Vânia entrou no sábado na maternidade. Morreu na segunda, depois de Rafael nascer

Hospital de São Bernardo, em Setúbal, confirma que o parto começou a ser induzido no sábado e abre processo para averiguar os acontecimentos. Bebé só nasceu na segunda-feira às 13.55 e a mãe morreu às 18.15. Embolia de líquido amniótico pode ser causa da morte.

Vânia andava "eufórica de felicidade". Com duas filhas, uma adulta e outra adolescente, preparava-se agora para ser mãe de um rapaz. O Rafael nasceu no passado dia 3 de agosto, mas a mãe não o chegou a conhecer. Vânia morreu poucas horas depois de o seu filho varão vir ao mundo, no terceiro dia depois de ter dado entrada no Hospital de São Bernardo, em Setúbal.

Vânia Graúdo tinha 42 anos, feitos no mês passado. No dia anterior ao marcado para fazer uma cesariana - e também a laqueação de trompas -, ligou à irmã para lhe dar a notícia. "Vai nascer o teu Rafael!", disse no telefonema que fez a Paula Oliveira, na sexta-feira antes de ir para o hospital. Há anos que comunicam por telefone, Paula vive no Luxemburgo e já tinha dito a Vânia que não poderia vir para o nascimento do bebé, ainda mais que foi operada em março e a pandemia não aconselha a viajar. Quis o destino, pelas piores razões, que se metesse num avião para vir o mais depressa que podia para Portugal, para assistir ao funeral da irmã, que se realizou nesta terça-feira de manhã, no Pinhal Novo.

"A partir dos 40 é sempre uma gravidez de risco, mas a minha irmã esteve sempre bem, não tinha problemas de saúde", conta Paula, ainda incrédula com a notícia que recebeu há uma semana. Primeiro ligaram-lhe a dizer que o Rafael tinha nascido, mas que do hospital diziam que tinha havido complicações graves durante o parto. Não passaram 15 minutos e o telefone tocou de novo. Vânia tinha morrido.

Não sabe descrever o que sentiu. "Fiquei em choque!" Ainda está. Nos dias em que esteve no hospital, Vânia foi ligando à irmã para lhe dar conta do desenrolar da situação. Apesar de ter ido com a certeza de uma cesariana, até porque tinha decidido laquear as trompas para não ter mais filhos, foi informada pela médica de serviço de que iriam tentar um parto normal e que no sábado já lhe estavam a dar comprimidos para induzir o parto. "A médica disse-lhe que já tinha tido duas filhas por parto normal, não fazia sentido a cesariana."

Carina Gaspar, cunhada de Vânia, levou-a ao hospital naquele sábado. Diz que o papel que tinha para se apresentar às 08.30 da manhã não referia cesariana, mas que Vânia sempre garantiu que era assim que ia nascer o menino.

O hospital de Setúbal, em resposta a um conjunto de questões enviadas pelo DN, afirma que "não estava prevista a realização de cesariana". E acrescenta: "Foi realizada a indução de trabalho de parto no dia 1/8/2020, conforme planeado com a grávida em consulta de vigilância realizada em 29-07-2020."

Questionado sobre a razão de a equipa médica ter esperado mais de 48 horas para fazer o bebé nascer, o Hospital de São Bernardo confirma que a indução do parto foi iniciada no sábado, vindo o bebé a nascer apenas às 13.55 de segunda-feira. "Foi iniciada a indução de trabalho de parto às 17.45 de dia 1/8/2020 com a administração medicamentosa, e continuada no dia 2/8/2020, segundo protocolo habitual, e cuja rapidez do efeito é variável de mulher para mulher. Durante todo este período a grávida e o bebé permaneceram monitorizados com CTG sem intercorrências, até um início de um quadro convulsivo súbito."

Já esta quarta-feira, e segundo a informação da agência Lusa, o hospital abriu um processo para averiguar e esclarecer as circunstâncias da morte de Vânia Graúdo.

"Preferiu sofrer, mas não pediu ajuda"

No telefonema de domingo à noite, Vânia conta a Paula que a mandaram andar no corredor para ver se o bebé descia e que insistiam no parto normal. "A minha irmã disse-me que estavam a dar-lhe medicamentos para fazer a dilatação, mas que quanto mais andava de um lado para o outro mais o bebé subia. Sobre a laqueação disseram-lhe que faziam dois furinhos no umbigo."

Paula garante que a irmã não era de se queixar, mesmo que tivesse dores. "Até na hora da morte foi a Vânia. Ela era assim, não queria chatear ninguém. Preferiu sofrer, mas não pediu ajuda. Esteve três dias sozinha e não pediu ajuda", diz, contando ainda que o marido de Vânia, Jorge, chegou a ligar para saber o que se passava e lhe disseram que a mulher tinha telefone, portanto que lhe ligasse.

No primeiro telefonema que o hospital fez no dia 3 de agosto, data da morte, terá sido dito à família que houve complicações no parto, que iam fazer tudo para salvar Vânia, mas que não tivessem muitas esperanças. "Foi transmitido que o líquido amniótico foi para o sangue. E que a minha irmã começou a fazer convulsões e começou com uma hemorragia. Fizeram três transfusões, mas o sangue já estava envenenado e ela rejeitou o sangue novo. Entrava pela veia e saía por baixo. Fez duas paragens cardíacas, mas não conseguiram reanimá-la." Vânia partiu sem conhecer o seu Rafael.

Segundo o hospital, a "embolia de líquido amniótico é uma das hipóteses de primeira linha perante um quadro clínico súbito após a rutura da bolsa de águas".

A morte de Vânia, acrescenta o São Bernardo, ocorreu após paragem cardiorrespiratória sem resposta às medidas tomadas.

Sendo rara, a embolia por líquido amniótico tem maior risco de ocorrer em cesarianas e partos com fórceps, em mulheres mais velhas, quando há mais de um feto no útero, quando há descolamento de placenta, se houver uma lesão abdominal ou rompimento do útero. Ou quando há uma quantidade excessiva de líquido amniótico e também em casos de partos induzidos.

"Um bebé é uma dádiva, não é isto!"

Vânia entrou no Hospital de São Bernardo, onde sempre fez os exames de grávida que lhe eram prescritos pelo centro de saúde, no sábado às 08.30. Morreu na segunda-feira às 18.15, depois de ter dado à luz o menino, que nasceu às 13.55.

"Um bebé é uma dádiva, não é isto! Não sabemos o que aconteceu", lamenta Carina. Ao mesmo tempo, explica que quando chegou ao hospital com o irmão, já depois de saberem que Vânia tinha morrido, a médica lhes explicou que poderia ter havido uma embolia de líquido amniótico, ou seja, a entrada do líquido no sangue. E também que, antes do nascimento do bebé, a mãe teve uma convulsão.

Na quarta-feira anterior aos acontecimentos, Vânia esteve no hospital a fazer uma ecografia. "Nesse dia, transmitiram-lhe que os níveis do líquido amniótico estavam elevados, mas a enfermeira disse que era normal, para não se preocupar porque não havia problema", acrescenta Paula.

Rafael, conta a tia, também ingeriu o líquido amniótico e passou os primeiros dias de vida com uma sonda. Está "clinicamente estável", afirma o hospital. Apesar de ter nascido com 3,040 kg, teve de ir para a incubadora, por ser um bebé sozinho. É o único filho de Jorge, a quem o destino trocou as voltas e que, em vez de estar a comemorar o nascimento de um filho, está questionar o porquê da morte da mulher.

Paula questiona-se por que entrou Vânia no hospital com a promessa de uma cesariana e os médicos insistiram num parto natural que só se realizou ao terceiro dia. E, se já havia referência ao excesso de líquido amniótico, por que razão essa informação não foi valorizada.

Perante os resultados da autópsia, a família decidirá o que fazer. Nesta terça-feira, Vânia foi a enterrar e ainda é tempo de chorá-la. O Centro Hospitalar de Setúbal vai igualmente averiguar as circunstâncias do óbito, afirmando que "investiga sempre todas as situações de morte não expectável que ocorram".

A morte de mulheres grávidas, durante o parto ou até 42 dias após o nascimento da criança tem vindo a aumentar em Portugal, uma tendência registada nos países desenvolvidos e que se pode justificar, nomeadamente, pelo facto de cada vez mais as mulheres optarem por ter filhos mais tarde. Em 2018, morreram no nosso país 15 mulheres, mais quatro do que no ano anterior e mais três do que em 2016.

(notícia atualizada às 14:20)

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