"Tenho VIH." Chegou ao fim o silêncio forçado de Sheen

"Eu consumia muitas drogas. Andava a beber demasiado e a tomar muitas decisões erradas".

"Estou aqui para admitir que sou VIH positivo." Numa curta e incómoda entrevista a Matt Lauer, pivô do programa da NBC Today, Charlie Sheen desfez a dúvida que pairava no ar (e em Hollywood) há duas semanas: quem seria o ator com VIH? Uma reportagem, publicada pelo site Radar Online, adiantava que um muito mediático ator norte-americano, conhecido por ser "mulherengo" e por consumir drogas, era seropositivo. A especulação terminou ontem. "Tenho de pôr um ponto final a estes ataques, a estas meias verdades, a todas estas histórias difamatórias que estão a ameaçar a vida de outras pessoas", começou por explicar um muito pálido e trémulo Charlie Sheen. Uma miragem daquele miúdo com ar rebelde que, com apenas 21 anos, tinha honras de protagonista em Platoon, um dos filmes da trilogia sobre a guerra no Vietname realizada por Oliver Stone.

A carreira de Charlie Sheen (filho do também ator Martin Sheen e da atriz e produtora Janet Templeton), recheada de êxitos ao longo de três décadas, conheceu um final abrupto em 2011. Sheen, que era então estrela da série da CBS Dois Homens e Meio (que foi exibida entre nós na RTP 2) e que chegou a ser considerado pela revista Forbes o ator de televisão mais bem pago do mundo (recebia 1,8 milhões de euros por episódio), foi despedido na sequência de afirmações públicas difamatórias sobre o criador da série, Chuck Lorre. Seguiu-se uma épica batalha legal com a Warner Bros que terminou em setembro desse ano com um acordo amigável entre as partes envolvidas. Sheen pedia cem milhões de dólares (94 milhões de euros) aos estúdios da Warner Bros. O valor do acordo nunca foi oficialmente revelado, mas, na altura, o Los Angeles Times noticiava que o ator teria recebido 25 milhões de dólares (24 milhões de euros).

Em paralelo ao descalabro profissional são inúmeros os episódios de excessos: consumo de álcool, drogas, internamentos em clínicas de reabilitação e o fascínio quase doentio com pornografia e o recurso a prostitutas. Na entrevista concedida a Matt Lauer, o ator fez questão de referir que informou todos os seus parceiros sexuais do seu estado de saúde. "Eu consumia muitas drogas. Andava a beber demasiado e a tomar muitas decisões erradas", explicou Sheen no Today, referindo-se ao período em que descobriu ser seropositivo, "há cerca de quatro anos".

Apesar de desempregado e dos problemas de saúde, Charlie Sheen continua a ser milionário. Aliás, na entrevista concedida a Matt Lauer, o ator revela que pagou valores "na ordem dos milhões" para silenciar pessoas próximas que, ao longo de quatro anos, o chantagearam, ameaçando revelar publicamente a sua doença. "É dinheiro que tiram dos meus filhos", confessou Sheen, que é pai de Cassandra (de quem tem uma neta, Luna, de 2 anos), Sam, Lola, Bob e Max. O ator foi casado três vezes, esteve noivo mais uma. Os casamentos com Denise Richards e Brooke Mueller terminaram da mesma forma: com uma longa batalha legal pela custódia dos filhos e com acusações das companheiras de abuso de drogas e violência doméstica.

Pai ativo no combate à doença

Ironicamente, o seu pai, Martin Sheen, tem sido, ao longo de quase três décadas, um dos mais fervorosos ativistas para a sensibilização do combate ao vírus VIH. O ator foi protagonista de The Normal Heart, peça de teatro baseada na história de Ned Weeks, fundador de um dos mais influentes movimentos de defesa dos direitos LGBT. A peça passa-se no início dos anos 1980, quando foi feita a descoberta do vírus e começaram a surgir as primeiras pessoas infetadas.

Até à hora de fecho desta edição, Martin Sheen ainda não se tinha pronunciado publicamente sobre a revelação feita pelo filho. No entanto, em 2011, quando do auge dos problemas emocionais e profissionais de Charlie Sheen, o ator de 75 anos disse sentir-se "impotente" perante a situação. "Tentamos fazer o melhor que podemos. É preciso que percebam que há muitos aspetos que o público desconhece", dizia Martin Sheen, em declarações à Radio Times.

Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde, no final de 2014 existiam aproximadamente 36,9 milhões de pessoas em todo o mundo portadoras do vírus VIH. Morreram, em 2014, cerca de dois milhões de pessoas de complicações relacionadas com o vírus. Nos EUA, de acordo com o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (entidade governamental que pertence ao Departamento de Saúde e Serviços Humanos), no final de 2012 existiam cerca de 1,2 milhões de norte-americanos com o vírus VIH, 12,8% dos quais desconheciam ser portadores da doença. O Programa das Nações Unidas VIH/sida (ONUSIDA) prevê que Portugal terá entre 0,6 e 0,7% da população infetada, o que significa que 65 a 70 mil pessoas vivem com a doença. Os dados são de 2014.

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