"O Ricardo Araújo Pereira é o meu ídolo. Não há humorista como ele"

Gregório Duvivier é conhecido por ser um dos protagonistas da Porta dos Fundos. Está em Portugal a apresentar Caviar É Uma Ova

Ser ator, guionista, cronista e escritor era algo que pensava alcançar antes dos 30 anos?

Não. Nunca achei que fosse ser outras coisas. Eu era ator, adorava fazer isso, e foi por acaso que comecei a escrever. Comecei porque precisava de encenar textos. Depois, chamaram-me para escrever na Folha [de S. Paulo]. Foi tudo porque me foram chamando. Nada foi planeado.

A peça Uma Noite na Lua [cuja digressão portuguesa arranca amanhã no Teatro Micaelense, em São Miguel, Açores] fala de um homem com uma crise de criatividade. É algo que já o afetou?

A peça fala sobre bloqueio criativo, que é uma coisa que sinto todas as semanas. Diariamente. Há sempre as saídas, os truques - como, por exemplo, falar do facto de não ter ideias. É o truque mais básico [risos]. Outro truque é ir à gaveta - metafórica, porque hoje está tudo num computador - onde tenho vários trechos incompletos. A maioria são porcaria porque nunca deram em nada. Mas, se espremer, sai sempre alguma coisa.

Lançou ontem Caviar É Uma Ova, livro que compila as suas crónicas na Folha de São Paulo. Porque é que escolheu Ricardo Araújo Pereira para escrever o prefácio?

O Ricardo é o meu ídolo aqui em Portugal e no Brasil também. Não há um humorista como ele hoje em dia. É um cara sempre pertinente, inteligente e, acima de tudo, hilariante. Ele escreve de forma hilariante, o que é difícil porque o humor perde-se no papel.

Como descreve a experiência de ser opinion maker num jornal como A Folha de S. Paulo?

É muito difícil. Quando se escreve para um jornal como a Folha, aquilo toma uma dimensão gigante. Ainda mais num jornal como a Folha, o maior do Brasil em termos de tiragem. Atinge muita gente e a raiva de muita gente. Ainda mais atualmente, em que o clima é de ódio.

Em que sentido?

O Brasil está muito bipartido. Essa é a minha leitura: tem um governo que é horrível e tem uma oposição que é muito pior.

Tão semelhante a Portugal...

Exatamente! Eu tenho a ideia de que, embora a situação aqui em Portugal seja semelhante, é menos grave, talvez, votar num ou noutro. Um lado, no Brasil, não suporta a ideia de que a pessoa vote no outro! Há famílias que se separam! Porque um lado acha que o outro é criminoso. A oposição acha que o governo é ladrão e corrupto - e realmente é - e o governo e as pessoas que acham que o PT não é a pior coisa do mundo acha que a oposição é a pior coisa do mundo! Quando estive no Governo Sombra [programa da TVI 24] disse que achava que queriam tirar a Dilma do governo para roubar mais. No Brasil disseram que eu tinha vindo a Portugal com dinheiro público!

Utilizou a frase "tirar Dilma do governo é como limpar o chão com bosta".

No Brasil, se nos colocamos de um lado, já acham que vamos endossar tudo o que esse lado faz. Eu não endosso nada do que o PT diz. Acho uma porcaria. Acho, inclusive, que o governo deles é de direita. O grande problema de Dilma é esse: a esquerda acha que ela é de direita e a direita acha que ela é de esquerda. Por isso é que a taxa de desaprovação dela é tão alta.

Lê a caixa de comentários?

Não leio! Confio muito nos meus amigos, conversamos muito. Não estou fechado a opiniões discordantes. Na Porta dos Fundos, cada um acha uma coisa, temos visões completamente diferentes do mundo. Acho isso muito bom. Agora, comentários odiosos? Pessoas xingando? Isso é muito infrutífero.

Acompanhou as eleições legislativas portuguesas? Qual é a sua visão?

Acho que tem um grande potencial de mudança com a subida de partidos como o Bloco de Esquerda. Alguma coisa está a acontecer, como aconteceu em Espanha e na Grécia. Portugal está neste dilema: unir a esquerda não será perder a característica da esquerda? Ou não? Falta coragem, como sempre falta. Pelo que ouvi, é difícil que haja uma união da esquerda. Mas seria bonito que houvesse, finalmente, uma esquerda unida em Portugal.

O Grande Gonzalez, a primeira série televisiva da Porta dos Fundos, estreia-se a 2 de novembro na Fox Brasil. Está nervoso para saber a opinião dos telespectadores?

Estou muito curioso, porque é uma coisa muito louca o que estamos a fazer. É a nossa primeira série longa, tem dez episódios.

O conceito é semelhante ao dos vídeos da Porta dos Fundos?

O Grande Gonzalez é uma brincadeira com o género policial. Vai beber um pouco às sátiras policiais, como o Scooby Doo, até aos mais sérios, como os livros de Agatha Christie. Há vários suspeitos e todos podem ter matado o Gonzalez. Cada episódio é a versão de um suspeito e isso corresponde a narrativas diferentes. Cada um conta uma história. Foi muito divertido de filmar e estou muito curioso.

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