Filho não desejado, prostituto, ladrão. Assim é Depardieu

Ator faz uma verdadeira descida ao inferno para contar a história da sua vida. Um discurso duro e sem filtro no livro 'Ca s'est fait comme ça'.

Ça s"est fait comme ça. Assim aconteceu. A frase que o ator escolheu para título da sua biografia não engana. Quem a ler não se sentirá defraudado.

Pelo contrário. Aqui vai encontrar palavras duras, diretas, num discurso sem rodeios e onde os factos são relatados com uma crueza a que não se está habituado, especialmente quando os nomes que surgem nas capas dos livros nos remetem para o mundo do espectáculo.

São 170 páginas de vida real. Nua e crua, como é a vida de um ser humano. "É uma confissão. Um testemunho escrito com uma franqueza incrível", afirmou Gilles Bouleau, jornalista da TF1. No mesmo tom, escreveu Pierre Vavasseur, editor de cultura do jornal Le Parisien: "É um inventário sem arrependimentos, nem remorsos."

Os episódios relatados na obra foram escritos por Gérard Depardieu com a ajuda do jornalista e escritor Lionel Duroy.

"Sobrevivi às agulhas de tricotar da minha mãe. Não deveria ter nascido. Sou um sobrevivente", conta Depardieu.

A vida errante e livre de Depardieu começou cedo. Aos 10 anos já vagueava sozinho pelas ruas de Châteauroux, cidade do centro da França, e, por estas altura, o ator diz que os seus "pais" eram os gendarmes.

A adolescência continuou conturbada e vivida de expedientes para arranjar dinheiro. Cedo percebeu que atraía os homossexuais. "Dei-me conta que os homossexuais gostavam do meu corpo. Percebi que prostituindo-me ganhava dinheiro", conta.

Aos 16 anos esteve três semanas numa cela por ter roubado um carro. Não o impediu de continuar a roubar. Depardieu desfia os vários esquemas que mantinha para ter dinheiro: assaltava campas para roubar joias e sapatos dos mortos, roubava os clientes sexuais e durante o Maio de 68 (já com 20 anos) assaltava os estudantes que dormiam na rua durante as manifestações.

O espírito solto e independente levam-no a ser politicamente incorreto. Um registo de que se orgulha. Apregoa a sua amizade com Vladimir Putin e admiração por Fidel Castro. "São gente de nível, restam poucos como eles", vinca. Putin, diz, "gostou logo do meu lado arruaceiro".

As únicas palavras de arrependimento surgem quando fala do filho, Guillaume, que morreu em 2008 com 37 anos, depois de uma vida problemática e com passagens pela prisão. "Não fui capaz de responder às chamadas de atenção e ao sofrimento do Guillaume. Levei muito tempo até me tornar um pai."

"Ça s"est fait comme ça"

Gérard Depardieu

Autobiografia

176 páginas

16,90 euros

Editora: XO

À venda nas livrarias digitais

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'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?