Comandos. Coronel desconhecia exoneração quando soube da nomeação do sucessor

Despacho de nomeação do novo comandante do Regimento dos Comandos tem data de maio e chegou esta semana ao quartel da Carregueira (Sintra).

O comandante do Regimento de Comandos, coronel Pipa Amorim, "foi surpreendido" com o despacho de nomeação do sucessor recebido esta semana através do sistema de gestão documental do Exército, revelaram fontes militares ao DN.

Pipa Amorim estava fora do quartel da Carregueira, sede do Regimento de Comandos (Sintra), quando "foi informado por telefone" que tinha chegado o despacho com a nomeação do sucessor, tenente-coronel Eduardo Pombo, disse esta sexta-feira uma das fontes conhecedoras do episódio.

"Não é normal ser exonerado por papel ao fim de um ano", lamentou o mesmo oficial, remetendo para as violentas críticas que já se podem ler nas redes sociais desde que a notícia chegou, quinta-feira, ao conhecimento de vários antigos militares do Regimento de Comandos.

O tenente-general na reserva Antunes Calçada, que passou à reserva após o furto nos paióis de Tancos e em protesto contra a exoneração de cinco comandantes por parte do CEME, escreveu o seguinte "Com um grande abraço ao coronel Pipa Amorim, homem íntegro e grande comandante de tropas!"

O DN ainda não obteve resposta do Exército às questões colocadas sobre a decisão do Chefe do Estado-Maior do ramo (CEME), general Rovisco Duarte, nomeadamente para confirmar a data do despacho de nomeação do novo comandante daquele regimento e sobre o despacho de exoneração de Pipa Amorim.

A substituição do coronel Pipa Amorim veio a público uma semana após as cerimónias do Dia dos Comandos, realizadas na passada sexta-feira e onde o comandante se pronunciou em defesa dos 19 militares da unidade que vão a julgamento acusados da morte de dois recrutas em setembro de 2016.

Esses oficiais, sargentos e praças têm sido "vítimas constantes de atentados à sua dignidade, idoneidade e bom nome", afirmou Pipa Amorim, acrescentando: "Não podemos aceitar que estas cabalas contra os nossos militares sejam utilizadas como arma de arremesso, com o objetivo de desacreditar os Comandos e o Exército e o que estes símbolos representam."

Processo de averiguações?

Segundo outra das fontes, se o discurso de Pipa Amorim motivou de alguma forma a decisão do CEME então teria de existir um processo de averiguações e uma eventual punição - por oposição a um mero ato administrativo que mantém no escuro quais as razões da substituição do comandante dos Comandos ao fim de apenas um ano em funções.

A indignação manifestada contra a decisão - e principalmente contra a forma como o processo foi conduzido - é ainda maior, segundo as fontes ouvidas pelo DN, por causa do percurso profissional do coronel Pipa Amorim e de passar à reserva dentro de um ano por limite de idade.

Pipa Amorim iniciou a sua carreira militar na categoria de praças e, na Academia Militar, foi o primeiro do seu curso (Arma de Infantaria).

"Ele sente-se exonerado" apesar de desconhecer o respetivo despacho, assegurou uma das fontes, que também lembrou o mal-estar suscitado há meses por Pipa Amorim num discurso feito frente ao contingente da segunda Força Nacional Destacada na República Centro Africana.

Pipa Amorim realçou aí, segundo as fontes, que os militares desse contingente tinham usado parte do subsídio recebido pela missão para ajudar os camaradas que tinham sido afastados na véspera da partida para Bangui por estarem envolvidos no processo judicial da morte de dois recrutas em setembro de 2016.

Duas das fontes disseram ao DN que a exoneração de Pipa Amorim terá ficado lavrada nessa altura.

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