Montijo. Novos aviões a jato e simuladores abrem porta à permanência dos militares

Simuladores de voo para os futuros KC-390 e helicópteros Lynx, além da falta de espaço para juntar Força Aérea e Marinha em Sintra, favorecem permanência militar no Montijo.

Manuel Carlos Freire
Porta de armas da base aérea do Montijo. | foto Sara Matos/Global Imagens
Caça-bombardeiro Fiat G-91 à entrada da base do Montijo. | foto Paulo Spranger/Global Imagens
C-130 no Montijo para transportar contingente militar para o estrangeiro.  | foto Pedro Rocha/Global Imagens
Aeroporto complementar de Lisboa inviabiliza operação dos helicópteros EH-101 com a aviação comercial. | foto JOSÉ CARLOS PRATAS/GLOBAL IMAGENS
Aeronaves de transporte militar C-130 deverão ficar em Ovar para combater fogos após chegada dos KC-390. | foto Pedro Rocha/Global Imagens

As futuras aeronaves militares KC-390 da Força Aérea deverão ficar sediadas no aeroporto complementar de Lisboa, o que significará a continuação da Força Aérea na base do Montijo, admitiram fontes militares ao DN.

O dossiê continua por decidir, admitindo a ANA (gestora do Aeroporto Humberto Delgado) que fique fechado no segundo semestre deste ano. Mas parecem ultrapassadas muitas das dúvidas surgidas com a proposta de desnivelar as pistas cruzadas do Montijo, ficando uma para a aviação civil e a secundária para a militar - e sobre os helicópteros da Marinha.

Segundo fontes militares e do Ministério da Defesa, os estudos em cima da mesa indicam que é possível manter a esquadrilha de helicópteros Lynx da Marinha no Montijo - paredes-meias com a base naval de Lisboa (Alfeite) na margem sul do rio Tejo, onde atracam as fragatas de que fazem parte e donde operam no mar.

Esse foi um dos três cenários equacionados desde o início pela Marinha. Mas esta solução de acompanhar a transferência dos EH-101 da Força Aérea para a base de Sintra exige uma resposta: haverá espaço suficiente para os helicópteros e as estruturas de apoio dos dois ramos coexistirem na Granja do Marquês?

As avaliações preliminares indicaram haver limitações de espaço suficientes para se admitir que essa solução terá poucas probabilidades de se concretizar, admitiu uma das fontes militares, sob anonimato por não estarem autorizadas a falar sobre essa matéria.

Certo é que a coexistência de civis e militares no Montijo é atualmente vista como quase certa. Embora com as reservas inerentes ao facto de não haver decisões, o certo é que "a ANA deixou de falar na questão de as pistas" que se cruzam terem de ser desniveladas (proposta inicial da empresa gestora do aeroporto de Lisboa), revelou uma das fontes.

Este ponto era um dos grandes entraves à permanência da Força Aérea no Montijo, mesmo num espaço mais reduzido e com a transferência das frotas do ramo para outras bases.

Por outro lado, a natureza dos aparelhos de transporte militar KC-390 que vão substituir os Hércules C-130 na próxima década torna-os compatíveis com o movimento dos aviões comerciais pois operam com motores a jato, frisaram as fontes.

O KC-390 "é perfeitamente adequado e perfeitamente encaixável" no tráfego aéreo comercial e também "não precisa de fazer voos de treino locais" no Montijo, ao contrário do que sucede com as atuais aeronaves a hélice e de asa rotativa ali sediadas, enfatizou um oficial general da Força Aérea.

As várias fontes continuam a alertar para a incerteza e as muitas dificuldades operacionais decorrentes do atraso na conclusão do processo para transformar a base aérea do Montijo no aeroporto complementar de Lisboa.

No entanto, talvez por causa do mantra assumido há muitos anos - "somos parte da solução, não do problema" - pela Força Aérea, o certo é que neste momento são quase nulas as probabilidades de o ramo ter de abandonar o Montijo quando este espaço for essencialmente civil.

Como lembrou um dos oficiais envolvidos nesse dossiê, "o volume de tráfego militar [no Montijo] vai ser muito menor só com o KC" - já que os C-295 e os helicópteros EH-101 vão ser transferidos para outras bases.

Segundo o último estudo elaborado pelo ramo, aquelas aeronaves de transporte irão para Beja e as de asa rotativa para Sintra. Já os C-130 irão para Ovar, configurados para participar no combate aos fogos.

O facto de o programa de aquisição dos KC-390 incluir um simulador, onde os pilotos aviadores vão treinar "todo o tipo de emergências e todo o tipo de manobras", explica porque é que as tripulações dessas aeronaves não precisarão de fazer voos reais de treino no Montijo, como sucede com as atuais frotas dos C-130, dos C-295 e dos EH-101, precisou uma das fontes.

Para além do fator simbólico de o ramo aeronáutico das Forças Armadas manter "uma pegada no Montijo", onde está desde 1954, a Força Aérea elenca também aspetos operacionais em continuar ali.

Segundo algumas fontes, um deles é o de ser sempre mais fácil projetar forças a partir do Montijo para as missões de paz e humanitárias no estrangeiro. Outro é que também "ajuda a garantir todo o apoio logístico que é preciso continuar a dar à Marinha", realçou um dos oficiais.

Recorde-se que o espaço militar no Montijo - cerca de mil hectares - nasceu dentro da Marinha em 1953, como Centro de Aviação Naval (até então instalado em Lisboa), sendo integrado no ano seguinte na recém-nascida Força Aérea.

Mas a Marinha também prefere continuar no Montijo, desde logo pela proximidade ao Alfeite. O apoio logístico que aí recebe da Força Aérea - segurança da área militar, alimentação, serviços de tráfego aéreo, comunicações, meteorologia, bombeiros, combustível, energia - também favorece essa posição.

A verdade é que, tirando o aspeto da cultura militar comum aos dois ramos, a maioria daqueles serviços podem ser fornecidos à Marinha pela ANA.

Essa solução, a confirmar-se, evitará despesas estimadas de 15 milhões de euros para concretizar a transferência da esquadrilha dos Lynx para a base aérea de Sintra - e os inerentes custos posteriores, associados à maior distância a percorrer pelos aparelhos quando as fragatas partirem em missão.

Contudo, a continuidade da Marinha no Montijo, ainda que no mesmo local, implicará a construção de um simulador de convés de voo - dummy deck, em terminologia naval - noutro sítio da base para o treino de aterragens, descolagens e acidentes dos helicópteros por parte dos pilotos aviadores navais e das equipas de bordo.

Essa nova infraestrutura, indicou um oficial superior, terá um custo estimado de três milhões de euros.