Povoação espanhola vizinha de Barrancos expulsa até quem tiver segunda residência

Numa medida em defesa da população o presidente da câmara de Encinasola colocou em prática a "tolerância zero" para visitantes. Moradores de Barrancos tem de andar 200 quilómetros para ir trabalhar na região.

Encinasola, localidade espanhola a cerca de dez quilómetros de Barrancos, assume a "tolerância zero" contra o coronavírus. O presidente da autarquia garante que mesmo os cidadãos espanhóis que tenham aqui uma segunda habitação serão expulsos, caso se comprove que chegaram à vila após o Governo ter decretado o estado de emergência. E pede aos 1300 habitantes da terra que denunciem os casos que conheçam.

"Por cá ainda não temos ninguém contagiado e cabe-nos proteger a população ao máximo para evitar o que está a acontecer em toda a Espanha. Desde 14 de março que estão proibidas as deslocações", justifica o alcaide Ángel Méndez ao DN, numa altura em que Espanha enfrenta o segundo pior surto de Covid-19 a nível europeu, sendo só ultrapassado pela Itália. O que já levou o Parlamento a prolongar por mais duas semanas o estado de emergência.

Ángel Méndez admite que já chegaram algumas pessoas que têm segunda habitação em Encinasola, impulsionadas pela procura de locais onde a pandemia ainda não tenha dado sinais. Confrontadas pelas autoridades, estão a alegar que o fizeram antes de ser declarado o estado de emergência que impõe restrições à circulação nas ruas.

"Estamos a averiguar se foi mesmo assim e se têm como provar que chegaram antes do 14 de março", ressalva. Caso se confirme, essas pessoas são, ainda assim, obrigadas a ficar em casa, impedidas de ter qualquer contacto com a via pública. "Só estamos a fazer aquilo que a lei permite. É que se a lei não for cumprida, as pessoas estão a cometer um crime, porque a mobilidade está proibida", reforça.

Aliás, a decisão do município de Encinasola não permite abrir exceções nem para quem vive nos concelhos próximos, mesmo que aqui se desloque com regularidade. "Se cá chegar alguém de Huelva, Sevilha ou Málaga, sem uma justificação contemplada na lei, terá de regressar à sua residência habitual", avisa o autarca, acrescentando que todos os casos serão comunicados à "Guardia Civil" para que dê ordem de regresso à primeira habitação.

Trabalhadores fazem 200 km por dia

Entretanto, a estrada que liga Encinasola a Barrancos foi cortada - tal como tantas outras - após a reposição das fronteiras, a 16 de março, limitando a circulação entre Portugal e Espanha, criando dificuldades a quem trabalha em ambos os lados da raia.

A curta distância entre as duas localidades - perto de dez quilómetros - foi agora alargada para cerca de cem quilómetros, uma vez que os automobilistas estão obrigados a cruzar raia pela fronteira de Vila Verde de Ficalho.

"É um problema que estamos a tentar resolver entre os dois municípios, mas ainda não conseguimos", diz o autarca de Encinasola, lamentando que as pessoas que têm de trabalhar, "sejam obrigadas a fazer 200 quilómetros por dia - ida e volta - com mais duas de horas de viagem, por estradas que são más, quando estavam a cinco minutos do emprego".

A preocupação é partilhada por Domingos Mondragão, presidente da Junta de Barrancos, revelando que a maioria dos 12 barranquenhos que trabalha em Encinasola - sobretudo nos campos agrícolas - optou por ficar em casa por estes dias.

"Ainda por cima só permitem uma pessoa por carro. Se, pelo menos, as pessoas pudessem dividir as despesas da viagem, mas isso agora não é permitido".

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