Cristas acusa PAN de ser ditatorial. André Silva critica despesismo do CDS

No debate da RTP3, Assunção Cristas aponta contradições do PAN. André Silva evoca responsabilidades governativas dos centristas desde 2000.

O moderador da RTP3 esforçou-se para que os líderes do CDS e do PAN apresentassem e discutissem os seus programas eleitorais, mas Assunção Cristas e André Silva preferiram comentar e criticar as propostas do adversário no debate deste sábado.

Assunção Cristas, que no início do debate rejeitou ser interrompida por André Silva quando estava a falar, passou a parte final do debate a interrompê-lo e várias vezes substituiu o jornalista António José Teixeira - que conduzia o frente-a-frente - para questionar diretamente o porta-voz do PAN.

Assunção Cristas acusou o PAN de ser um partido ideológico, autoritário e ditatorial que procura impor as suas soluções aos cidadãos - como é o caso das refeições vegetarianas. André Silva criticou despesismo das propostas do CDS por querer "dar tudo a todos", lembrando as responsabilidades governativas dos centristas nas dificuldades vividas pelos portugueses desde 2000.

O debate começou com uma pergunta dirigida à presidente do CDS: o que falhou na direita ou especificamente no CDS, nos últimos anos, para a própria Assunção Cristas alertar contra o risco de a esquerda se tornar ainda mais dominante após as eleições de outubro?

Cristas não respondeu, mesmo quando instada, optando por afirmar que a geringonça "foi apoiada pelo PAN" durante esta legislatura e prosseguindo com uma pergunta direta a André Silva: ""Fez contas" às medidas que está a propor?

André Silva aproveitou a deixa: "O PAN, ao contrário do CDS que se apresenta com um programa de dar tudo a todos e contas que podem colocar" o país numa "situação complicada ao nível orçamental" e com grandes défices, "apresenta-se com um princípio fundamental e norteador" da sua atividade "que é gestão dos dinheiros públicos."

"Ao contrário do CDS, não propomos baixar todos os impostos com contas que têm sido demonstradas que nos podem conduzir a uma situação calamitosa financeira. O que propomos é que, independentemente das propostas que tenhamos, há sempre um princípio norteador que se prende com o equilíbrio das contas, com a boa gestão dos dinheiros públicos", prosseguiu o líder do PAN.

Insistindo na mesma tecla, André Silva acrescentou: "É um princípio norteador de que temos de ter boa gestão das contas públicas e não cair em situações, como já aconteceu, com PS, PSD e CDS a levar este país a dívidas enormes e a resgates que conduziram a enorme precariedade e desemprego."

A presidente do CDS mostrou-se "estupefacta com a falta de memória ou com a desonestidade política" do adversário, pois foi o PS quem levou o país à bancarrota em 2011. "Foi o governo de que fiz parte orgulhosamente que devolveu a soberania financeira aos portugueses", enfatizou a ministra da Agricultura do executivo PSD/CDS.

Acresce que "também fico espantada" por ver André Silva "desviar-se do programa de estabilidade" - no qual se baseiam as contas do CDS, disse Cristas - aprovado pelo Governo PS com o apoio do PAN, cujo programa eleitoral tem "480 medidas" com "contas que não estão explicadas" e implicam "também um grande aumento de impostos".

Num debate não centrado em questões ambientais, a presidente do CDS acusou André Silva de ter "uma agenda ideológica, autoritária e ditatorial" - dando como exemplos as posições do PAN quanto ao acesso dos cidadãos ao sistema de saúde ou no que comer, matéria em que propõe mesmo o fim das ajudas comunitárias à produção de carne e leite.

André Silva, questionado expressamente pelo moderador sobre "o risco de ser autoritário" ao propor "a obrigatoriedade" de as instituições públicas servirem refeições vegetarianas (embora com opção de ter carne para quem quiser), rejeitou essa leitura, dizendo que a Holanda aplica essa medida.

O líder do PAN recorreu depois à recente imposição governamental de acabar com o uso dos plásticos para afirmar que está em causa a proteção da saúde das pessoas e que tem sido objeto de recomendações de diferentes entidades - além de esse setor ser "o maior poluidor mundial".

"O CDS lida muito mal com a evolução, lida muito mal com a sociedade que está em movimento e é um partido negacionista nesta matéria, capturado que está pelos interesses económicos" dos produtores de carne e leite e exportadores de animais vivos, acusou André Silva.

Assunção Cristas voltou a denunciar o que qualificou como "desonestidade intelectual" de André Silva por dizer que a produção de carne em Portugal "é extensiva", argumentando que "o PAN é em si mesmo um poço de contradições" - como rejeitar os plásticos mas também não querer o papel, ou ser contra a banha de porco e ao mesmo tempo contra o azeite, querer agricultura biológica mas não a animal que dá o estrume que alimenta a biológica, ou defender a vídeo vigilância para prevenir a morte de animais e ser contra a existência de câmaras na via pública e para proteger os cidadãos.

A líder centrista, lembrando "ter sido promotora da dieta mediterrânica a património mundial da humanidade", observou ainda que a soja defendida por André Silva como alternativa vegetariana ao consumo da carne - sendo produzida fora do país, por vir da América e do sudeste asiático - tem uma "grande pegada ambiental".

Num tema que lhe é familiar, André Silva acusou a líder centrista de "faltar à verdade" por promover a "ideia falaciosa" de a soja constituir a base da alimentação vegetariana - e quando "90%" da sua produção se destina à produção de rações para o gado.

O fim do frente-a-frente foi dominado pelas questões da segurança e justiça, com o CDS a criticar o PAN por querer um desagravamento generalizado das penas ou propor apoio psicológico para criminosos e não para vítimas que não tenham presenciado crimes, enquanto André Silva disse ter feito propostas concretas que os centristas chumbaram.

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