O antigo espião israelita que fez renascer Iñárritu e DiCaprio

Foi do gabinete de Relações Científicas de Israel, gestor de uma fábrica de fertilizantes, tirou economia e jogou futebol. A vida do produtor de "O Renascido" faz sucesso em Hollywood há 30 anos

A sua vida podia servir de argumento a uma daquelas grandes obras que chegam às salas de cinema. Se Steven Spielberg, Martin Scorsese, Oliver Stone ou qualquer um dos outros realizadores maiores de Hollywood quisesse contá-la em película, a sua história não iria ficar reduzida à do homem que passou o cheque de 135 milhões de dólares para que Alejandro González Iñárritu realizasse e Leonardo DiCaprio protagonizasse O Renascido, nomeado para vários Óscares. O fio condutor de um guião sobre Arnon Milchan teria de recuar aos anos de 1960 e passar pelo antigo gabinete de Relações Científicas de Israel, pela fábrica de fertilizantes que herdou do pai, pelo curso de Economia na Universidade de Londres, pelo relvado onde se entregou à paixão pelo futebol. E ainda por vários blockbusters e pela relação de Brad Pitt e Angelina Jolie.

Com uma fortuna que a revista Forbes avalia em 4,9 mil milhões de dólares, a influência deste israelita de 71 anos é visível se se tiver em conta a maioria dos filmes que produziu desde que entrou no mercado cinematográfico, em 1977, quando foi apresentado a Elliot Kastner. 12 Anos Escravo, Marley & Eu, Clube de Combate, A Armadilha, A Cidade dos Anjos, O Advogado do Diabo, Cópia Mortal, JFK ou Pretty Woman: Um Sonho de Mulher estão entre os 130 títulos que têm a sua impressão digital. Tal como Mr. e Mrs. Smith, que produziu em 2005 e durante o qual terá "promovido" a relação entre Brad Pitt e Angelina Jolie. Contam Meir Doron e Joseph Gelman, autores da sua biografia não autorizada, Confidential: The Life of Secret Agent Turned Hollywood Icon Arnon Milchan, que quando Pitt traiu Jennifer Aniston e esta o expulsou de casa, o produtor terá acolhido o ator na sua residência em Malibu. E terá sido nesta que Angelina Jolie se encontrava com ele antes de assumirem publicamente o namoro.

A vida de Milchan poderia também ser contada numa versão biográfica romântica. Mas seria preciso recuar a 1944, à cidade israelita de Rehovot, a cerca de 20 quilómetros de Telavive, onde nasceu e cresceu. O pai, proprietário de uma fábrica de fertilizantes, morreu subitamente e deixou-lhe o negócio, que, aos 21 anos, acabaria por se tornar num gestor de sucesso. Nessa altura, conquistou a modelo Brigitte Genmaire, com quem se casou em 1966 e de quem teve uma filha, Alexandra, atualmente também produtora cinematográfica. Acabaria por se divorciar em 1975, para se voltar a apaixonar mais tarde - desta vez, foi uma tenista sul-africana, Amanda Coetzer, que fez derreter o coração do magnata. Estão casados desde 2007.

Estas mulheres serão as herdeiras do seu império, a produtora New Regency, fundada em 1991. Milchan, amigo de longa data de Robert de Niro, é ainda dono de um canal norte-americano que emite programação para os israelitas que vivem nos EUA, detém participações no Channel 10 do seu país e na Puma, linha de calçado e têxtil desportivo.

"Fui eu que o recrutei", disse Peres

"Calcula o que é ter vinte e poucos anos e o vosso país deixar-vos ser o James Bond? A ação! Isto é que era excitante", contou o produtor em 2013, quando desfez os rumores que circulavam há anos em Hollywood e que o davam como espião ao serviço de Israel. Trabalhava desde os anos 1960 para o Lekem, o extinto (em 1986) gabinete de Relações Científicas ligado ao programa nuclear de Israel. Fê-lo pelo seu país e sentiu-se sempre. "orgulhoso disso", afirmou durante o programa Uvda, da TV israelita. O seu papel era o de supervisor da compra de armamento e de componentes para o programa nuclear.

Na biografia publicada por Meir Doron e Joseph Gelman, Shimon Peres já tinha explicado que a "culpa" da passagem de Milchan por essa organização tinha sido sua. "Ele é um homem especial. Fui eu que o recrutei (...). As suas atividades deram-nos uma enorme vantagem, estratégica, diplomática e tecnologicamente falando", disse o então presidente de Israel.

De acordo com Ilana Dayan, a jornalista que investigou a sua vida para o Uvda, Arnon nunca duvidou das funções que queria desempenhar para o Estado de Israel, mesmo quando era acusado, lá para os lados de Hollywood, de ser um vendedor de armas. "Não vendo pistolas, não vendo mísseis. Se as pessoas soubessem quantas vezes arrisquei a minha vida, para cá e para lá, pelo meu país...", desabafou o próprio.

E enquanto não produz um filme, este de espionagem, sobre as suas (pelo menos) duas vidas, Milchan permanecerá como um dos heróis de Iñárritu, vencedor do Globo de Ouro para Melhor Realizador de 2015 por O Renascido. "Ele acreditou e não vacilou, nem quando foi preciso tomar decisões difíceis", disse o cineasta no discurso de agradecimento. E quem sabe se não é esta mesma produção que fará que DiCaprio leve para casa, em fevereiro e ao final de seis nomeações, um desejado Óscar.

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