Bloco foi ver o fogo que arde há ano e meio. "Não é forma de tratar a população"

Bloco de Esquerda visitou escombreiras das antigas Minas do Pejão, que estão a arder a céu aberto desde há ano e meio na freguesia de Pedorido, em Castelo de Paiva. Populares queixam-se da informação que não lhes chega.

Chega-se à Póvoa, uma pequena povoação que se arruma ao longo das curvas da estrada 222-M, na freguesia de Pedorido, Castelo de Paiva, e já se adivinha o destino, com as nuvens de fumo que se elevam no cimo do monte: é ali o local de um fogo subterrâneo, que está em combustão há um ano meio desde os incêndios de outubro de 2017, e que traz a população em sobressalto.

Com o rio Douro lá em baixo, num antigo campo de futebol, o que resta são escombreiras de carvão das antigas Minas do Pejão, que estão a arder a céu aberto desde há ano e meio.

Desde outubro ou novembro, um ano depois de tudo começar, que, no terreno, estão máquinas que vão escavando num barranco de brasas incandescentes, que se ouvem crepitar, dois carros de bombeiros que apagam as chamas, a terra preta que se cola à retroescavadora, cuja cor é já da terra que revolve. Impressiona - e suja: as paredes e os telhados das casas acumulam as cinzas que voam, as hortaliças ficam cinzentas, ninguém sabe o que vem pelo ar. "E o cheiro, que é?", pergunta uma senhora sem esperar resposta.

Para a coordenadora do BE, Catarina Martins, diz que é insustentável a população não ser informada. "Há muitas queixas sobre a qualidade do ar e há mais de ano e meio que a população não tem nenhuma informação sobre a qualidade do ar. Não é forma de tratar a população", aponta a líder bloquista, numa visita integrada nas jornadas parlamentares do BE, que esta segunda e terça-feira se realizam no distrito de Aveiro.

Fosse um qualquer local apetecido pela "especulação imobiliária", ironiza Cataria Martins, e o problema estaria resolvido, notando que existe "uma certa negligência" na forma como a população da Póvoa tem sido tratada.

A informação sobre a qualidade do ar tem estado a ser feita, mas não é divulgada. As autoridades têm garantido que "não há um problema de saúde pública", mas nada é dito às pessoas. "Estão a assistir a isto há mais de um ano."

Para a líder do BE, há outro alerta que se estende ao país a partir deste exemplo de Castelo de Paiva. "Há mais escombreiras de minas por esse país" e o Estado desistiu de investir "para parar estas feridas" no ambiente. Catarina Martins aponta a necessidade de "investir no território" para "proteger o território".

Ao lado, os populares que acompanham a visita dos deputados vão desabafando sobre o seu dia-a-dia com um incêndio permanente, que a Empresa de Desenvolvimento Mineiro (responsável pela operação de controlo do fogo) estima estar extinto no final de abril.

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