A importância da emoção e da força de vontade

O Parlamento discute o Estado da Nação e o DN regista o que pensam 24 portugueses de diferentes áreas profissionais. O que é que mudou na sua profissão após três anos de Governo PS com o apoio da esquerda parlamentar?

Gomes Pedro - Pediatra

O que mudou no exercício da medicina, em particular na pediatria, foi a passagem do modelo patológico - e que ainda está na cabeça de muitos profissionais de saúde -, para um modelo relacional. Este modelo baseia-se numa atenção para o social, para os afetos, para as emoções e sentimentos, que cada vez mais são partilhados com uma parentalidade. É um modelo cada vez mais sensível e exigente às mudanças que vão acontecendo e a que chamamos "touch point". A nível das políticas para a saúde, há uma crise de falta de profissionais face às exigências atuais, quando é preciso mais tempo, mais calma, mais interação com o doente. As consultas têm de ser feitas com mais tempo e com tranquilidade.

Serena Hindi - Refugiada palestiniana

A minha vida está fantástica, mas vivi momentos muito difíceis. Saí da Palestina em 2013 para a Bélgica, onde o estatuto de refugiado me foi negado por três vezes. Também não gostei do país, do clima ou das pessoas e comecei a pensar em viver em Espanha ou Portugal. Tentei saber mais sobre Portugal e toda a gente me falou muito bem. Em 2016, vim fazer uma visita e já não saí. As pessoas são muito simpáticas, sempre prontas a ajudar, gostam de abrir o coração e todos falam inglês. Quando penso em Portugal, não penso na Europa, pelo menos a Europa da Alemanha, da Bélgica ou da França. A minha vida mudou muito, é como se fosse um milagre. Vim com o meu namorado, não conhecíamos ninguém e a pouco e pouco fomos conhecendo pessoas que nos ajudaram. Estamos à espera do estatuto de refugiado, mas estamos com dificuldades porque fomos primeiro à Bélgica [o estatuto deve ser requerido no país de chegada à Europa].

António Vitorino de Almeida - Maestro/músico

Não posso dizer que tenha mudado por via política, estaria a mentir, mas efetivamente nunca vi tanta gente nova e boa. Não penso que seja derivado de uma ação política, pois há várias medidas que se aguardam há anos. A nível cultural, da música em particular, não vi medidas políticas, não se fez nada, pelo menos que eu saiba, Por outro lado, surpreendentemente. Entre janeiro e a atualidade, ouvi quatro orquestras sinfónicas muito boas, orquestras completas. É gente com um nível absolutamente extraordinário e, quem governa, deveria pensar nestas pessoas, que merecem mais. Se sem apoios têm esta qualidade, imagine o que não aconteceria se tivessem melhores condições.

Alves Santos - Vendedor de automóveis

O que mudou foi a estabilidade emocional das pessoas e isso reflete-se no negócio. A instabilidade política cria uma instabilidade emocional, o que faz com que as pessoas recuem no momento de decidir fazer uma compra, nota-se no setor automóvel como em todas as áreas de venda. Atualmente, as pessoas estão mais seguras para fazerem uma compra. A instabilidade política não é boa para o nosso ramo. Claro que a instabilidade laboral, o receio de perder o emprego, deixam as pessoas mais reticentes em relação a comprar, mas o que afeta mais é a estabilidade emocional. Vendo carros novos e o volume de vendas aumentou cerca de 40 % nos últimos três anos. Também pode ter ajudado o facto de termos híbridos, que tem uma procura muito grande, mas não é o fator essencial.

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