo. Passámos de um momento em que havia tensão para um momento mais descontraído. O atual ministro sempre se dispôs a ouvir os professores. Em relação às medidas que foram tomadas, essas têm um timing de aplicação mais político que atendendo às necessidades dos profissionais e dos alunos. Foi aprovada a redução do número de alunos por turma, mas para começar no 1.º ano do 1.º ciclo e a aplicação vai ser gradual, vai demorar anos até chegar ao Secundário. Por outro lado, se pensarmos que os professores que têm menos de 30 anos são uma percentagem mínima, é preciso mais do que diálogo para atrair os mais novos. Os sindicatos têm feito muito mal a quem entra na profissão e que ganha muito pouco em comparação com os que estão no topo da carreira. Os sindicatos não falam disso, talvez porque os sindicalizados são os mais velhos.

Paulo Rodrigues - Agente imobiliário

Mudou o mercado, que mexeu totalmente, principalmente devido ao turismo. Há muitos estrangeiros que querem investir em Portugal, essencialmente em Lisboa mas também em outras zonas do país. Começou com os chineses, através dos Vistos Gold, agora são muitas outras nacionalidades, particularmente franceses. O nosso mercado principal é o centro de Lisboa mas cada vez mais estamos a alargar para os concelhos limítrofes, porque os portugueses não têm poder de compra para os preços praticados. Na rua dos Anjos, onde estamos, um apartamento que há três anos custava 100 mil euros, agora custa 300 mil.

Paulo Garcia - Condutor do tuk tuk

Há mais turismo na cidade, só que é um turismo low cost. Cada vez mais, estamos a atrair turistas que não estão dispostos a gastar dinheiro, há três anos estavam dispostos a gastar mais dinheiro. Além de que os preços em Lisboa aumentaram bastante e os estrangeiros queixam-se que está tudo muito caro. Vivi muitos anos na Holanda, onde tenho amigos que vêm a Portugal por 70 a 80 euros, a viagem de avião de ida e volta (fora da época alta). Chegam aqui, pagam o mesmo por uma hora no tuk, tuk, dizem que é caro (80 euros num tuk, tuk de seis lugares e 60 num de três). Falta legislação no setor, há demasiados tuk tuks, são atribuídas licenças sem limite, não é exigida formação. Quem paga 80 ou 60 euros por volta de uma hora tem direito a saber um pouco da história da cidade e isso não acontece. Tenho uma licenciatura em gestão Hoteleira e fiz formação no Turismo de Portugal.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.