"A esquerda que faz a diferença", "a direita que não conta" e o "cancro" que é associar-se ao PS

Moções já foram votadas: ganhou por esmagadora maioria a A, da direção bloquista, aquela que sonha governar. A Moção M recusa apoiar quem faz a "gestão do capitalismo" - teve 40 votos

Da "esquerda que faz mesmo a diferença" e que sonha governar à recusa de integrar e apoiar um futuro governo socialista, as intervenções finais de defesa das moções mostraram que no Bloco de Esquerda são os entendimentos com o PS - seja qual for a solução para esse acordo - que mais dividem os delegados da XI Convenção do partido.

Sem grandes ilusões de uma rutura à esquerda: a Moção A, aquela que é da direção bloquista, recebeu 459 votos; as outras duas moções opositoras têm uma expressão mínima: a Moção C teve apenas 9 votos; e a Moção M um pouco mais, 40. Houve duas abstenções.

Na eleição para a Mesa Nacional, em que votaram 584 delegados, a Moção A recolheu 457 votos, garantindo assim 70 assentos naquele órgão. A Moção C teve 62 votos, correspondentes a 10 lugares, numa votação com 57 votos brancos e oito nulos.

O líder parlamentar do BE, Pedro Filipe Soares (um dos três principais subscritores da Moção A, juntamente com a líder do partido, Catarina Martins, e a eurodeputada, Marisa Matias), aproveitou o seu tempo de intervenção para responder às críticas que se ouvem à convenção - fora e dentro do Pavilhão do Casal Vistoso, em Lisboa. Daqueles que dizem que se falou pouco da direita e daqueles que criticam a institucionalização do partido.

Aos primeiros, Pedro Filipe Soares respondeu que a atual direita, o PSD de Rui Rio e o CDS de Assunção Cristas, "não conta para o futuro do país". Afinal, acusou, são os mesmos que na Europa apoiam o alemão Manfred Weber, que será candidato do Partido Popular Europeu ao Parlamento Europeu, ele que defendeu a aplicação de sanções a Portugal por causa da solução governativa de esquerda. "Esta direita não é uma alternativa, é uma caricatura, por isso não perdemos tempo com ela", arrumou Pedro Filipe Soares.

À crítica dos segundos, de Bloco de Esquerda acomodado, como as moções opositoras têm apontado, o dirigente do partido também refutou a ideia dos bloquistas no bolso de António Costa. "Se estamos no bolso do PS, por que é que se irrita tanto António Costa com o Bloco?", atirou, arrancando muitos aplausos entre os militantes do partido. "O nosso povo sabe que o Bloco é a voz mais crítica no Parlamento", defendeu, afirmando que os bloquistas têm estado ao lado dos movimentos sociais na luta destes - "contra os despejos", "contra os despedimentos" ou "em defesa do ambiente".

Se "a direita dos negócios não nos pode ver", como afirmou, Pedro Filipe Soares invocou o poeta José Gomes Ferreira ("não o outro"), para levar o sonho ao poder. "Agora, o sonho de governar à esquerda. Somos a esquerda que faz mesmo a diferença", concluiu.

Pela Moção C, Paulo Teles Silva criticou as tendências internas por serem "obsoletas" (onde se incluem as outras duas moções), avançando com as "principais propostas" para o BE: "Melhorar a democracia interna"; "fazer caminho para a nacionalização das empresas estratégicas, como a EDP, Galp, CTT, ANA, REN"; "financiar o SNS"; "zelar pelos direitos sociais dos trabalhadores", "travar a lei dos despejos"; e "combater todos os tipos de discriminação", entre outros.

Se para os subscritores desta moção, "o balanço" dos últimos dois anos "é globalmente positivo", o futuro deve ser claro: "Em relação às próximas eleições, não devemos fazer acordos pré-eleitorais" com socialistas e comunistas e "devemos recusar integrar um governo com o PS". E um governo socialista minoritário só deve ser apoiado se o PS aceitar "tudo aquilo que recusou ao campo popular no atual governo".

Pela Moção M, Francisco Pacheco avisou que "a mensagem" que trazia "não é de consonância com o discurso maioritário". Falando da necessidade de uma "luta de classes contra os responsáveis da crise" financeira e política, o subscritor da moção afirmou que "a associação aos partidos do centrão é um cancro político", incluindo o PS neste centrão. E recusou que o Bloco de Esquerda seja "muleta de apoio a um partido de gestão do capitalismo". "Não foi para isso que o Bloco nasceu", atirou.

Apontando que "as conquistas sociais não mascaram a realidade da crise permanente", Francisco Pacheco defendeu que o partido não se pode "dar ao luxo de apoiar mais uma geringonça". "Não é esse caminho." Uma larga maioria não concordou.

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