"Calções de banho normais, mas vou pensar no cabedal"

José Pedro Amaro dos Santos Reis, mais conhecido como Zé Pedro, nasceu a 13 de setembro de 1956,e é fundador e guitarrista dos Xutos & Pontapés. Foi através de um anúncio no jornal que o conseguiu: "Baterista e baixista precisam-se para grupo punk"2 . Apesar de ser o guitarrista ritmo da banda, é considerado um ícone para o rock português e é compositor de alguns dos clássicos dos Xutos, como Submissão e Não Sou o Único. Zé Pedro é conhecido pela sua enorme alegria.

O que é que te irrita nos inquéritos de verão e saltamos já essa parte?

O que me irrita é quererem saber sempre onde estou a passar as minhas férias. Normalmente recorro à camuflagem.

No livro de Italo Calvino, o senhor Palomar olhava um seio nu na praia com imparcial objetividade. E tu, de zero a dez, qual é o teu descaramento?

Olho sempre, nem que seja para tirar a minha conclusão em relação à qualidade do seio. Não é uma coisa que seja normal, claro que uma pessoa olha para dar a sua classificação.

Passa uma mulher bonita na praia, olhas descaradamente ou vais buscar os óculos de sol para poder ver sem virar o pescoço?

Não os ponho de propósito para ver. Normalmente na praia estou sempre de óculos de sol.

Toda a gente pergunta que livro levarias para férias e eu pergunto que livro escreverias nas férias?

Estão sempre a perguntar-me quando é que escrevo as minhas memórias, se calhar seria uma boa altura para resumir algumas delas e ganhar coragem para escrever um livro.

Isso dá quantos volumes?

Não sei.

Ainda te lembras de tudo?

Não me lembro de tudo. Tenho aqui uns buracos, mas tenho boa memória e lembro-me de algumas coisas vagamente, mas lembro-me do essencial e posso sempre recorrer a alguns amigos que ajudam.

Com tantas más notícias sobre aviões, quero saber: ficas cá ou és corajoso?

Sou corajoso e por causa dos concertos tenho de ir a sítios onde só vamos de avião. Neste ano não marquei férias onde precise de andar de avião, mas não ia desmarcar por causa dos acidentes. Já aconteceram várias, pelas estatísticas, as probabilidades são mais reduzidas.

Um paparazzo fotografa-te nu numa praia, preferes aparecer na capa de frente ou de costas?

Eu espero que ninguém me fotografe, até porque não ando nu na praia. Era preciso ter muita pontaria, e nesse caso ele que escolhesse, até porque não iria ser consultado, portanto, ficava ao critério do fotógrafo. Ao menos que escolhesse o melhor ângulo. É o que eu peço.

Mário Henrique Leiria escreveu: Uma nêspera estava deitada na cama. Muito calada a ver o que acontecia. Chegou a Velha e disse: olha uma nêspera! E zás, comeu-a. A nêspera teve o que merecia?

Eu acho que teve, estava ali a fazer--se... se calhar, o que a nêspera queria era ser comida.

Vais a uma praia mas está cheia de concorrentes da Casa dos Segredos, mudas de praia ou ficas para ver se estão domesticados?

Se me estiverem a incomodar, mudo-me. É esse o lema, quem está mal, muda-se. Mas a não ser que estivesse a fazer alguma atividade que me chocasse, o mais certo era nem sabem que eram. Eu nem os reconheço se passar por eles.

De zero a dez, quanto é que encolhes a barriga na praia?

Normalmente não me lembro de encolher. A não ser quando a malta pede para tirar uma fotografia. Aí, penso: deixa lá encolher um nadinha a barriga. Talvez uns cinco.

Bola-de-berlim com creme e que se lixe a ASAE, ou com creme e que se lixe a linha?

Eu evito porque sou diabético. Mas, se tivesse de escolher, seria com creme.

Atendes o telefone na praia e toda a gente fica a saber da tua vida, ou consegues falar num tom normal?

Nunca levo o telefone para praia, é raríssimo. A não ser que precise de atender alguma urgência.

A família do chapéu ao lado do teu não se cala com as histórias da novela da noite. Ficas a ouvir ou mudas de país?

Eu confesso que vejo novelas. Escolho uma de eleição e é a que sigo, portanto, se estiverem a falar da novela que sigo e de um episódio que não tenha visto, fico para ouvir.

Costumas levar revistas cor-de-rosa para a praia ou escolhes outra cor?

Normalmente levo as minhas revistas de música. Compro duas ou três e aproveito para ler na praia. Se tiver revistas cor-de-rosa, gosto de ler os títulos. Fico logo atualizado. Uma pessoa tem de saber o que se passa, senão está numa conversa e nem sabe quem se divorciou de quem [risos].

Vamos a contas, de zero a BES, quanto costumas exagerar nos gastos das férias?

Não consigo gastar um BES em toda a minha vida. Fico surpreendido com esses números por atingirem tal nível. Na minha vida já fui mais gastador, hoje, compro o essencial. Se vejo uma roupa de que goste, compro. Se vejo um restaurante na Time Out onde gostasse de ir, vou. Se vir um hotel onde gostasse de ir com a minha mulher, sou capaz de marcar. Felizmente, nessas coisas não tenho de olhar a preços, mas sou comedido nos gastos.

Nas férias, preferias confiar as tuas poupanças a um bancário ou a um banqueiro?

Talvez a um bancário, que me dava mais segurança. O banqueiro era capaz de dizer: "Não te preocupes" e depois ficava com ele.

O teu dinheiro está melhor offshore ou onshore?

Não tenho suficiente para ter offshore. O mais certo era eles dizerem: "Só isso. Guarde aí em casa."

És barrado à porta da discoteca. Chamas o gerente ou soltas o clássico "você sabe que eu sou o Zé Pedro dos Xutos"?

Se fosse barrado ia-me embora. Mas se não me conhecem é porque a discoteca não vale a pena [risos].

És dos que querem estacionar o carro dentro da praia ou aceitas o facto de teres chegado tarde e teres de estacionar lá atrás como os outros.

Felizmente onde passo férias não tenho de ir de carro para a praia. Mas claro que estacionar ao pé da praia é sempre melhor, mas não faço birra por ter de andar mais tempo a pé. Tivesse acordado mais cedo.

Roqueiro que é roqueiro veste calções de banho de cabedal?

Não! Visto calções normais, mas vou pensar na situação do cabedal. Ou se calhar não, prefiro passar despercebido na praia, é mais eficaz.

Se encontrasses o Zé Pedro de há 30 anos, o que é que lhe dizias?

Se encontrasse o Zé Pedro dizia: He pá! Ganda pinta! Vais longe, tu!

Há alguma terra neste país onde os Xutos nunca tenham tocado?

Deve haver, mas eu desconheço.

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