Rio e Cristas: longe da vista, cada vez mais longe de uma coligação

Sem coligação à vista e com a perspetiva de tirarem espaço um ao outro, Rio e Cristas jogam de forma muito diferente o espaço da direita nesta rentrée.

Paula Sá
 | foto Rui Miguel Pedrosa/Lusa
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 | foto Manuel Fernando Araújo/Lusa
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Rui Rio e Assunção Cristas fazem tudo por esquecer que PSD e CDS foram de braço dado às legislativas de 2015. Um corre para o centro ou centro-esquerda, a outra para o centro-direita. Ambos vão tentar conquistar abstencionistas sem cor partidária, mas seguem estratégias de combate político muito diferentes.

A Volta a Portugal do Futuro 2018 passou no sábado por Castelo de Vide. Rui Rio não assistiu à passagens dos ciclistas, mas um dia depois também faz a segunda etapa da rentrée política na vila alentejana, no encerramento da Universidade de Verão (UV) do PSD. As críticas aos opositores internos, a quem convidou a sair do partido, ficam à porta da sala de "aula", mas deve estar o exercício de tiro ao alvo ao governo de António Costa.

Rio procura ser visto como um "político diferente". Por isso não traz ainda à UV as propostas eleitorais que o partido lhe tem exigido. Nem o anúncio de quem será o cabeça-de-lista às europeias. Quer discutir a reforma do sistema político, do Estado e da justiça, o controlo da despesa pública, temas que o acompanham há anos. Só que agora em duelo com o governo do PS. Na festa do Pontal, no fim de semana passada, já começou a rasgar a política de Costa. Apontou os falhanços do governo nas áreas da saúde, transportes públicos, gestão dos incêndios. E pôs acento tónico em palavras como "eleitoralismo" e "imoralidade".

A estratégia de Rio, que tem deixado o PSD nervoso, está traçada e não sofre desvios, mesmo sob pressão interna. A primeira está cumprida: demarcar-se da liderança de Passos Coelho e da visão do "vem aí o diabo", que impedia o crescimento ao centro do PSD.

A segunda etapa tem um percurso de montanha acidentado: atacar sem dó nem piedade os que questionam a sua liderança. Começou no Pontal e teve uma segunda ronda na sexta-feira, no programa Bancada Central da TSF, onde convidou os que discordam dele "estruturalmente" a fazerem como Santana Lopes e a abandonarem o partido. Rio provoca, assim, a instabilidade no PSD a uma distância considerável das eleições, para evitar surpresas. Só que hostilizar autarcas, dirigentes e adversários pode levar à convulsão de algumas das estruturas do partido, que mobilizam as bases para as campanhas eleitorais. É por isso que lançou o aviso: mesmo que não vença as europeias e as legislativas do próximo ano, só deixará a liderança do PSD se tiver uma derrota estrondosa.

Os eleitores do centro, flutuantes entre PS e PSD, e os abstencionistas são o objetivo da terceira e última etapa de Rui Rio. Irá mais para a frente, bastante mais próximo das eleições legislativas, dosear os ataques ao executivo, com as suas propostas para o país. Diz que se recusa a antecipar o "período eleitoral", o que não impede de entrar agora num confronto mais feroz com o governo.

Assunção Cristas tem uma estratégia muito diferente da de Rio, mais ajustada ao lema: "Se não podes com eles, junta-te a eles." Não no sentido de dar a mão ao governo, como fez Rio no início da sua liderança, mas na afirmação da alternativa ao que apelida de "esquerdas encostadas". A líder centrista tem vindo a revelar o que quer para país, área por área, ponto por ponto.

O CDS entrou ontem, sábado, na sua rentrée, na Festa das Famílias, em Valongo, em verdadeiro modo de campanha eleitoral. "A alternativa somos nós!" - disse Assunção, e este é o lema que a vai acompanhar em 2019. Com a mira em outubro do próximo ano, jogou ao ataque e avançou propostas: baixar todos os escalões do IRS, alargar a ADSE a todos os portugueses, eliminar a sobretaxa do ISP. Enquanto garantia que "somos o único partido que recusa servir de "muleta" a António Costa.

Assunção Cristas já varreu o país de lés a lés, setor por setor. Tem a vantagem competitiva sobre Rio de ter um mandato, ser deputada. Pode enfrentar António Costa cara a cara, no Parlamento. Tem sido, aliás, metódica e persistente a pôr o dedo na feridas do setor da saúde, nos debates quinzenais com o primeiro-ministro.

E se Rio relega a escolha do cabeça-de-lista às europeias - embora fontes que lhe são próximas deem como quase certo que continuará a confiar em Paulo Rangel - para outras núpcias, Assunção dá protagonismo a Nuno Melo, que encabeçará a lista centrista ao Parlamento Europeu. O eurodeputado falou na festa e deu o tiro de partida para as eleições europeias. Nas anteriores, em maio de 2014, Rangel e Melo correram coligados, mas neste novo ciclo os líderes do PSD e do CDS também fazem tudo para que ninguém se lembre disso. Até porque convergem num ponto. Correm sozinhos e ambos vão andar à procura do eleitorado desiludido, que não tem ido às urnas, e que formam um grande "partido da abstenção".