Violência na PSP? Só 0,054% de queixas em 2,5 milhões de intervenções motivam diretor-nacional

A PSP celebra 151 anos esta segunda-feira. No seu discurso o diretor-nacional passou ao lado dos recentes casos, alguns em julgamento, de suspeitas de violência policial e racismo nesta força de segurança

O diretor-nacional da PSP, Luís Farinha, está motivado com o facto de a atuação da sua polícia só ter tido queixas em 1350 casos de um total de "2,5 milhões de intervenções" que teve em 2017. No discurso para assinalar os 151 anos desta força de segurança, na presença do ministro da Administração Interna, o superintendente chefe não encontrou uma forma direta de falar das suspeitas de violência e racismo que têm atingido a PSP.

Desde o julgamento por tortura, sequestro e racismo de 17 agentes de Alfragide, ao caso do subcomissário condenado por ter agredido um adepto do Benfica, ou a alegada falha na intervenção da PSP no recente caso da jovem colombiana agredida por um segurança dos transportes, no Porto, ou ainda as acusações que pesam sobre agentes e oficiais do comando da Amadora, também por violência policial.

Perante Eduardo Cabrita, que ordenou à Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI) a abertura de um processo administrativo para averiguar a atuação da PSP no incidente do Porto, garantido que "não tolerará fenómenos de violência nem manifestações de cariz racista ou xenófobo", Luís Farinha recordou que "o volume das intervenções dos polícias da PSP ultrapassa, anualmente, as 2,5 milhões, além de ser uma instituição sujeita "a um elevado escrutínio" do cidadão comum.

Nas suas contas, deste total em 2017 "as queixas contra atuações policiais e as reclamações em livro de reclamações, representaram 0,054% do total de interações". O diretor nacional diz que este valor "motiva" a PSP "no caminho traçado, com vista a um objetivo ainda mais exigente, que é a inexistência de queixas ou reclamações".

Sublinhou que a polícia "não pode escamotear que a pressão de decisões imediatas, tomadas em ambientes hostis e de elevado risco" a que os agentes estão sujeitos "não podem ser, por si só justificação", nem "podem ser simplesmente desconsideradas". Também não explicou de que "ambientes hostis e de elevado risco" se tratava, tendo em conta que boa parte dos casos sob suspeita têm as instalações policiais como palco.

No seu discurso do ano passado, em pleno rescaldo da acusação contra a esquadra de Alfragide, este oficial superior parecia ter deixado implícito, sempre de forma indireta, um aviso crítico às "tropas". "Saberemos também, face a episódios negativos recentes que afetaram a imagem e a confiança na instituição, protagonizados por quem não honra o compromisso de ser polícia, encontrar as soluções adequadas e continuar a trabalhar com dedicação e ultrapassar as dificuldades por forma continuar a merecer a plena confiança dos portugueses", afiançou o chefe máximo da PSP.

No entanto, veio depois a clarificar internamente que se estava a referir ao roubo das 57 glock dos armazéns do quartel-general da PSP, em fevereiro de 2017, e que se encontra até hoje por esclarecer.

Na sua intervenção, o chefe máximo da PSP apelou a um "rejuvenescimento e reforço do efetivo operacional", considerando que se trata de uma necessidade premente que importa assegurar".

"Fruto da posição privilegiada que Portugal ocupa no 'ranking' dos países mais seguros, o aumento exponencial do turismo e do volume processado de passageiros em ambiente aeroportuário, a par do quase desaparecimento da sazonalidade na ocupação turística, implicam um acréscimo significativo populacional e dos riscos de criminalidade, essencialmente a oportunista, a ela associada", sublinhou.

Esta situação, "constitui, atualmente, um desafio na gestão dos meios humanos e materiais disponíveis, sem que sejam afetados os níveis desejáveis de segurança", acrescentou.

Neste contexto,"o rejuvenescimento e reforço do efetivo operacional, impõe-se como uma necessidade premente que importa assegurar, para obviar a uma degradação da qualidade de resposta e do serviço prestado ao cidadão e ao turista".

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.