O longo braço dos Horta e Costa

Descendentes do barão de Santa Comba Dão, os Horta e Costa  deixaram a vida na província para se dedicarem à gestão de empresas. Hoje,  a sua influência faz-se sentir nas mais importantes áreas de negócios

Para a maioria dos portugueses o Vimieiro, pequena aldeia de Santa Comba Dão, evoca, primeiro que tudo, Salazar. O presidente do Governo que marcou o País de forma irreversível deixou Santa Comba, como é simplesmente conhecida, para sempre ligada ao seu nome.

É difícil imaginá-lo ainda criança de fraldas a balbuciar parcas palavras. Filho de pais pobres, António Oliveira Salazar aprendeu as primeiras letras com a governanta do senhor mais poderoso das redondezas: o barão de Santa Comba Dão - Miguel Horta e Costa de Almeida e Vasconcelos. As ligações entre as duas famílias não eram de amizade mas de trabalho - pequeno agricultor, António Salazar trabalhou durante anos as terras do barão.

Imponente solar ancestral dos Horta e Costa, a Casa dos Arcos, em Santa Comba Dão, já na altura arrastava uma longa lista de convidados ilustres. Em 1692 a casa foi visitada pela rainha Catarina de Inglaterra. Em 1704, por D Pedro II e em 1738 pelo infante D. Manuel. Foi só quase um século mais tarde que o rei D. João VI criou o título de barão de Santa Comba Dão a favor de José Maria de Sousa de Macedo de Almeida de Vasconcelos, fidalgo da casa real, governador de Angola, comendador da Ordem de Cristo, cuja descendência viria a originar duas famílias que hoje marcam a sociedade portuguesa e o andamento dos negócios nacionais: os Horta e Costa e os Horta Osório.

O pergaminho viajou no tempo, ultrapassou crises, conflitos e guerras, a Primeira República e a ditadura e, mesmo quando não havia varão a quem passar o título nobiliárquico, os Horta e Costa arranjaram maneira de fazer o baronato subsistir. Em 2003, Miguel Horta e Costa, antigo presidente da PT, resolveu fazer jus às suas boas relações com D. Duarte e conseguiu que este lhe concedesse a possibilidade de usar o título, apesar do conselho da nobreza - órgão que delibera sobre estes temas - estivesse extinto há anos. Na altura, o jornal Expresso escreveu em primeira página as razões que levaram D. Duarte a distinguir o gestor: "Um caso de excepção, atendendo aos seus méritos e à sua tradição familiar." Os monárquicos mais puristas e tradicionalistas não gostaram da "excepção", mas o gestor que usa sempre lenço no bolso do casaco a condizer com a gravata, blazer traçado com grandes botões dourados aceitou com gosto a distinção. O último Horta e Costa a usar o título - que não é herdado automaticamente e tem de ser renovado pelo conselho de nobreza ou órgão análogo - foi Miguel Jorge Fleming Horta e Costa, 5.º barão de Santa Comba Dão, pai de Miguel (consultor da ESCOM), Luís (administrador da ESCOM) e Rui Horta e Costa (presidente da Astérion).

Descontente com a vida na província, no final da década de 60, Miguel Jorge Horta e Costa (5.º barão) decidiu rumar a Lisboa para pôr em prática os seus conhecimentos de gestor. Sem o saber, com o seu profissionalismo, influenciou gerações que o seguiram. Foi o braço-direito de Manuel Ricardo Espírito Santo e a pessoa responsável pela administração da Mocar e da Santomar durante os tempos agitados do pós-25 de Abril. Os Espírito Santo tinham tanta confiança nele que na altura lhe passaram uma procuração com poderes ilimitados. À revista Exame de Dezembro de 2003, o barão, que morreu em 2006, disse a propósito do seu papel durante o Verão quente de 75: "Não acredito naqueles que só herdam. A família reagiu sempre às adversidades com trabalho. Após as guerras liberais, a implantação da República e o 25 de Abril." Tinha razão. Herdeiros unicamente do seu bom nome, sem empresas familiares ou fortunas para desbaratar, os Horta e Costa serviram-se de uma invejável rede de bons contactos e especializaram-se em administrar as empresas dos outros.

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