"Vou candidatar-me a primeiro-ministro"

António Marinho e Pinto nasceu em Vila Chã do Marão, Amarante, a 10 de setembro de 1950. Advogado português, foi bastonário dos advogados de 2008 a 2013. É conhecido pela controvérsia do seu discurso acutilante. Hoje é deputado no Parlamento Europeu.

O que é que o irrita nos inquéritos de verão e saltamos já essa parte?

A certeza de que os seus autores fingem esconder que são originais nas perguntas que formulam.

O que é que nunca lhe perguntaram num inquérito de verão e começamos por aí?

A razão por que eu não desisto de responder a essas banalidades.

No livro de Italo Calvino, o Sr. Palomar olhava um seio nu na praia com imparcial objetividade. E você, de zero a dez, qual é o seu descaramento?

O meu grau de descaramento, no tempo em que o tinha, dependia sempre do que lia no rosto daquela a quem pertencesse o dito cujo.

Passa uma mulher bonita na praia, olha descaradamente ou vai buscar os óculos de sol para poder ver sem virar o pescoço?

Já não lanço olhares radicais a ninguém - com ou sem óculos de sol.

Toda a gente pergunta que livro levaria para férias, eu pergunto que livro escreveria nas férias.

As minhas paixões. Seria, de certeza, uma obra imortal.

Com tantas más notícias sobre aviões não terá escolhido má altura para estar no Parlamento Europeu?

As viagens de e para o Parlamento Europeu não são, seguramente, o que mais me custa suportar.

Ainda o escandaliza o que se ganha no Parlamento Europeu ou passou-lhe quando viu o saldo?

Na verdade, só me escandalizei quando vi o saldo porque todo esse dinheiro não se destina a remunerar com justiça o trabalho e as despesas dos deputados, mas sim a aliciá-los para desígnios políticos (muitas vezes) contrários aos interesses dos povos que os elegeram.

Um paparazzo fotografa-o nu numa praia, prefere aparecer na capa de frente ou de costas?

De perfil, pois, assim, certamente, todos os olhares se concentrariam na convexidade suave e imperfeita do meu perímetro abdominal.

Mário Henrique Leiria escreveu: uma nêspera estava sentada na cama, deitada. Muito calada a ver o que acontecia. Chegou a Velha e disse: olha uma nêspera! E zás, comeu-a. A nêspera teve o que merecia?

Não, porque nenhuma nêspera que esteja sentada numa cama merece ser comida - ainda por cima por uma pessoa que, reconhecendo-a, sinta a necessidade de verbalizar que ela é uma nêspera.

Vai a uma praia mas está cheia de concorrentes da Casa dos Segredos, muda de praia ou fica para ver se estão domesticados?

Fujo para a montanha mais distante.

De zero a dez quanto é que encolhe a barriga na praia?

Zero.

Bola-de-berlim, com creme e que se lixe a ASAE ou com creme e que se lixe a linha?

Se é bola, ainda por cima de Berlim, tem de ter muito e bom creme na fenda. Quanto ao resto, que se lixem a ASAE, a linha e quem as apoiar.

A família do chapéu ao lado do seu não se cala com as histórias da novela da noite. Fica a ouvir ou muda de país?

Meto conversa para alterar a ordem de trabalhos.

Atende o telefone na praia e toda a gente fica a saber da sua vida ou consegue falar num tom normal?

Nunca levo telefone para a praia.

Costuma levar revistas cor-de-rosa para a praia ou escolhe outra cor?

Na praia só leio o que o vento escreve na superfície do mar.

Vamos a contas, de zero a BES quanto costuma exagerar nos gastos das férias?

Já não sou exagerado em gastos, sobretudo nas férias.

Nas férias preferia confiar as suas poupanças a um bancário ou a um banqueiro?

Já não confio as minhas poupanças a essa gente.

O seu dinheiro está melhor off-shore ou on-shore?

No meu bolso, indubitavelmente.

É barrado à porta da discoteca. Chama o gerente ou solta o clássico: você sabe quem eu sou?

Uma das razões por que deixei de ir a discotecas é porque não suporto o ar de preboste dos seus porteiros.

É dos que querem estacionar o carro dentro da praia ou aceita bem o facto de ter chegado tarde e ter de estacionar lá atrás como os outros.

Arrisco sempre o lugar mais próximo de mim.

Depois dos resultados que teve nas últimas eleições vai candidatar-se a mais alguma coisa, ou o condomínio já tem administrador?

Nas próximas eleições legislativas vou candidatar-me ao cargo de primeiro-ministro de Portugal.

Que orçamento seria preciso para levar a jantar todas as inimizades que arranjou como bastonário?

Não sei, mas seria, garantidamente, muito inferior ao necessário para levar a jantar todas as novas amizades que criei durante esse período.

Se um deputado não adormecer em pleno Parlamento Europeu, são-lhe pagas essas oito horas pelo mesmo valor?

Sim. E se adormecer também.

Se lhe perguntar o que já fez como deputado tem alguma coisa para dizer ou voltamos a falar daqui a quatro anos?

Não, falamos já. Participei em cerca de duas dezenas de reuniões, cuja genuína utilidade é impedir-me de dizer que ainda não fiz absolutamente nada.

Se houvesse uma farda para políticos e outra para banqueiros, qual teria de ter os bolsos maiores?

Pergunte ao diabo, só ele o sabe.

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