Maria Clara: "Para mim, Kendall Jenner e Gigi Hadid não são modelos"

Tem apenas 19 anos mas acaba de fazer 37 desfiles nas principais semanas da moda mundiais. Depois de Nova Iorque, Londres, Milão e Paris, Maria Clara Vasconcelos volta hoje a pisar a passerelle da Moda Lisboa

37 desfiles depois... como é que se sente?
É engraçado porque toda a gente acha que eu devia ter um ar mais cansado (risos)! Diverti-me imenso, acima de tudo. É aquela máxima do "quem corre por gosto não cansa". Tive dias muito cansativos mas valeu tudo a pena.

Qual foi o desfile mais especial?
Gucci, sem dúvida! Tenho uma relação cada vez mais próxima com o designer [ Alessandro Michele] e consigo entender o mundo dele. Aquele homem é um génio! A roupa podia facilmente cair no ridículo, de tanta combinação de padrões, mas ele consegue encontrar uma linha muito fina, que nunca ultrapassa. Eles tratam-nos muito bem, como pessoas e não simplesmente como manequins que vestem roupa. Já começo a ter uma ligação familiar com eles.

Isso nem sempre acontece?
Sim, principalmente em fases de castings. Tem que se ter um bom poder mental para aguentar muita coisa porque, se for necessário, chegamos a experimentar a roupa e depois não fazemos o desfile. Custa, mas temos de arranjar forma de nos desligarmos ao ponto de ultrapassar isso. Eles querem é ver qual é a pessoa melhor que fica na roupa, não é nada pessoal. E até pode nem ser pela forma de andar. Em desfiles, o andar pode não interessar. Daí vermos pessoas que, peço imensa desculpa, mas não sabem andar, ou têm dificuldade com os saltos, ou o que for. Ou é pelo look geral ou porque têm contatos com as agências... há muita corrupção no meio, como em tudo.

A competição acontece mais entre manequins ou entre agências?
Entre agências, sem dúvida. Sou amiga de muitas manequins de outras agências.Cada vez que ou eu ou elas conseguimos algo, ficamos genuinamente felizes umas pelas outras porque sabemos o quão duro foi conseguir o trabalho. Passamos muito tempo juntas que chegamos a ter uma relação bastante pessoal. Tenho tido sorte porque as pessoas com quem me dou são genuínas e sinceras nos seus sentimentos.

Casas como a Chanel ou a Lanvin têm apostado em celebridades das redes sociais, como Kendall Jenner e Gigi Hadid, nos seus desfiles e campanhas...
Para mim, não são modelos.

Cria uma situação de concorrência desleal?
É, acima de tudo, injusto para quem trabalha, é mesmo modelo, e passa por todo o processo de seleção até conseguir uma campanha ou um desfile. De certa forma, é até desrespeitoso, tanto para as agências como para as modelos. Vão buscar pessoas que, só por terem seguidores nas rede sociais (que, se for necessário, até são comprados), ganham logo uma campanha mundial, como aconteceu com a Calvin Klein. E nem sempre são pessoas que têm a ver com a marca. Quando vejo esse tipo de coisas a acontecer mesmo à minha frente, não posso fazer nada mas sinto-me triste pelo facto da indústria estar a seguir esse rumo. Sinto que cada vez é pior.

Acha que é uma espécie de desespero, porque há cada vez mais concorrência?
Sinceramente, há marcas que nem precisam disso. Em castings, às vezes pedem-nos o nosso Instagram e número de seguidores, coisa que eu abomino.

Para quê?
Não sei. Deveriam olhar para o book da pessoa, para o trabalho construído e não para o número de seguidores.

Isso tem um peso importante?
Depende das cidades. Los Angeles, por exemplo, está completamente influenciada por isso. Tem um peso bastante importante, daí tanta gente comprar seguidores.

Na semana da moda de Londres, no desfile da Versace, voltou a falar-se da questão da magreza das manequins. Considera que devem existir padrões e regras, como existe já em França, através da lei aprovada no final do ano passado?
Poderia haver mais controlo em casos extremos. Tenho várias colegas que são saudáveis e que comem normalmente. Obviamente que há casos, que não cheguei a presenciar, mas que soube, de miúdas que desmaiam nos bastidores, ou por pressão da agência ou por não ter tempo, ou mesmo por já estarem doentes... não sei. Acho que os parâmetros deviam ser mais controlados embora sinta que lá fora eles têm muita atenção em terem caterings para as modelos poderem comer e outro tipo de preocupações. Eu nunca fui maltratada, por isso não me posso queixar.

Em Portugal, o seu nome não é tão conhecido como o de Sara Sampaio, que faz trabalhos mais comerciais. É um caminho que gostaria de explorar?
Eu tenho sorte porque tenho conseguido fazer um bocado dos dois. Dependendo da maquilhagem, das luzes, consigo ter uma cara mais comercial ou mais editorial. Não me importo de explorar o lado comercial mas tenho uma paixão pelo lado editorial que não consigo explicar.

Mas no lado comercial ganha-se mais dinheiro...
Sim. Depende dos clientes mas, por norma, comercial paga mais porque dá mais exposição, o que implica direitos de imagem.

Quando começa a sua paixão pela moda?
Desde sempre (risos)! Comecei a fazer campanhas aos três anos. Pelo que a minha mãe conta, fui descoberta por um scouter na praia, que achou que eu era uma bebé bonita e que reunia um conjunto de características que a agência gostou. Nunca tive vergonha da câmara porque o meu pai [o jornalista da RTP Henrique Vasconcellos] sempre me tirou muitas fotografias. Fui fazendo trabalhos em criança e, aos 15 anos, participei no concurso L"Agence Go Top Model e ganhei. A partir daí, as agências internacionais começaram a demonstrar interesse e fiquei na Next.

Terminar esta temporada na Moda Lisboa é a cereja no topo do bolo?
Sem dúvida! Aqui estou em casa e é super relaxante! Não há castings, não há stress, não há provas às duas da manhã...Estou em família, a trabalhar com amigos, durmo em casa, os meus pais podem ver os desfiles.