CCDR: Bloco Central venceu a 100% e dividiu o país ao meio

Confirmou-se o "Tratado de Tordesilhas" negociado ao mais alto nível pelas direções do PS e do PSD. Comissões de Coordenação Regional do Centro e do Norte para o PSD; e as de Lisboa, Alentejo e Algarve para o PS.

As eleições para a presidência das cinco Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) confirmaram na terça-feira todas as escolhas previamente negociadas entre o PS e o PSD. Só numa delas - Alentejo - houve dois candidatos, mas mesmo aqui venceu o que tinha sido definido entre as direções dos dois partidos.

Pela primeira vez, os presidentes das CCDR foram eleitos pelos autarcas dos concelhos abrangidos (antes eram nomeados pelo governo). Todas têm um presidente e dois vice-presidentes - e destes só um vice-presidente é escolhido pelo executivo, os restantes foram eleitos.

Mesmo assim, as candidaturas foram negociadas ao mais alto nível pelo PS e pelo PSD. Duas presidências ficaram para o PSD (das CCDR do norte e do centro), e as restantes três para o PS (Lisboa, Alentejo e Algarve).

Ao todo, foram chamados a votar mais de dez mil autarcas do continente. Pelas 23.30 de terça-feira, o governo revelava que estas primeiras eleições tinham decorrido "com normalidade", registando uma taxa de participação de 85,4%. Faltavam então apurar 19 mesas eleitorais.

Na única CCDR em que houve disputa pela liderança, a do Alentejo, o candidato negociado entre o PS e o PSD, o socialista António Ceia da Silva, até agora presidente da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo, bateu o atual presidente, Roberto Grilo, por 512 votos contra 418. Dos 1288 autarcas eleitores, participaram 1185 (92%), registando-se 246 votos brancos e nove nulos.

Aqui, como nas outras CCDR, o colégio eleitoral para a eleição do presidente era constituído pelos presidentes de câmara, vereadores e eleitos municipais da área abrangida - 1288 autarcas, no caso do Alentejo.

No norte, a região com maior número de votantes - 4091 -, foi eleito o ex-reitor da Universidade do Minho António Cunha, candidato único próximo do PSD que assumiu que o convite para a sua candidatura resultou de "um acordo entre os dois partidos", PS e PSD.

De acordo com os dados divulgados pela Direção-Geral das Autarquias Locais (DGAL), votaram no candidato 2937 autarcas, tendo-se registado 759 votos brancos e 148 nulos. Ao todo, 3304 autarcas participaram nesta votação - ou seja, 80,7%.

"Reabrir a regionalização"

No centro, a escolha do "bloco central" recaiu sobre a militante do PSD Isabel Damasceno, antiga presidente da Câmara de Leiria, que já ocupava a presidência da CCDR, sendo assim reconduzida. Damasceno obteve 1909 votos a favor, num total de 2836 eleitores (uma participação de 85,3%). Registaram-se ainda 416 votos brancos e 95 nulos.

Na CCDR de Lisboa e Vale do Tejo também houve uma recondução, a da arquiteta Teresa Almeida, afeta ao PS. Teresa Almeida obteve 1090 votos, num universo eleitoral de 1987 autarcas. O número de votantes foi de 1728 (86,9% de participação eleitoral).

No Algarve, o ex-secretário de Estado das Pescas José Apolinário (PS) vai substituir Francisco Serra. Num universo eleitoral de 483 autarcas, participaram 423 (87,5% de participação eleitoral). Apolinário obteve 290 votos a favor, 116 brancos e 17 nulos.

Falando depois com jornalistas, Apolinário disse que destas eleições "sai um sentimento de que é preciso aproveitar esta oportunidade para reabrir o 'dossiê' da regionalização e é nessa linha que vamos trabalhar".

No caso da eleição para um dos vice-presidentes, foram eleitos Beraldino Pinto, ex-autarca de Macedo de Cavaleiros (PSD), para o norte; o arquiteto José Pacheco para o Algarve; o ex-autarca Aníbal Reis Costa (PS) para o Alentejo; o geógrafo Jorge Marques de Brito, atual secretário executivo da Comunidade Intermunicipal da Região de Coimbra, para o centro; e Joaquim Sardinha, autarca em Mafra (PSD), para LVT. Todos eles eram candidatos únicos.

O executivo apresentou as eleições indiretas por um colégio de autarcas para as presidências e de um vice-presidente para cada uma das CCDR como uma tentativa de "reforçar a governação de proximidade e a legitimidade democrática a nível regional" e dar mais um passo no processo da descentralização.

Na rede social Twitter, o primeiro-ministro António Costa saudou os eleitos, lembrando que, pela primeira vez, não foram nomeados pelo governo, mas eleitos pelos autarcas das regiões.

Pelo que se percebe dos resultados, só os autarcas do PS e do PSD participaram nas votações. Os votos brancos e nulos ficam a dever-se a autarcas de outros partidos, sobretudo do PCP e do CDS.

Os comunistas, aliás, assumiram-no. Qualificando todo o processo como um "logro", o PCP disse que recusava "credibilizá-lo", pelo que os seus eleitos votariam "em branco", expressando assim "distanciamento face a este processo e afirmando a exigência de uma efetiva descentralização".

Já o BE, o CDS-PP e a Iniciativa Liberal acusaram o PS e o PSD de usarem as CCDR como meras "extensões de interesses partidários".

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