A história incrível dos Bragança Van Uden

De origem 'viking', o nome Van Uden chegou a Portugal por via do casamento de uma neta de D. Miguel I com um médico holandês, em Viena, em plena II Guerra Mundial. Estas são as aventuras de um clã marcado pela história

Tudo começou, como no cinema, com uma história de amor. É preciso recuar no tempo ao auge da II Guerra Mundial, no início dos anos 40. A Áustria estava ocupada pelos alemães e os bombardeamentos nocturnos dos aliados não deixavam Viena descansar.

A infanta Maria Adelaide, neta do rei D. Miguel I (exilado na Europa desde 1834 pelos liberais), tinha nascido em França mas vivia na Áustria onde trabalhava como enfermeira. Era uma jovem destemida e tinha um hábito perigoso: assim que ouvia as sirenes de aviso de novo bombardeamento aliado, subia ao sótão de casa para ver onde estavam a cair as bombas. Depois, esperava que os aviões dispersassem, pegava num candeeiro a petróleo e corria em auxílio dos feridos que se amontoavam nos escombros. Numa dessas incursões nocturnas por Viena incendiada, a infanta acabou a noite auxiliando um jovem estudante de Medicina numa tenda da Cruz Vermelha. Chamava-se Nicolaas van Uden e foi amor à primeira vista.

Casaram-se, tiveram dois filhos, antes de se mudarem para Portugal, e mais quatro, já em território nacional onde o nome Van Uden tem mais descendência do que em qualquer outro país da Europa. A contabilidade não está completa mas deverão existir em Portugal cerca de 47 membros desta família de raízes holandesas.

A origem do nome Van Uden é longínqua e misteriosa. O que a família sabe ao certo é que no século VIII houve um poderoso palaciano chamado Van Uden na corte de Pepino, o Breve, pai de Carlos Magno. Van Uden tinha uma influência tão grande que se tornou num dos nomes mais importantes de Aix-la Chapelle. Nos séculos que se seguiram o apelido desapareceu dos registos históricos para voltar a ser falado no século XVII com o retratista holandês Lucas van Uden. Pintor, desenhador, gravurista do seiscento flamenco, as suas obras estão hoje expostas nos melhores museus do mundo, como o Ermitage, de Sampetersburgo, a National Gallery de Londres e o J. Paul Getty Museum de Los Angeles.

Novamente, os Van Uden voltaram a perder-se na espuma do tempo e só mais recentemente é possível localizá-los na genealogia de Nicolaas Maria van Uden, o estudante de Medicina que se apaixonou por uma infanta portuguesa numa tenda da Cruz Vermelha em Viena debaixo de intensos bombardeamentos aliados.
Filho de um oficial das forças armadas holandesas e de uma senhora chamada Cornélia Baijerns, Nicolaas ingressou na melhor escola de Medicina da Europa, em Viena, depois de terminar o liceu na Holanda com notas máximas.

"Ele também achava que a Holanda era muito pequena e tinha gente a mais, por isso foi estudar Medicina para Viena onde acabou por conhecer a minha mãe em plena II Guerra Mundial", contou ao DN o empresário Francisco van Uden, filho da infanta Maria Adelaide e de Nicolaas van Uden.
Quando se casaram, em Viena, em 1945, Maria Adelaide de Bragança e Nicolaas van Uden tinham passados bem diferentes.

Exilado à força em 1834, o rei D. Miguel I ficou na penúria. Valeu-lhe o bom-nome que tinha no resto da Europa. Quando o rei embarcou em Sines, para não mais voltar, deixou para trás uma fortuna colossal e até os anéis tirou dos dedos, mas mal atracou em Roma foi recebido ao mais alto nível pelo Papa.

No exílio, casou com uma princesa - Maria Adelaide Loewenstein - e conseguiu que as filhas se ligassem por matrimónio às mais importantes casas reais europeias. "Muitas famílias reais católicas europeias são Bragança, a começar pelo Luxemburgo. Aliás, o grão-duque do Luxemburgo é tão Bragança quanto eu", disse ao DN Francisco Bragança van Uden. Austeridade manteve-se a palavra de ordem para as gerações seguintes de Braganças.

Quando regressaram a Portugal com a permissão de Salazar em 1949, Maria Adelaide, Nicolaas e os filhos instalaram-se numa quinta em Murfacém, perto da Trafaria. Não tinham carro e por vezes não havia manteiga ao pequeno-almoço. "Vivíamos com muito pouco mas não me lembro de sentirmos falta do que quer que fosse", contou Francisco van Uden.

Em Portugal, a infanta Maria Adelaide continuou a trabalhar na área da assistência social. Criou a Fundação D. Nuno Álvares Pereira, de apoio a mães pobres em fim de gravidez e às crianças até à puberdade, que desapareceu a seguir à revolução.
O seu marido, Nicolaas van Uden, dedicou-se à investigação científica, sendo fundador do Instituto Gulbenkian da Ciência e seu director de Microbiologia até à sua morte, em 1971. Hoje, a infanta Maria Adelaide tem 97 anos e é a única neta viva do rei D. Miguel I.

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