Queda de helicóptero: o que sabemos sobre o acidente

Quatro pessoas morreram na queda do aparelho ao serviço do INEM, ao final da tarde de sábado.

A queda de um helicóptero do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), ao final da tarde de sábado, no concelho de Valongo, distrito do Porto, causou a morte aos quatro ocupantes, cujos corpos já foram retirados do local.

Que aparelho é este?

A aeronave em causa é uma Agusta A109S, operada pela empresa britânica Babcock, que trabalha para o INEM desde 2000 .

De acordo com o site da Babcock, a empresa tem uma equipa de 83 pessoas, na sua maioria pilotos e técnicos de manutenção, a trabalhar em Portugal. A sede está localizada no heliporto de Salemas, em Loures. A empresa tem 13 aeronaves no país, incluindo quatro helicópteros Agusta A109, distribuídos por Salemas, Loulé, Macedo de Cavaleiros, Évora e Santa Comba Dão.

Que missão cumpria este helicóptero do INEM?

O helicóptero regressava à base, em Macedo de Cavaleiros (Bragança), após ter realizado uma missão de emergência médica de transporte de uma doente grave, de 76 anos, com problemas cardíacos, para o Hospital de Santo António, no Porto. "O transporte teve início às 15.13, altura em que o helicóptero levantou voo da sua base para o hospital de origem do doente, tendo o mesmo sido entregue aos cuidados das equipas médicas do Hospital de Santo António cerca das 18.10", informou o INEM.

Quando desapareceu?

Segundo a Navegação Aérea de Portugal (NAV, que controla o tráfego aéreo em Portugal), a tripulação contactou com a torre de controlo do Porto às 18.30, para informar que iria descolar para Macedo de Cavaleiros via Baltar (para abastecimento).

A primeira perda de sinal radar com o helicóptero deu-se às 18.55, quando o a aeronave seguia entre Couce e Aguiar de Sousa, freguesia do concelho de Paredes, anunciou a NAV, salientando ainda que a perda de comunicações "é normal", devido "à altitude e orografia do terreno". Não terá sido feita qualquer comunicação de emergência.

A hora expectável de aterragem, tendo em conta a hora de descolagem do aparelho, era às 19.00.

Quando foi dado o alerta?

Segundo Carlos Alves, comandante distrital da Proteção Civil, a situação "foi reportada cerca das 20.15, ainda sem se saber a localização".

Porque é que o alerta demorou tanto tempo?

Ainda não se conseguiu perceber porque é que o alerta foi dado quase duas horas depois do desaparecimento do helicóptero.

A NAV sublinhou que às 19.20, "de acordo com o protocolo de atuação, que determina que 30 minutos após o último contacto expectável se iniciem tentativas de contacto com a aeronave", a Torre de Controlo do Porto contactou telefonicamente várias entidades, entre as quais os bombeiros e a PSP de Valongo. À mesma hora, foi tentado o contacto ainda com os Comandos Distritais de Operações de Socorro (CDOS) do Porto, de Braga e de Vila Real, "que não atenderam".

Segundo a NAV, às 19.40 foi avisada a Força Aérea Portuguesa, "que é quem ativa a busca e salvamento", 20 minutos depois de terem sido contactados os CDOS do Porto, de Braga e de Vila Real, que "não atenderam" - esta versão foi desmentida pela Proteção Civil, que lembra que "há uma linha direta da torre de controlo do Aeroporto do Porto para o CDOS do Porto e a mesma não foi acionada".

De acordo com a Proteção Civil, o alerta chegou ao CNOS (Comando Nacional de Operações e Socorro) às 20.09, pelo departamento de monitorização de radares da Força Aérea. Foi o CNOS que às 20.15 alertou o CDOS do Porto, "tendo de imediato sido acionados os bombeiros de Valongo".

Entretanto, o ministro da Administração Interna determinou à ANPC a abertura de um "inquérito técnico urgente ao funcionamento dos mecanismos de reporte da ocorrência e de lançamento de alertas em relação ao acidente".

O que diz a Força Aérea?

Ao início desta noite, a Força Aérea (FA) explicou em comunicado todos os passos que o Centro de Busca e Salvamento efetuou a partir do alerta da NAV para o desaparecimento do helicóptero do INEM em Valongo.

A FA frisa que contactou a Autoridade Nacional de Proteção Civil e a GNR e que nenhuma destas entidades tinha conhecimento de um acidente na zona. Ao mesmo tempo frisa que desde as 21.33 que se sabia das últimas coordenadas SIRESP do telemóvel do piloto do helicóptero.

Explica que tentou falar com o posto da GNR de Massarelos e que não conseguiu.

Que meios estiveram envolvidos nas buscas?

A Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) definiu imediatamente a zona onde o acidente terá ocorrido e foram enviados os meios para o terreno. Foram mobilizadas 203 pessoas para a operação, 134 das quais operacionais da Proteção Civil, apoiados por 35 veículos.

O helicóptero EH-101 Merlin, que saiu da base do Montijo pelas 21.45 de sábado, chegou a estar no local onde decorriam as buscas, próximo da aldeia de Couce, em Valongo, mas teve de abandonar o local, já que as condições atmosféricas não permitiam a continuação das operações.

O comando de operações foi montado no campo de futebol da Associação Recreativa e Cultural da Azenha (ARCA), perto da aldeia de Couce e uma das entradas para as serras de Santa Justa e de Pias. Os secretários de Estado da Proteção Civil, José Artur Neves, e da Saúde, Raquel Duarte, dirigiram-se para o local. Mais tarde, chegou também a ministra da Saúde, Marta Temido.

As operações de busca foram dificultadas pelo facto de esta ser uma zona de terrenos inclinados e densa vegetação. Além disso, o nevoeiro e as chuvas fortes também não facilitaram a operação.

Numa reportagem às 23.40, a RTP diz que sabe há cerca de hora e meia (22.10) que não há sobreviventes da queda do helicóptero, citando fontes no local. Relata que as equipas de socorro encontraram os destroços, antevendo uma declaração da Proteção Civil a confirmar "aquilo que a redação da RTP já apurou há quase hora e meia, que é essa notícia da morte dos quatro ocupantes" do aparelho.

As autoridades foram informadas do local onde se encontravam os destroços por um grupo do Clube Todo-o-Terreno de Paredes, segundo contou ao DN Emanuel Costa, membro desta associação. "Estávamos a jantar perto das 22.00 quando soubemos que podia ter caído um helicóptero do INEM, onde ia uma enfermeira aqui da zona. Decidimos ajudar porque conhecemos bem o terreno", recorda.

Sete elementos divididos em dois jipes meteram-se a caminho, mas foram barrados pela polícia à entrada da aldeia de Couce. "Eles estavam a fazer buscas entre Couce e a serra de Pias, o que veio a revelar-se errado", afirma Emanuel Costa.

O grupo foi por outras estradas, pela serra de Santa Justa e foi quando chegaram "a um ponto mais alto" que avistaram primeiro uma antena tombada e cabos elétricos cruzados e, pouco depois, alguns destroços.

"Um colega ligou de imediato para as autoridades [não sabe precisar para quais exatamente] e passado pouquíssimo tempo chegou um carro de resgate", assinala Emanuel Costa, que garantiu ao DN não ter visto os corpos, pois não se aproximaram do local. O praticante de todo-o-terreno não consegue precisar a hora a que foi feito este contacto. "Seguramente entre as 23.00 e a meia-noite. Antes da meia-noite, de certeza. As equipas de resgate depois chegaram rapidamente", assinala, "primeiro só um carro, a dizer resgate, com quatro pessoas, passado um bocado começaram a chegar mais viaturas".

O Clube TT garante que foi ele a informar as autoridades sobre a localização dos destroços, mas recorde-se que, pelas 21.33 a Força Aérea já tinha a informação sobre o ponto onde o helicóptero se encontrava através do sinal do telemóvel de um dos pilotos.

Onde e quando foi localizado o aparelho?

O helicóptero foi encontrado cerca da 01.30, na serra de Pias, Valongo.

Os corpos das quatro vítimas foram encontrados 700 metros a sul da capela da Santa Justa, em Valongo.

O INEM faz um comunicado a confirmar oficialmente as mortes, depois de informar as famílias das quatro vítimas.

Quem são as vítimas?

A bordo do aparelho seguiam dois pilotos e uma equipa médica, composta por médico e enfermeira: o médico espanhol Luis Vega, de 50 anos, e a enfermeira Daniela Silva.

Como correu a operação de resgate?

A operação de resgate dos corpos das vítimas do acidente decorreu durante toda a manhã de domingo. Em declarações aos jornalistas, a meio da manhã, o comandante distrital da Proteção Civil, Carlos Alves, explicou que a primeira fases dos trabalhos consiste na criação de acessos, seguindo-se a remoção dos corpos das vítimas do acidente. "Há dois com mais facilidade de remoção, e outros dois com mais dificuldade porque há que fazer todas as operações de desencarceramento", explicitou, acrescentando que "o terreno acidentado é neste momento a maior dificuldade".

Pelas 14.30 deste domingo, Marco Martins, presidente da Comissão Distrital do Porto da Proteção Civil, confirmou que os corpos das quatro vítimas já tinham sido retirados do local da queda.

Quais os motivos do acidente?

Não são ainda conhecidos os motivos do acidente.

De acordo com o INEM, "o incidente ocorreu numa altura em que se verificavam condições meteorológicas bastante adversas". Aliás, a tripulação terá chegado a equacionar não fazer a viagem e ficar estacionada no aeroporto de Massarelos, no Porto, à espera de melhores condições meteorológicas.

Entretanto, na manhã deste domingo foi equacionada a hipótese de o helicóptero ter embatido num poste elétrico. Estaria a voar a baixa altitude por causa do mau tempo e aquela área, de elevada densidade populacional, tem muitos postes de eletricidade, antenas e respetivos cabos. Essa possibilidade está também a ser investigada.

Os acidentes com helicópteros são frequentes?

O serviço de helicópteros de emergência médica do INEM foi criado em 1997, tendo desde então realizado cerca de 16 370 transportes de doentes urgentes, "sem que se tenha verificado qualquer incidente grave" como este.

Este é o acidente aéreo mais grave ocorrido neste ano em Portugal, elevando para seis o número de vítimas mortais desde janeiro.

Já na tarde deste domingo, a Federação de Bombeiros do Distrito do Porto manifestou "apreço e reconhecimento" pela "prontidão, competência e grande esforço dos mais de 120 bombeiros" que participaram nas operações de resgate.

E a Câmara de Macedo de Cavaleiros, onde funcionava a base do helicóptero do INEM, decretou esta segunda-feira (dia 17) como dia de luto municipal "para homenagear os quatro profissionais que consagraram a vida a salvar a vida dos outros".

Também a Cruz Vermelha Portuguesa decidiu colocar a bandeira a meia haste por "respeito às vítimas" do acidente. "Sem prejuízo de outras formas de homenagem a serem decretadas oportunamente, determina-se que a bandeira da Cruz Vermelha Portuguesa seja colocada a meia haste, desde já, por respeito às vítimas do acidente com o helicóptero do INEM, por tempo a determinar", anunciou, em comunicado, a instituição.

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