Costa supera-se, BE agiganta-se, CDU desaba e PAN consolida

Mapa do país fica quase inteiramente rosa - PS só perde em Vila Real e na Madeira e cava fosso de mais de dez por cento para o PSD. Bloquistas mais do que duplicaram número de votos. CDU perdeu quase metade. Abstenção com resultados paradoxais.

Pelas 23h00 de ontem, com 98,87% das freguesias e consulados apurados, os resultados oficiais mostravam que a soma do PS+BE+CDU estava à beirinha dos 50%: 49,92%. E se a estes somássemos o PAN - que garantidamente terá um eurodeputado eleito, tendo as projeções iniciais apontado a possibilidade de um segundo, consolidando portanto o resultado das últimas legislativas - essa soma ficaria muito acima dos 50%, passando para 54,91%.

O PS de António Costa ultrapassava em dois pontos percentuais a vitória "poucochinha" do PS de Seguro em 2014, passando de 31,61% para 33,51% (resultados pelas 23h00, em ambos os casos). O mapa do país fica quase que completamente rosa: os socialistas só não são a maior força na Madeira e em Vila Real (o PSD vence). Ao final da noite, respondendo a jornalistas, António Costa diria que não há razões para nas próximas legislativas não renovar a aliança de esquerda: "Não há razões para alterar aquilo que tem produzido bons resultados."

À esquerda, porém, a grande vitória seria do Bloco de Esquerda. A lista liderada por Marisa Matias ia em 9,72% - duplicando de um para dois o número de eleitos e também duplicando a percentagem de 2014 (4,49%). Durante a noite toda, os bloquistas, pelas vozes de Jorge Costa, Marisa Matias e Catarina Martins, sublinharam o facto de o partido ter passado a terceira maior força portuguesa no Parlamento Europeu. Ou, dito de outra forma: sublinharam que o BE é agora maior do que a CDU em Bruxelas - o que significa que a situação na Assembleia da República se transplantou para o panorama europeu.

PCP culpa comunicação social

A CDU recusou falar em derrota mas a verdade é que coligação liderada pelo PCP estava em perda: em 2014, às 23h00, tinha cerca de 385 mil votos, e ontem, à mesma hora, ia em 210 mil. Garantidamente, os comunistas passariam de três eleitos para dois - possivelmente até só um.

João Ferreira foi o primeiro cabeça de lista a falar, e explicou o resultado dizendo que ele resultou do facto de a coligação ter sido vítima de uma "óbvia menorização" da sua ação política. Também falou em "campanhas difamatórias" e disse que o quadro em que a campanha se fez foi "claramente mais difícil" do que o de 2014, quando o país ainda vivia na ressaca da troika (e o PCP beneficiava disso). No Facebook, um ex-deputado do PCP, Miguel Tiago, responsabilizaria a comunicação social pelos resultados: "Da comunicação social esperamos apenas um adversário. Porque também é assim que a comunicação social nos vê a nós. É assim que faz sentido e nem vale a pena lamentarmo-nos. Quando nos inscrevemos nesta luta, já sabíamos as regras do jogo."

Depois, Jerónimo de Sousa admitiria que o resultado eleitoral da CDU foi "particularmente negativo" para os interesses dos trabalhadores, do povo e do país, reconhecendo a quebra do partido face aos três eurodeputados eleitos em 2014. É a segunda derrota eleitoral consecutiva da CDU, depois das autárquicas de 2017, onde os comunistas perderam dez câmaras.

Dentro do partido, tenderão a fazer-se ouvir mais alto as vozes que contestam o alinhamento do PCP na geringonça: "O resultado da CDU não pode ser observado separado de uma intensa e prolongada operação de desvalorização da sua intervenção e do seu trabalho, de campanhas difamatórias, de animação de preconceitos e de uma meticulosa ação para menorizar a campanha e perspectivas eleitorais da CDU que conviveu com a descarada promoção de outras forças políticas. Uma orientação e opção que se compreendem, já que é a CDU, pelo que representa e defende, que o capital monopolista e os sectores mais reacionários temem como obstáculo aos seus projectos de submissão do país e de liquidação dos direitos dos trabalhadores."

RTP faz sondagem para as legislativas

A meio da noite, a RTP divulgaria uma sondagem feita ontem pela Católica com eleitores das europeia. Vitória do PS com 39% - longe portanto da maioria absoluta (resultado que só se alcança com, no mínimo, 43%). Depois, o PSD em segundo, com 25%, o BE em terceiro (9%) e a CDU em quarto (8%). (8%). O CDS/PP atingiria, de acordo com a mesma estimativa, 6% e o PAN chegaria aos 4%. O voto em outras forças políticas, os votos em branco ou nulos, representavam 8% da intenção direta de voto.

Este resultado representa, por um lado, uma clara maioria de esquerda mas ao mesmo tempo também a possibilidade de uma nova 'geringonça' se fazer apenas a dois, ou PS+BE ou PS+CDU. No centro-direita (PSD+CDS) a soma dá 34% - uma descida face a 2015 (36,86%).

À esquerda, é também de referir o desaparecimento de Marinho e Pinto. Há cinco anos, encabeçando uma lista do MPT, o ex-bastonário fora eleito, juntamente com o número dois da lista.

Paradoxos na abstenção

Depois disso, Marinho e Pinto rompeu com o Partido da Terra, criando o PDR (Partido Democrático Republicano). Ontem não só foi eleito como ficou muito longe de o ser. O PDR só tinha três partidos atrás de si (PURP, PTP e MAS), com 15,5 mil votos (0,48%), pelas 00h00 de hoje.

Às 00h53, estavam atribuídos 15 dos 21 mandatos: PS (6), PSD (4), BE (dois), CDU (um), CDS (um) e PAN (um).

À mesma hora, os números da abstenção revelavam-se paradoxais. O número de votantes de facto aumentou (de 3,245 milhões para 3,277 milhões, faltando apurar resultados de mesas e consulados representando cerca de 300 mil eleitores).

Contudo, a abstenção percentual também aumentou: de 66,12% para 68,64%. O paradoxo resulta do facto do número total de eleitores inscritos terem aumentado em um milhão: de 9,7 milhões para 10,7 milhões, por via do recenseamento automático de centenas de milhares de emigrantes portugueses residentes no estrangeiro.