Racismo na PSP: "Vi o miúdo Miguel no chão e cinco polícias em cima dele"

O tribunal contou esta sexta-feira com o testemunho de uma "estrela" da Cova da Moura: João Semedo Tavares, o criador da Academia Johnson, que treina futsal com jovens do bairro. Uma jornalista da Lusa pode ser testemunha de agressões

João Semedo Tavares, 46 anos, o "Johnson" da Academia de Futsal, era motorista da agência de notícias Lusa e, naquele dia cinco de fevereiro de 2015, transportava uma jornalista a um serviço no bairro do Zambujal. Cerca das 14 horas passaram perto da esquadra de Alfragide e garantiu ao tribunal ter visto "o miúdo Miguel com cinco polícias em cima, na paragem de autocarro" na rotunda. A jornalista não está na lista de testemunhas.

Miguel Reis é um dos seis jovens da Cova da Moura que o Ministério Público (MP) diz ter sido violentamente agredido e injuriado com insultos racistas pelos agentes da Esquadra de Intervenção e Fiscalização Policial de Alfragide (EIFP). Estão a ser julgados 17 polícias pelos crimes de tortura, sequestro e agressões qualificadas, motivados pelo racismo.

Segundo o MP, este jovem foi detido a cerca de 100 metros da esquadra - o que coincide com o testemunho de João Semedo Tavares - tendo sido agredido e arrastado pela rasta do cabelo até à EIFP (conhecida pela "esquadra antiga"), onde terá voltado a ser espancado e lhe partiram um dente.

João Semedo Tavares reconheceu Miguel, "deitado no chão de cabeça para baixo" com os agentes "em cima", mas só teve tempo de "buzinar". No entanto, relatou, depois de voltar do serviço foi a casa da família do jovem, na Cova da Moura, avisar que o tinha visto a ser "espancado", aconselhando a irem à esquadra ver o que se passava.

O testemunho de Johnson, apesar de não ter presenciado nenhum dos momentos mais importantes descritos na acusação (a detenção e alegadas agressões ilegais a Bruno Lopes e as agressões na esquadra aos outros cincos jovens da Cova da Moura), foi fundamental por dois motivos: primeiro para confirmar que Miguel Reis foi detido fora da esquadra - como diz o MP contrariando a versão dos agentes da PSP, segundo a qual o grupo entrou nas instalações policiai para as invadir e resgatar o amigo Bruno; depois para garantir que (tal como já tinha sido admitido antes no testemunho dos serviços de emergência) esteve uma ambulância no local mais cedo para assistir Bruno Lopes, cuja detenção no bairro o deixara ferido e tinha levado o grupo de amigos a deslocarem-se à esquadra para saber do seu estado.

A sua certeza quanto à presença da ambulância estacionada à porta da esquadra perto das 14 horas suscitou, porém, algum ceticismo no coletivo de juízes que não se recordava, possivelmente, do testemunho da sessão anterior. Nem esta situação foi descrita na acusação do MP, segundo a qual o INEM e os Bombeiros só ali se deslocaram mais ao final da tarde.

No entanto, segundo revelou em tribunal, na sessão do passado dia 26 de outubro, uma das bombeiras que foi prestar assistência aos jovens feridos, houve mesmo uma deslocação mais cedo.

As bombeiras Ana Sofia e Valéria teriam começado o seu turno juntas às oito da manhã, com fim previsto para as 20.00. Sofia relatou ao tribunal que antes de terem ido socorrer os cinco jovens agredidos, ambas tinham sido chamadas pouco tempo antes para uma outra ocorrência - para socorrer Bruno Lopes, alegada vítima e o primeiro detido pela polícia - exatamente no mesmo local.

A jornalista que não quer falar

Johnson disse ao tribunal que a jornalista que o acompanhava também viu a situação que descreveu. Depois de insistência da juiz presidente Ester Pacheco, disse o nome da jornalista da Lusa. Contactada pelo DN, fonte próxima da jornalista diz que esta não quer comentar o testemunho de Semedo, remetendo declarações para tribunal "se for convocada".

João Semedo Tavares contou ainda que conhece Miguel "desde miúdo" e que foi seu "monitor" na Associação Moinho da Juventude. "Era um miúdo pacato, educado, não se metia em problemas em problemas de maior. Tinha aptidões para o futebol mas, infelizmente, não o conseguimos federar por problemas de documentação", assinalou.

Johnson vive na Cova da Moura desde os dois anos, esteve preso 10 anos e quando saiu quis mudar a sua vida. Criou a Academia Johnson, onde trabalha com jovens na prevenção de comportamentos de risco. Tem sido entrevistado por vários órgãos de comunicação social. A mais recente foi ao programa de Maria João Seixas, na RTP2.

Medo da carrinha da PSP

O testemunho seguro de Johnson contrastou com o de Fernando Veiga, muito pressionado pela defesa dos polícias e pelo próprio procurador do MP, Manuel das Dores.

Veiga fazia parte do grupo que, com Flávio Almada, Celso Lopes, Paulo Veiga, Miguel Reis e António Angelino, tinha partido do bairro para ir à esquadra saber de Bruno. Tinha sabido da sua detenção no bairro, antecedida por uma situação de "pânico" e "medo" dos moradores ao ver chegar a carrinha da PSP. "Mas medo porquê? O que é que a polícia fez de errado para as pessoas fugirem?", questionou a juíza. "Não sei. Acho que têm pânico daquela carrinha", respondeu.

A "carrinha" é o transporte das designadas Equipas de Intervenção Rápida da PSP, responsáveis pelas operações mais musculadas no bairro.

Fernando diz que foi para casa, a cerca de 100 metros, e ouviu tiros da polícia. "Mas como soube que eram da polícia? No bairro não há armas?", indagou o procurador da República. "Se eu tinha visto a carrinha a chegar pensei logo que era tiros da polícia", esclareceu Fernando Veiga. Garante ter visto "sangue na parede e no chão" junto ao café, o que também coincide com a versão do MP e contraria a dos polícias que alegam ter detido Bruno numa rua do outro lado do bairro.

Tal como Angelino, conseguiu escapar quando os agentes da esquadra avançaram sobre o grupo. "Começou a ficar muito agressivo", sublinhou. Ainda teve tempo, segundo contou ao tribunal, de ouvir os disparos da shotgun e ver "Celso no chão, com polícias a darem-lhe pontapés e bastonadas". Celso Lopes foi ferido numa perna com um dos bagos de borracha disparados.

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