Ator libanês sobrevivente do conflito com Israel no Eros Porto 2018

Em 2015 emigrou para a Holanda onde se tornou Mestre em Géneros Sexuais e Etnicidade, acabando a entrada na indústria da pornografia por acontecer sem acaso.

Um ator pornográfico que nasceu no Líbano numa família liberal, no final da guerra civil que devastou o país, sobreviveu em 2006 às bombas no conflito com Israel e é uma das atrações do Eros Porto 2018.

Jesse Charif, nome artístico, não é conhecido no seu país, de raiz muçulmana, e garante que circula incógnito nas ruas da cidade onde nasceu, numa Beirute onde a comunidade homossexual, contou à Lusa, começa a tentar sair "da bolha em que vive."

Tendo crescido numa família de pensamento liberal num país islâmico, o facto de pertencer à seita drusa - religião que não tentou reformar o Islão mas criou um novo corpo religioso, influenciado pela filosofia grega, a gnose e o cristianismo - ajudou-o a avançar nas suas convicções sexuais.

Em 2015 emigrou para a Holanda onde, em Utrecht, se tornou Mestre em Géneros Sexuais e Etnicidade, acabando a entrada na indústria da pornografia por acontecer sem acaso.

"Há dois anos fiz o primeiro filme, mas isso nem fazia parte dos meus planos, já que a ideia era seguir a vida académica e, entre outras coisas, ser investigador", disse Charif, acrescentando "nunca ter pensado" em seguir a "carreira de ator".

Reconhecendo "a impossibilidade de ser ator porno no Líbano", ainda assim está grato por isso ter acontecido no ocidente, situação que lhe permite andar na rua incógnito.

"Apenas sou conhecido pela comunidade gay, não pela maioria das pessoas, porque esta não consome pornografia", disse o ator que já definiu na sua cabeça não voltar a viver no seu país natal.

Sendo alguém nascido num país envolvido em alguns dos conflitos mais sangrentos no Médio Oriente, que veio para o ocidente e apreendeu uma parte da sua forma de pensar e agir, Charif defende haver "um problema de entendimento sobre o que se passa" naquela região do planeta.

"É difícil para quem está no ocidente entender-nos, as pessoas não estão muito despertas para o que está lá a acontecer. Entendo que aqui as pessoas vivem a sua vida e nem sempre têm disponibilidade para pesquisar o que se passa e com quem falo é normal assumirem que não tinham noção do que está a acontecer", argumentou o ator.

Confessando ter "passado a maior parte da adolescência a não pensar nos problemas" do seu país, contou à Lusa ter nascido logo após o final da guerra civil (1975-1990) e que em 2006, aquando do conflito com Israel, por "sorte não foi afetado", já que apenas "os subúrbios de Beirute e o sul do Líbano foram atingidos" pelas bombas do estado hebraico.

Referindo que o Líbano é "conhecido por ser o país mais progressista em termos de vida homossexual", e que muito do turismo "é para conhecer a noite libanesa e mesmo a cultura gay", revelou que esta comunidade "está a crescer", e que apesar de se manter como uma subcultura, quer "sair da bolha em que vive".

Jesse Charif é uma das três estrelas internacionais convidadas pelo Eros Porto 2018, atuando na área dedicada à comunidade LGBTI - Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexo.

O Eros Porto 2018 vai decorrer na Esponor, em Matosinhos, entre hoje e domingo.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

A "taxa Robles" e a desqualificação do debate político

A proposta de criação de uma taxa sobre especulação imobiliária, anunciada pelo Bloco de Esquerda (BE) a 9 de setembro, animou os jornais, televisões e redes sociais durante vários dias. Agora que as atenções já se viraram para outras polémicas, vale a pena revistar o debate público sobre a "taxa Robles" e constatar o que ela nos diz sobre a desqualificação da disputa partidária em Portugal nos dias que correm.

Premium

Rosália Amorim

Crédito: teremos aprendido a lição?

Crédito para a habitação, crédito para o carro, crédito para as obras, crédito para as férias, crédito para tudo... Foi assim a vida de muitos portugueses antes da crise, a contrair crédito sobre crédito. Particulares e também os bancos (que facilitaram demais) ficaram com culpas no cartório. A pergunta que vale a pena fazer hoje é se, depois da crise e da intervenção da troika, a realidade terá mudado assim tanto? Parece que não. Hoje não é só o Estado que está sobre-endividado, mas são também os privados, quer as empresas quer os particulares.