"Juntos venceremos." O lema que une Ovar contra o covid-19

Faz hoje três semanas que a vida do povo vareiro mudou. A cerca sanitária mobilizou os habitantes numa "luta pela vida" que criou um sentimento patriótico. Em Ovar, o medo deu lugar a uma consciência coletiva. "Juntos venceremos" é o lema de Salvador Malheiro, presidente da câmara, e que já é uma bandeira no concelho.

17 de março de 2020. A data nunca mais sairá da memória dos habitantes de Ovar. Foram eles os primeiros a sofrer as medidas mais drásticas para tentar controlar a pandemia do novo coronavírus. Nesse dia e com 30 casos de covid-19 no concelho, o governo decretou uma cerca sanitária. "Shutdown completo", escreveu o presidente da câmara Salvador Malheiro, na sua página da rede social Facebook.

A partir desse momento, as forças de segurança estabeleceram fronteiras, não deixando ninguém entrar nem sair da localidade.

Com a medida, veio o medo e a incerteza. Um sentimento que deixou a vida dos ovarenses em suspenso e que se manteve ao longo dos dias e da multiplicação de casos: até esta terça-feira (7 de abril) foram registados mais de 400 e 16 óbitos.

"Para a minha família como para outras famílias que estão a viver o cerco, não é uma situação fácil. Temos medo", conta ao DN a estudante Joana Liz, de 21 anos. A jovem descreve um ambiente de desconfiança em que todos são suspeitos. "Quando saio de casa, é só mesmo para me dirigir ao supermercado ou à farmácia, tomo todas as medidas de prevenção necessárias, mas sinceramente o que mais me entristece e me cria alguma angústia é olhar à minha volta e sentir que as poucas pessoas que lá circulam entreolham-se com ar desconfiado como se todos estivéssemos contaminados", conta.

Contudo, a vida continuou com a "normalidade possível". Joana Liz vive com mais seis familiares: os pais, os avós, a irmã mais velha e o namorado desta. Cada um assume um papel na rotina familiar, mas é a mãe quem mais se arrisca para fazer compras de bens essenciais. "Hoje fui com ela. É uma aventura. Vamos com máscara, luvas, temos mil e um cuidados. Desinfetamos partes do carro, como o volante, e ao chegar a casa desinfetamos tudo o que trazemos", explica. Os dias da jovem são passados com "as aulas da faculdade, mas em formato online" e "todos os outros hobbies" possíveis de adaptar em casa.

A aparente normalidade também faz parte do dia-a-dia de Gabriela Ferreira, de 21 anos, que viu a universidade que frequenta cancelar as aulas ainda antes da cerca sanitária. "Só me apercebi da gravidade da situação em Ovar quando comecei a ver as notícias online. O cerco foi estabelecido no dia 18 de março, nessa altura já me encontrava há uma semana em casa, pois as aulas na Universidade de Aveiro, onde estudo, já tinham sido suspensas desde 12 de março", conta.

Para passar os dias na casa que divide com o namorado, militar, a jovem ocupa o tempo com aulas online. O namorado tem sentido mais dificuldades de adaptação porque "é atleta" e quebrou complemente a rotina laboral. "Sente uma grande dificuldade em conseguir treinar da forma a que estava habituado, uma vez que não temos em casa qualquer tipo de material desportivo", concluiu.

Para os mais velhos, a situação é ainda mais difícil de gerir, porque "os poucos hábitos de socialização, como dar um pequeno passeio e ir ao café", não são possíveis. "É verdade que estar fechado em casa por obrigação é muito diferente do que estar em casa e ter liberdade para sair quando quiser. Temos de admitir que tudo isto é para o bem de todos, para nós que estamos em casa como para os que estão na linha da frente (bombeiros, médicos, enfermeiros, auxiliares, etc.)", sublinha António Ferraz de Liz, reformado de 78 anos, que ocupa o tempo com trabalhos de bricolage em casa. Estes vareiros têm em comum o espírito de missão na luta contra o covid-19 e não questionam as medidas restritivas com que convivem há três semanas.

"Tudo tem uma razão de ser, e nós, povo vareiro, vamos mostrar ao 'bicho' que nada nos vai desunir. Esta situação veio unir ainda mais os ovarenses e mostrar a todo o Portugal a raça do povo vareiro", concluiu Joana Liz. Gabriela Ferreira sublinha que "grandes batalhas são dadas a grandes guerreiros". "É isso que vamos mostrar que somos, enquanto indivíduos, enquanto população e enquanto concelho. Ovar é grande e é um povo unido, não estamos preocupados com um possível julgamento da parte dos restantes, pois sabemos o que somos e temos confiança nos nossos profissionais de saúde e no nosso presidente", afirma.

Para o presidente da autarquia, Salvador Malheiro, este também é o desafio da sua vida e dos habitantes do concelho. "Estamos a dar tudo o que temos a nível emocional e físico. Temos um sentimento de missão e um Gabinete de Crise - onde estão representadas todas as entidades - que trabalha diariamente para impedir novos casos como se de uma guerra se tratasse. Começamos a trabalhar de manhã cedo e nunca saímos antes das 23.00", explica. Para o autarca, esta é a guerra que quer ganhar. "Prefiro ganhar esta do que uma qualquer guerra política futura. Não faço nada para agradar a ninguém. Sigo a minha consciência para conseguir o melhor para Ovar", afirma.

O autarca faz ainda um balanço dos momentos mais duros que viveu no decorrer das últimas semanas. "Os óbitos são o mais difícil de gerir, o mais complicado desta situação", diz, ressalvando que Ovar tem 432 casos positivos (16 óbitos), embora a DGS aponte apenas 247. "Conheço-os a todos e os números da câmara não podem ser questionados, mas estamos no bom caminho. Há cada vez menos novos casos", afirma. Salvador Malheiro, que pretende que toda a indústria local possa voltar a trabalhar e não apenas alguns setores, como foi estabelecido, quer que Ovar seja um exemplo. "Queremos ser um exemplo, ser os primeiros a sair desta crise de saúde pública e os primeiros a ter a economia a funcionar em pleno para podermos ajudar o resto do país", conclui.

Tecido económico afetado

Ricardo Pinho, encarregado da empresa Kirchhoff, está em casa, à semelhança dos 500 colaboradores de Ovar da firma de produção de peças automóveis. "Só conseguimos trabalhar nos dias que tivemos para escoar o material, mas a produção está completamente parada", explica.

A empresa estava "num momento muito bom, com um volume de trabalho maior", quando foi "apanhada" pela cerca sanitária. "Não estávamos à espera. Tem sido difícil gerir emocionalmente os funcionários e a sua ansiedade. A primeira semana do cerco foi muito difícil para todos. Além do medo de ficarmos como a Itália a nível de infetados, lidamos com a incerteza profissional. Perdemos a rotina e os nossos objetivos", confessa. Ricardo Pinho foi defensor do "primeiro cerco", mas a sua continuidade (até 17 de abril) já não lhe parece ser a decisão mais acertada.

"Podíamos começar a produzir, mesmo que com uma equipa reduzida e tendo todos os cuidados de segurança. A situação está mais controlada, mérito de toda a população. Precisamos, agora, de garantir também a sustentabilidade económica das famílias", pede. Uma vontade partilhada por César Liz, produtor de pão-de-ló. O pequeno empresário tem uma loja no centro de Ovar, cujas portas encerraram. Era também fornecedor de uma grande superfície. "Vendia entre 20 mil e 25 mil por ano e era a maior parte da minha faturação. Desde o início de março que não entrego nem um, porque não é considerado um bem de primeira necessidade e eu entendo tudo isso. Contudo, não deixa de ser difícil para mim e para quem está nessa situação. A Páscoa era um momento bom para o negócio e não vale a pena produzir porque não temos como escoar", concluiu.

Bombeiros com 300 pedidos de socorro a suspeitos de covid-19

O dia-a-dia no quartel dos Bombeiros Voluntários de Ovar é vivido de forma intensa e com "muito cansaço e ansiedade". Ainda não houve um caso positivo nos 64 elementos da corporação, "mas já muitos foram testados".

"Há algum cansaço por falta de períodos de pausa e apreensão por parte dos que ainda não foram testados ou que aguardam resultados. Isto causa ansiedade. Não só esta incerteza, mas também o trabalho acrescido e o peso da responsabilidade para fazer o melhor para todos e não falhar", refere o comandante da corporação, João Mesquita. Em 15 dias, continua, receberam mais de 300 chamadas de pedidos de socorro só para suspeitos de covid-19, acrescidas às outras ocorrências como incêndios urbanos ou florestais.

"A nossa média era 200 chamadas por mês, mas temos conseguido responder a todas as ocorrências", afirma. A maior preocupação, conta, é "manter os operacionais e não perder nenhum com um possível contágio". João Mesquita destaca também a entrega da população, que "está a ter o comportamento desejável e compreende a necessidade de ficar em casa".

Foi a 17 de março que o governo declarou o estado de calamidade pública no concelho de Ovar, com efeitos no dia seguinte, com a implementação de fronteiras e controlo policial. O concelho ficou sujeito a uma cerca sanitária e consequente suspensão de toda a atividade empresarial, exceção feita aos bens de primeira necessidade. A medida foi prolongada até 17 de abril.

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